28 de outubro de 2011

História Insólita #4 - Parte 2


Na manhã seguinte, o homem cumpriu a promessa. Entre uma grande quantidade de plantas conhecidas, organizadas com esmero no quintal, havia um pequeno arbusto com um palmo de diâmetro e menos que isso em altura num canto do jardim de ervas do romeno. Uma planta com folhas estreitas e aveludadas, num arbusto quase esférico bastante fechado. O senhor lentamente abaixou-se, coletou uma folha, estendeu-a ao chef com o permanente olhar de canto de olho, e com um sorriso na extremidade dos lábios pediu que a mascasse. O chef assim o fez. Em nenhum momento o olhar do romeno deixou o rosto do chef, como se estivesse esperando pela reação.

A folha tinha um gosto ligeiramente amargo, com um toque cítrico, mas extremamente leve, algo que só um paladar muito apurado conseguiria detectar. Para 80% das pessoas, ponderou, a folha teria gosto de nada, e com certeza o sabor se perderia por inteiro ao ser misturado com outros ingredientes. Como se lesse os seus pensamentos, o romeno disse: "No começo é bem leve mesmo, mas o sabor fica mais intenso com o passar do tempo". Sem muito interesse, e um pouco decepcionado, o chef perguntou o nome da planta. O romeno escreveu um nome em latim num pedaço de papel que entregou ao hóspede, e após o café da manhã a viagem prosseguiu direto para Bucareste. Ao atravessar a vila, não viu uma alma viva.

Alguma coisa o incomodava. Algo difícil de dizer o que era. Até que ele percebeu. À medida que o gosto do café bebido minutos antes de sair ia se desvanecendo, o gosto amargo-cítrico da erva continuava latejando no fundo da língua, ainda leve, mas inconfundivelmente mais perceptível. Não importava o que ele comesse ou bebesse, o sabor persistia enquanto ele chegava em Bucareste, entregava o carro alugado, durante toda a noite no hotel e na viagem de volta ao Brasil. Ao desembarcar em São Paulo, o gosto da erva já estava tão forte quanto o de hortelã recém macerada, persistindo aquele amargo-cítrico que por uma dessas associações inexplicáveis o lembrava de um tom verde oliva.

Voltou ao trabalho, no restaurante do qual era sócio, mas as coisas não eram como antes. A clientela notou a diferença. No começo, apenas os clientes mais exigentes reclamavam do tempero que ficara mais forte. O chef não conseguia mais desvincular o sabor dos pratos no restaurante do gosto da erva, que mesmo depois de dias continuava a ficar cada vez mais intenso. Na tentativa de sobrepujar o persistente amargo-cítrico, mandava os subchefs carregarem no tempero, o que faziam a muito contragosto. Conforme a recusa de pratos ficava cada vez mais frequente, o clima na cozinha começou a pesar.

Passadas duas semanas do encontro com o romeno, ele decidiu que precisava de ajuda. Algo estava definitivamente errado, aquilo não podia estar acontecendo. Não sentia o gosto de mais nada que não fosse o sabor da erva misteriosa. No princípio, o sabor da comida e bebida se misturavam ou superavam o amargo-cítrico da planta romena, mas agora era insuportável. Nada conseguia tirar o sabor da sua boca, qualquer coisa que comesse ou bebesse só fazia potencializar a sensação. Comer o que quer que fosse era como mastigar bocados da erva, até beber água era como sorver a seiva da planta. Foi ao médico, descreveu os sintomas, fez todos os exames possíveis. Não havia nada errado com ele fisicamente, nenhuma substância anormal foi encontrada em sua saliva, o problema devia ser psicológico.

