17 de março de 2012

História Insólita #5

Osvaldo olhou para o papel e viu o sangue. A água da privada estava tingida de vermelho. Não era a primeira vez. "Amanhã mesmo marco a consulta", pensou, pela décima noite seguida. "De amanhã não passa."

Vinte e três amanhãs depois, Osvaldo entrava no consultório. Relatou ao médico os sintomas. O sangramento, a constipação. O médico desconfiou, mas pediu um ultrassom para ter certeza.

No dia seguinte, enquanto a médica espalhava o gel frio e deslizava o aparelho de ultrassom sobre o seu ventre proeminente, Osvaldo se sentiu meio idiota. "É como se eu estivesse grávido!" Com um sorriso amarelo, tentou fazer uma piadinha sobre a situação para a médica, que reagiu com frieza e não comentou nada. Osvaldo voltou para o carro com um certo constrangimento, mas ainda assim achando aquilo tudo um tanto divertido.

Na semana seguinte, comentou a impressão com o médico na consulta de retorno. "Imagina, doutor, se você descobre que eu estou grávido?" "Só se o senhor engravidou de uma tênia," respondeu o médico. "Você tem uma das grandes. Uns dez metros, eu diria".

Osvaldo ficou horrorizado em pensar que dividia o corpo com um parasita mais comprido que o seu apartamento. "Há quanto tempo ela está aqui?" "Não dá pra saber. Uns dois anos, talvez." Com a receita do vermífugo em mãos, Osvaldo foi direto pra farmácia, comprou o remédio e rumou para o apartamento - que continuava menor que a tênia.

Era uma coisa nova. A princípio, se concentrou no tamanho. Buscava uma referência para criar uma imagem mental do parasita. 10 metros. Comparava-a com o tamanho da estante, o comprimento da sala, até saiu no corredor do prédio para imaginar a tênia lá, esticada como uma fita métrica.

De repente se deu conta que o que era importante não era o tamanho, mas o tempo. Não importava o quão grande a tênia fosse, o curioso era o fato de ela estar ali dentro há dois anos. Pensou nas coisas que havia feito nesse período. Em tudo incluía o verme, como um espectador invisível de cada noite de bebedeira, de cada gol no futebol. No sexo. A tênia tinha ido para a cama com todas as mulheres com quem ele transara nesses dois anos.

Olhou para a caixa de vermífugo na mesa. Pensou na tênia. 10 metros. Dois anos. Com ele em todos os momentos. Não teve coragem. Jogou o remédio na gaveta, e fechou-a com ruído.

Decidiu que gostava da tênia. Gostava da ideia de ter um animal de estimação tão único. E tão perto. Comendo o que ele comia. Compartilhando o seu sangue.

Passou a nutrir o verme como uma mãe dedicada. Procurava modos de interagir com a tênia. Quando ele comia açúcar, ela se agitava. Osvaldo se deliciava em sentir o parasita se revolvendo em seu interior após uma cocada. Gostava de pensar que a tênia estava feliz.

Os amigos acharam estranho. "Dez metros!", contava com orgulho sempre que conhecia alguém novo. E passou a chamá-la de Valtênia.

Um dia, Osvaldo adoeceu. Uma virose qualquer. Enfraqueceu. Nada surpreendentemente, Valtênia continuou a sugar-lhe o sangue de maneira impiedosa. Pálido, desmaiou uma manhã em frente a todos no escritório.

Osvaldo acordou no hospital. Vendo a medicação na bolsa de soro, compreendeu tudo. Não precisava explicação. Valtênia tinha-se ido.

Quando o médico entrou no quarto, encontrou Osvaldo chorando copiosamente. E balbuciava: "Meu bebê... meu bebê..."

2 comentários:

Raquel Beatriz disse...

diogo sua cabeça não é deste mundo.... bacana a história

Lucy disse...

Bom, original! :)

 
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