29 de novembro de 2012

História Insólita #7 - Dormindo com o inimigo

Convivo com um serial killer. Todos os dias, ele dorme ao meu lado. Cada vez mais me convenço de que é apenas uma questão de tempo até que, em um de seus frequentes surtos, ele avance sobre mim e me faça em pedaços.

No princípio, quando ele me acolheu em sua casa, não reparei nada estranho. Não tardou, porém, para que eu presenciasse um de seu acessos de raiva. Irrompendo no quarto, batendo a porta, desferiu um soco no armário. Não foi um soco leve, comedido. Foi um senhor murro, que o deixou resmungando de dor na mão. Quem levou a pior foi o armário, cuja porta rachou imediatamente num estalo. Até agora, uma semana depois, ela está no mesmo estado, semipendurada, sem nenhum conserto.

Esse foi apenas o primeiro de uma série de atos descontrolados. Na última ocasião, novamente entrando abruptamente no quarto enquanto balbuciava palavras incompreensíveis, atacou o banquinho que ficava ao lado da escrivaninha. Golpeando-o no piso, o desfêz em pedaços. Nada restou do banco além de pedaços de madeira desconjuntados. E a única coisa que pude fazer foi assistir à cena, completamente incapaz de me mover.

Eu sei que cedo ou tarde ele virá até mim. Nem que seja quando não houverem outras opções. Mas não acredito que irá demorar. Eu já reparei no modo como ele me olha. Quando eu vim para esta casa, esperava que seria bem cuidada. Talvez até amada. Ilusões juvenis. Agora compreendo porque ele me queria aqui. Não tenho dúvidas do destino que teve minha antecessora. É só uma questão de tempo.

Acabo de ouvir a porta bater lá embaixo. Estou com um mau pressentimento. Já conheço a forma como os pés dele batem na escada quando ele está daquele jeito. Sim, ele acabou de entrar no quarto. Transtornado. Dando voltas e voltas e voltas, vociferando contra qualquer coisa invisível. Olhou pra mim. Oh, não, ele olhou pra mim! Eu estou completamente indefesa. Ele está se aproximando, bufando.

É a minha hora. Adeus. Deixo esse relato como meu último testamento.

Adeus! Nunca pensei que seria tão curta a minha vida como mesa de cabeceira.
 
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