No restaurante, tudo ia de mal a pior. O estresse atingira um nível crítico. A frequencia de clientes caíra drasticamente, nenhum dos regulares retornava, os críticos culinários escreviam artigos destruidores. Apenas o renome do chef continuava atraindo clientes, mas isso não seria o suficiente por muito tempo. Frustrado, sem conseguir distinguir o sabor do que era preparado, gritava com os auxiliares, mandava todos os cozinheiros refazerem os pratos diversas vezes. O sabor se tornara tão intenso que começara a afetar os outros sentidos. O olfato já estava completamente comprometido. Sentia em tudo o cheiro do amargo da erva. Via tudo atrás de um filtro verde-oliva. Os subchefs e auxiliares cochichavam entre si, lançavam a ele olhares enviesados. Nos olhares tortos, o rosto dos cozinheiros se tranfigurava, por uma fração de segundo, no rosto do romeno e seu sorriso de canto, agora mais zombeteiro que nunca, apenas para voltar ao normal num piscar de olhos no semblante assustado do auxiliar, atemorizado pela expressão de terror que a face do chef assumia.

O sócio decidiu por afastá-lo. Ele não ofereceu resistência, sabia que não estava em condições de continuar trabalhando. Foi ao psiquiatra. Contou tudo, do encontro, da erva, das alucinações. O psiquiatra não acreditou. Seu diagnóstico, já que não havia causa física, era de que uma experiência extremamente traumática havia ocorrido durante a viagem, e que a história do restaurante romeno era uma fantasia criada para sobreescrever a memória real do que acontecera. Prometera ao chef que ele ficaria bem, que trabalhariam em sessões semanais até derrubar o bloqueio, e receitou um antipsicótico poderoso para estabilizar e conter a progressão do delírio.

O chef acreditou no diagnóstico. Ele queria acreditar no diagnóstico. Era uma explicação suficientemente razoável. Comprou e tomou a medicação diligentemente. O efeito da droga só piorava a sensação. Sentia-se mais devagar, mais desconectado do mundo, menos responsivo aos estímulos externos. Quanto mais a medicação o isolava do mundo, mais rápido o sabor da folha aveludada crescia em suas papilas, mais esverdeada ficava a sua visão, os sons mais distantes. Estava difícil até mesmo pensar em qualquer coisa que não fosse a sensação intoxicante e enlouquecedora daquele amargo-cítrico infernal.

Na segunda sessão, contou ao médico o agravamento dos efeitos. Embaçado atrás do filtro verde-oliva, o semblante do psiquiatra pareceu desconcertado. Sugeriu um aumento da dosagem. O chef fingiu concordar. Percebeu que o psiquiatra não seria de grande ajuda. Decidiu que só havia uma coisa a ser feita: voltar à Romênia e encontrar a estalagem. O homem sabia como parar aquilo. Tinha de saber.

Saiu direto do consultório para o aeroporto. Comprou passagem no primeiro voo disponível para a região. Depois de inúmeras escalas e conexões, desembarcou de novo em Bucareste. Mal articulando as palavras, teve de implorar e pagar uma fortuna para um táxi levá-lo pelos mais de 300 quilômetros até a entrada da vila. O táxi se foi. O filtro verde estava quase opaco. O mundo era nada mais que vultos em tons mais claros ou mais escuros da mesma massa verde oliva. Com dificuldade, distinguia a estrada e o volume das casas de cada lado da via. Como antes, não encontrou ninguém pelo caminho. Não sabia dizer se o silêncio era real ou se a sensação crescera a ponto de ensurdecê-lo. Aqui e ali, obtinha um vislumbre de uma janela quebrada, uma porta lacrada com táboas, uma parede em ruínas. A vila parecida abandonada há décadas. Deixou o instinto guiá-lo. Reconheceu os contornos da estalagem. Nenhum sinal do romeno. Não foi preciso bater, não havia porta. Contornou as mesas com cadeiras quebradas empilhadas sobre elas, passou cambaleando pela cozinha repleta de teias de aranha, saiu para o quintal. Sentia o sabor em cada poro do seu corpo, seu sangue tinha gosto de seiva amarga e cítrica, e ele sentia o sabor na superfície de suas veias. O verde-oliva diante de seus olhos ficava cada vez mais escuro. Não estava mais sequer consciente do silêncio em torno de si. Pisava como se caminhasse imerso na água, sem sentir o chão sob os pés. Agia por puro instinto. Atravessou o quintal coberto pelo mato de anos sem manutenção, até divisar uma diminuta forma semi-esférica no chão. Tombou de joelhos a dois metros da planta. Tudo escurecia. Esticou a mão para o pequeno arbusto, num último esforço, deitando de ventre no chão. Tocou uma folha aveludada com a ponta dos dedos. A mão caiu. Não havia som, toque, nada diante de seus olhos. Não havia pensamento ou idéia que não fosse o sabor. 

