6 de junho de 2013

Seu Genaro

Seu Genaro acorda cedo. É sábado, mas em sua vida de aposentado isso guarda pouco significado. Seu Genaro segue a mesma rotina, religiosamente. Toma banho, penteia os cabelos que conserva com orgulho aos seus 72 anos, se veste com esmero e desce para a rua. Vai à padaria da esquina, pede "o de sempre", senta-se próximo à janela. Se é um dia de sol, compra um jornal na saída e lê na pracinha em frente. Neste sábado específico fazia sol, comprou, saiu.

Seu Genaro reflete no caminho à pracinha, como muitas vezes já fizera, que a rotina é o que o prende conectado ao mundo. Desde a aposentadoria, se agarra às atividades que lhe são familiares. Levou um tempo para se habituar à mudança de não ter mais o destino certo do emprego diário, mas encontrou e assimilou o novo paradigma. Essa é a sua zona de conforto, uma cadeia de coisas que dependem umas das outras. Um algoritmo. Se lhe falta água, não pode sair de casa. Como poderia, sem tomar banho? Perde-se o pente, toca a pedir à empregada que lhe compre outro. Não é apropriado que um senhor bem educado saia à rua com os cabelos desgrenhados. Não expressa esse temor a ninguém, mas se preocupa que possam um dia querer fechar a padaria. Não teria mais onde ir. O seu ritual diário é a sua âncora de sanidade em um mundo que deixou de compreender.

Ao chegar à pracinha, Seu Genaro olha com censura para um grupo de jovens. Nenhum deles penteou os cabelos ou fez a barba naquele sábado pela manhã. Pela aparência deles, provavelmente não haviam sequer tomado banho, ou ao menos dormido. Arruaceiros, que passaram a madrugada de sexta na rua.

O desleixo dos jovens é algo que Seu Genaro também não entende. Esses garotos de vinte e poucos não se importavam com nada, nem com eles mesmos. Cabelos de qualquer jeito, barba por fazer, vestiam a primeira coisa que encontravam no guarda-roupa. O futuro seria certamente negro, mas para Seu Genaro o futuro não importa muito. Só esperava que não tirassem dele a padaria.

O jornal - porque as letras ficavam cada vez menores? - não conseguia prender a atenção de Seu Genaro. Mais garotas e garotos malcuidados se uniam ao pequeno grupo inicial. Chegavam conversando, fazendo barulho, se apresentando. Alguns carregavam faixas. Entreouvindo os comentários de um grupo próximo, ficou sabendo que haveria uma manifestação. Algo sobre direitos dos animais e testes de cosméticos. Seu Genaro fez uma careta. O que tinham aqueles moleques a ver com isso? A julgar pela cara deles, nenhum usava cosmético algum. Muito menos eram animais, embora para Seu Genaro não estivessem muito longe.

Lembrou-se de quando era jovem e acompanhara a luta contra a ditadura. Aquilo era uma causa. Recém saído da universidade, chegou a ir a encontros políticos, antes que o emprego e o casamento o fizeram evitar riscos. Não ligava muito para capitalismo ou socialismo, para ele a luta importante era pela liberdade de expressão. Agora não estava tão certo. Era para isso que estavam usando o que a sua geração suou para conseguir? Todas as grandes lutas já haviam sido travadas. Esses jovens já receberam tudo pronto e ainda não estavam contentes. Crianças mimadas, buscando um motivo qualquer para se rebelar.

Um dos garotos veio até Seu Genaro e entregou um panfleto. Era sobre uma grande empresa alimentícia que utilizava óleo vegetal proveniente de fontes ilegais na Malásia. Foi a gota d'água. Seu Genaro esboçou perguntar "você é Malaio?" ao garoto, mas este já estava longe. Levantando-se, o septuagenário atravessou a rua e tomou o ônibus. Mais um minuto na praça e se atrasaria para seu jogo de bocha. Sentado no assento reservado, Seu Genaro resmungava: "Esse mundo está é perdido."

5 comentários:

Fabi disse...

brilhante!
voce conseguiu captar num so personagem todos os 'Genaros'.

Mari Salete Oldoni disse...

Muito bom! Dá um apanhado bacana de como os mais velhos vêem o mundo de hoje sem entender direito o que se passa e ainda mostra o sentimento oculto. Vou juntar todos seus contos e fazer uma publicação!!!! Comecei a procurar editora... Fui!

Raquel Beatriz disse...

Dioguito...

adoro suas crônicas... leves com um humor ....

acho que no fundo somos todos Genaros sabia?

Lucy disse...

Muto bom, Diogo!

Diogo de Lima disse...

Obrigado, gente! Raquel, existem muito Genaros por aí de todas as idades... e todos temos um pouco de Genaro.

 
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