19 de outubro de 2012

História Insólita #6 - Comédia Romântica Vagabunda


Encontraram-se na cozinha de um apartamento, numa festa de faculdade. Otávio teve aquele aviso, aquele lampejo, aquela sensação tão indescritível quanto facilmente reconhecível por qualquer um que já tenha sentido o mesmo. O tipo de intuição que faz com que você ache que essa pessoa, que você nunca viu na vida, sobre a qual você não sabe absolutamente nada, possa ser a pessoa que tem a resposta para tudo que você sempre buscou e nunca soube definir. Mais do que isso, Otávio queria acreditar (e por isso acabou acreditando) ter visto nos olhos dela o mesmo tipo de faísca que se acendera dentro de si.

Bastaram cinco minutos de conversa para que se convencesse de que estava certo. A conversa com Tamara fluía como se ambos se conhecessem há anos. Gostavam dos mesmos filmes, tinham gosto semelhante para música, e criticavam os mesmos tipos de comportamentos nas outras pessoas. Uma identificação instantânea. Até discordavam em algumas coisas, o que era definitivamente um bom sinal. Engana-se quem pensa que para um casal dar certo, eles devem partilhar das mesmas opiniões. O importante é ter opiniões sobre os mesmos assuntos, sejam elas quais forem. Discordar, mais que bem vindo, é imprescindível.

Tudo corria perfeitamente bem, até que Otávio resolveu sondar em que terreno estava pisando. Tomando o cuidado de não parecer óbvio demais, perguntou:

- Você não é da Engenharia, é?
- Não...
- Imaginei. Nunca te vi pelos corredores do curso. Está aqui com alguém?
- Sim. Meu namorado. Aquele ali.

Ao ouvir a palavra "namorado", o estômago de Otávio deu um nó, e ele precisou se controlar para não deixar os braços caírem ao lado do corpo. Mas o desânimo maior estava por vir, e veio quando Tamara apontou para um primata bípede, no meio da sala do apartamento, cuja forma se assemelhava à de um neandertal, e que vociferava para todos que pudessem ouvir que o Ronaldo Fenômeno era muito mais que o Messi jamais seria, e isso se devia ao simples fato do primeiro já ter defendido "o manto sagrado do Coringão".

Otávio reconhceu-o, óbvio. Todos o conheciam. Atendia pela alcunha de Romão, e era um dos veteranos do curso de Engenharia. Ninguém sabia ao certo há quanto tempo ele estava lá. Nunca aparecia nas aulas, mas estava em todas as festas. Entre outras formas carinhosas, era também conhecido como "irmão mais novo do Shrek", ou, como era mais divertido, "Sherekinho". Otávio teve que abrir um meio-sorriso amargurado para sua sorte. Tal como no maior dos clichês de uma comédia romântica vagabunda da Sessão da Tarde, a garota de seus sonhos namorava um idiota.

Continuaram conversando. Romão pareceu não dar bola para o fato de que a namorada conversava com outro sujeito. Na verdade, aparentemente mal se lembrava que Tamara estava no recinto. A voz de Romão ribombava pelo apartamento, impedindo que qualquer um ouvisse qualquer outra coisa que era dita, e como Tamara e Otávio não estavam interessados em opinar sobre quem era a mais gostosa entre as atrizes da novela, retiraram-se para a varanda.

Quanto mais Otávio conhecia Tamara, menos podia conceber o que ela via em Romão e como os dois podiam estar juntos. E a dúvida tornou-se incompreensão, e a incompreensão tornou-se indignação, até o ponto em que ele explodiu em um surto romântico:

- Como você pode estar com esse cara? Com esse grosso? Vocês não tem nada a ver! Ele nem te dá atenção, não te dá a atenção que você merece! E você merece muito mais do que ele! Eu posso ser muito mais do que ele. Eu te daria muito mais do que ele! Eu te daria a lua e as estrelas se você me pedisse!

- Vocês querem parar com essa merda!?

Era a voz de Romão. A música tinha parado, a conversa tinha parado, e estavam todos assistindo a cena.

- Onde vocês pensam que estão? - continuou Romão. Nós estamos aqui do lado, a dois metros de distância, acham que a gente é surdo?

Tomado de coragem, ou talvez apenas embalado pela cerveja, Otávio decidiu enfrentá-lo:

- Não faço questão de esconder o que eu disse. Eu acho isso mesmo. Você não merece uma garota como a Tamara!

Todos ficaram tensos. Todos, exceto Romão, que relaxou, e abriu um sorriso sarcástico.

- Ah... conheço o teu tipinho. O velho arquétipo do Dom Quixote. Você acha que é melhor do que os outros, que é o cavaleiro em busca da verdade e da justiça, que salvará as donzelas em perigo. Pois deixa eu te dizer uma coisa: quando eu conheci a Tamara, ela estava sozinha. Solteira. Se algum de nós está errado aqui, é você. O senhor, cavaleiro da armadura brilhante, é só mais um babaca tentando roubar a namorada dos outros. A mesma coisa que se fosse eu que estivesse fazendo, você não iria pensar duas vezes antes de condenar. E mesmo que você ache que é por uma boa causa, o que acontece com a sua donzela virginal no momento em que ela escolhe ir com você? Se torna uma qualquer, que trai o namorado com o primeiro malandro que vem com uma conversa mole como a sua. O resultado da sua jornada, nobre andante, é que o cavaleiro altruísta e a mocinha inocente se tornam automaticamente um velhaco e uma rameira. Vambora daqui.

E enlaçando Tamara pela cintura com a delicadeza de uma retro-escavadeira, Romão se encaminhou para a porta, resmungando:

- Lua e estrelas, vê se pode... além de tudo faz promessa que não pode cumprir!

Saíram, mas não antes de Tamara lançar um olhar para trás e jogar uma piscadela bem safada para Otávio.

Romão tinha razão. A vida não é uma comédia romântica vagabunda da Sessão da Tarde. Otávio ficou ali, em pé, na varanda, amaldiçoando a lógica e a realidade.

 
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