Ele era o sabor.

27 de outubro de 2011

História Insólita #4 - Parte 1


"O sabor fica mais intenso com o passar do tempo", disse o senhor. Ele devia ter desconfiado do sorriso zombeteiro daquele estranho homem de meia idade que encontrara numa vila perdida no meio do nada no interior da Romênia.

Ele era um chef de cozinha renomado, em uma viagem de férias pela Europa. Cansado dos grandes centros, nos quais todos os restaurantes interessantes já eram familiares, e de cujos chefs era conhecido ou mesmo amigo íntimo, resolvera sair a esmo com um carro alugado descobrindo as paisagens e sabores de recantos pouco explorados pelos turistas. As paisagens sempre surpreendiam, mas ao se aproximar do fim da segunda semana, as pequenas vilas e lugarejos que se sucediam já começavam a parecer todas iguais, e nenhuma nova receita ou ingrediente secreto havia sido descoberto. Ele estava começando a aceitar a tediosa verdade de que não havia mesmo nada novo sob o sol.

No final do segundo dia do último trecho da viagem, uma jornada de três dias entre Zagreb e Bucareste, de onde pegaria o voo para retornar ao Brasil, resolveu parar para jantar num pequeno restaurante logo após a fronteira entre a Sérvia e a Romênia. O lugar era o perfeito estereótipo do restaurante de vila européia: uma casa antiga (300? 400 anos? Ele especulava), assoalho, pilares e vergalhões de madeira gasta pelo tempo, floreiras nas janelas pequenas que deixavam passar muito pouco da luz do sol que já morria no horizonte, mal auxiliadas pela iluminação tímida de arandelas de ferro fundido, mesas de madeira robusta cobertas pelo velho clichê (a toalha de mesa xadrez branca e vermelha). No extremo oposto à entrada, uma tabuleta com a tradução inglesa "Vacancy" sob o emaranhado indecifrável de caracteres escritos em romeno, pendurada sobre o balcão atrás do qual se viam prateleiras abarrotadas de garrafas empoeiradas, indicava que o estabelecimento era também uma estalagem. Um local sem luxo, mas ainda assim convidativo e pitoresco.

Aparentemente, era um desses lugares geridos pela família. Todos conhecem um lugar assim: um velho magro que fala pouco, uma senhora gorda mandona e uma filha adolescente que passa metade do tempo esperando que um dos hóspedes se apaixone por ela, case e a leve embora dali o mais rápido possível. Porém, não havia senhora gorda ou filha adolescente, apenas um senhor no final da casa dos cinquenta, de postura ligeiramente encurvada e olhar de esguelha.

O chef entrou, cumprimentou a figura de rosto encovado atrás do balcão, e perguntou se falava-se inglês ali, já se preparando para sair perante uma expressão de incompreensão do interlocutor, algo que já acontecera diversas vezes na viagem. Para sua surpresa, ouviu um "of course", com o característico sotaque do leste europeu. O homem falava um inglês truncado, mas relativamente fluente, e a comunicação acontecia sem problemas. 

O chef sentou em uma das mesas disponíveis - o que correspondia a qualquer mesa no restaurante, uma vez que o salão estava completamente vazio - e pediu o especial da noite, acompanhado de um vinho desconhecido de produção local. Ambientes assim, pensava ele, são contrários à sofisticação. Após o pedido, o velho atravessou a porta que presumivelmente levava à cozinha e não voltou. Nenhum cliente entrou. O sol acabou de se pôr, deixando o ambiente à mercê da iluminação pobre das arandelas. Não havia qualquer música ambiente, e o ar frio do início da noite já começava a soprar pelas frestas entre as táboas do assoalho. Foram vinte minutos de crescente desconforto.

