27 de outubro de 2011

História Insólita #4 - Parte 1


"O sabor fica mais intenso com o passar do tempo", disse o senhor. Ele devia ter desconfiado do sorriso zombeteiro daquele estranho homem de meia idade que encontrara numa vila perdida no meio do nada no interior da Romênia.

Ele era um chef de cozinha renomado, em uma viagem de férias pela Europa. Cansado dos grandes centros, nos quais todos os restaurantes interessantes já eram familiares, e de cujos chefs era conhecido ou mesmo amigo íntimo, resolvera sair a esmo com um carro alugado descobrindo as paisagens e sabores de recantos pouco explorados pelos turistas. As paisagens sempre surpreendiam, mas ao se aproximar do fim da segunda semana, as pequenas vilas e lugarejos que se sucediam já começavam a parecer todas iguais, e nenhuma nova receita ou ingrediente secreto havia sido descoberto. Ele estava começando a aceitar a tediosa verdade de que não havia mesmo nada novo sob o sol.

No final do segundo dia do último trecho da viagem, uma jornada de três dias entre Zagreb e Bucareste, de onde pegaria o voo para retornar ao Brasil, resolveu parar para jantar num pequeno restaurante logo após a fronteira entre a Sérvia e a Romênia. O lugar era o perfeito estereótipo do restaurante de vila européia: uma casa antiga (300? 400 anos? Ele especulava), assoalho, pilares e vergalhões de madeira gasta pelo tempo, floreiras nas janelas pequenas que deixavam passar muito pouco da luz do sol que já morria no horizonte, mal auxiliadas pela iluminação tímida de arandelas de ferro fundido, mesas de madeira robusta cobertas pelo velho clichê (a toalha de mesa xadrez branca e vermelha). No extremo oposto à entrada, uma tabuleta com a tradução inglesa "Vacancy" sob o emaranhado indecifrável de caracteres escritos em romeno, pendurada sobre o balcão atrás do qual se viam prateleiras abarrotadas de garrafas empoeiradas, indicava que o estabelecimento era também uma estalagem. Um local sem luxo, mas ainda assim convidativo e pitoresco.

Aparentemente, era um desses lugares geridos pela família. Todos conhecem um lugar assim: um velho magro que fala pouco, uma senhora gorda mandona e uma filha adolescente que passa metade do tempo esperando que um dos hóspedes se apaixone por ela, case e a leve embora dali o mais rápido possível. Porém, não havia senhora gorda ou filha adolescente, apenas um senhor no final da casa dos cinquenta, de postura ligeiramente encurvada e olhar de esguelha.

O chef entrou, cumprimentou a figura de rosto encovado atrás do balcão, e perguntou se falava-se inglês ali, já se preparando para sair perante uma expressão de incompreensão do interlocutor, algo que já acontecera diversas vezes na viagem. Para sua surpresa, ouviu um "of course", com o característico sotaque do leste europeu. O homem falava um inglês truncado, mas relativamente fluente, e a comunicação acontecia sem problemas. 

O chef sentou em uma das mesas disponíveis - o que correspondia a qualquer mesa no restaurante, uma vez que o salão estava completamente vazio - e pediu o especial da noite, acompanhado de um vinho desconhecido de produção local. Ambientes assim, pensava ele, são contrários à sofisticação. Após o pedido, o velho atravessou a porta que presumivelmente levava à cozinha e não voltou. Nenhum cliente entrou. O sol acabou de se pôr, deixando o ambiente à mercê da iluminação pobre das arandelas. Não havia qualquer música ambiente, e o ar frio do início da noite já começava a soprar pelas frestas entre as táboas do assoalho. Foram vinte minutos de crescente desconforto.

Quando ele já considerava as hipóteses de ir embora, verificar se o velho não tinha morrido nos fundos do restaurante ou se preparar para correr caso algum psicopata irrompesse da cozinha com uma faca, o mesmo homem voltou empurrando um carrinho vagarosamente, como que apreciando o som das rodinhas que rangiam, ecoando no salão silencioso.

A refeição estava perfeita. O conforto da comida quente dissipou de imediato a sensação de ansiedade causada pela espera, embora a consciência daquele olhar enviesado do romeno fixo sobre ele não fosse exatamente algo agradável. O vinho, entretanto, logo deu um jeito nisso. Após a retirada dos pratos (sempre o mesmo homem executando todas as tarefas), o senhor veio perguntar se ele tinha gostado da comida. O chef fez mil elogios à comida, dizendo com sinceridade que fora a melhor refeição que tivera na viagem, e insistiu em conhecer o chef da estalagem. O homem assumiu um semblante austero e disse: "Impossível. Ele já saiu." A secura das palavras do velho o impediu de argumentar que ainda eram apenas oito da noite. Engajaram-se então em uma animada discussão sobre ervas, assunto a respeito do qual o romeno parecia ter profundo conhecimento, e durante a conversa o chef manifestou a sua decepção pela falta de novidade na viagem. O homem então disse já estava tarde e escuro no seu quintal, mas que se o chef ficasse na estalagem, pela manhã o apresentaria a uma erva aromática que não se encontrava facilmente e que já caíra em desuso há muito tempo. Ele agradeceu a oferta, e como já houvesse bebido sozinho toda a garrafa de vinho, decidiu subir para o quarto de imediato. Recém deitara o corpo sobre a cama quando caiu num sono profundo.

CONTINUA

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