4 de outubro de 2011

Porque eu não consigo fazer poesia

Eu tenho alguns amigos com blogs de poesia [o Desacanhamento Poético ou o Encurtação, por exemplo]. Como escritor enrustido que sou, já me arvorei por esse lado, mas nunca consegui produzir algo que tenha valor. Pelo menos, nunca vi em nenhuma poesia que já tenha escrito algo publicável. Até recentemente, eu achava que isso se devia a incompetência literária, mas essa semana tive um estalo do que isso realmente significa.

O que eu nunca tinha compreendido antes é que a poesia, exagerando um pouco, é a forma literária mais próxima da expressão de um sentimento puro. É claro que a elaboração de um poema envolve algum tipo de processo intelectual, racional, organizacional, o que quer que seja, mas sem o sentimento bruto a poesia nao está lá. É aí que o meu fracasso poético se cristaliza. Já na raiz. Porque eu nao sei aceitar um sentimento bruto. No momento do nascimento, ele é contaminado pela pergunta que permeia todo esforço intelectual que eu desenvolvo: "por quê?". E assim eu transformo o que seria meramente uma sensação em busca de ser exprimida em um dado, um problema, um enigma a ser resolvido.

Eu nasci ignorante, como poderia definir o nosso ex-presidente Lula. Completamente ignorante de tudo. Toda a vida, eu tenho lutado contra essa ignorância inata, empenhado em compreender os comos e os porquês. E poesia é ignorância. É ignorar os motivos, desconsiderar os processos, anular as causas. É aceitar a sensação simples, abraçar a primeiridade, sem tentar compreendê-la, controlá-la, domesticá-la - apenas fazendo o necessário para exprimí-la. Se você racionalizar, se você parar para pensar e lembrar que, por exemplo, a paixão se resume a uma tempestade neuroquímica no seu cérebro, motivada por um instinto primitivo de continuidade da espécie aliado a uma série de eventos pavlovianamente condicionantes, você espreme toda a poesia para fora dela. É como apertar uma uva até a fruta saltar pra fora, deixando apenas a casca na sua mão, e é exatamente o que eu não consigo deixar de fazer.

É isso que impulsiona esse blog, é a sua arché, a sua raison d'être. Essa sanha analítica que não deixa em paz o mínimo grão de areia que me cruza o caminho e que apunhala e expulsa de mim toda a poesia. Até quando eu estou lendo poesia não consigo deixar de analisar o porquê. Por que esse verso se quebrou aqui? Por que essa palavra está isolada nessa linha? Talvez nem o poeta tenha a resposta, mas eu me recuso a aceitar a aleatoriedade, ou dar de ombros perante a falta de explicação. Motivo há. Pra tudo. E eu preciso descobrir.

2 comentários:

Raquel Beatriz disse...

como cronista vc é otimo...

texto muito bacana... muito mesmo...
rendo-me também a minha primeiridade que não deixa eu produzir prosa ahah!

ps: eu um dia pretendo usar binóculo porque prosa é mudar o foco... mas ainda não consigui...

Diogo de Lima disse...

eu tenho até uma certa birra de poesia, porque muitas vezes eu nao consigo extrair um sentido, por mais que eu esprema... mas agora que eu finalmente compreendi que isso nao é realmente necessário eu vou me segurar na próxima vez que eu entrar no seu blog e simplesmente apreciar a imagética

 
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