Quando ele já considerava as hipóteses de ir embora, verificar se o velho não tinha morrido nos fundos do restaurante ou se preparar para correr caso algum psicopata irrompesse da cozinha com uma faca, o mesmo homem voltou empurrando um carrinho vagarosamente, como que apreciando o som das rodinhas que rangiam, ecoando no salão silencioso.

A refeição estava perfeita. O conforto da comida quente dissipou de imediato a sensação de ansiedade causada pela espera, embora a consciência daquele olhar enviesado do romeno fixo sobre ele não fosse exatamente algo agradável. O vinho, entretanto, logo deu um jeito nisso. Após a retirada dos pratos (sempre o mesmo homem executando todas as tarefas), o senhor veio perguntar se ele tinha gostado da comida. O chef fez mil elogios à comida, dizendo com sinceridade que fora a melhor refeição que tivera na viagem, e insistiu em conhecer o chef da estalagem. O homem assumiu um semblante austero e disse: "Impossível. Ele já saiu." A secura das palavras do velho o impediu de argumentar que ainda eram apenas oito da noite. Engajaram-se então em uma animada discussão sobre ervas, assunto a respeito do qual o romeno parecia ter profundo conhecimento, e durante a conversa o chef manifestou a sua decepção pela falta de novidade na viagem. O homem então disse já estava tarde e escuro no seu quintal, mas que se o chef ficasse na estalagem, pela manhã o apresentaria a uma erva aromática que não se encontrava facilmente e que já caíra em desuso há muito tempo. Ele agradeceu a oferta, e como já houvesse bebido sozinho toda a garrafa de vinho, decidiu subir para o quarto de imediato. Recém deitara o corpo sobre a cama quando caiu num sono profundo.

CONTINUA

7 de outubro de 2011

Top de 5ª e Playlist #6 - Top 15 Músicas com Riffs Matadores

Diz a Nossa Senhora que um "riff é uma progressão de acordes, intervalos ou notas musicais, que são repetidas no contexto de uma música, formando a base ou acompanhamento". Eu digo que um riff, especialmente um bom riff, é legal pra caramba. E o meu critério para um bom riff é o seguinte: tem que ser curto, tem que ser facilmente reconhecível, tem que ser cantarolável e tem que grudar na cabeça por três dias [a menos que seja substituído por outro riff]. Essa é a minha seleção para as 15 músicas com os riffs mais contagiantes e grudentos da história [era pra ser um top 10, mas sabe como é, eu não consegui deixar de fora mais do que eu deixei...]. Como eu não entendo nada realmente de música, não existe nenhum critério de dificuldade no riff ou complexidade da composição, e como eu não consegui ordená-los por nenhum critério qualitativo, a ordem será cronológica. Para ouvir as músicas, basta clicar no player na coluna da direita do blog. Rock it!

Junho 1965 - Satisfaction, The Rolling Stones. Diz a lenda que Keith Richards gravou esse riff numa noite logo antes de cair no sono. No dia seguinte ele encontrou a fita e não conseguia lembrar de ter gravado aquilo, mas a voz dele estava lá dizendo I can't get no satisfaction [sendo o Keith Richards, isso não me soa nada improvável]. Seja como for, pegue o violão, coloque o dedão na 5ª corda e toque nas casas 2-2--2-4-5--5-5-4-4-2, e você tem um dos riffs mais famosos da história. Graças a uma corda, uma noite de bebedeira e um gravador. Obrigado!

Outubro 1965 - Day Tripper, The Beatles. Se tem uma coisa pela qual os Beatles NÃO são famosos é pelos riffs das suas músicas. Então, como Beatlemaníaco que sou, tenho que agradecer a John Lennon pela inspiração de escrever o riff dessa música que me permite colocar o Fab Four entre os selecionados. Sou só eu, ou o riff de O Mundo é Bão Sebastião, do Nando Reis lembra muito o dessa música?

1967 - Foxy Lady, The Jimmy Hendrix Experience - Eu confesso que eu gosto desse riff mais por causa dessa cena clássica que por qualquer outro motivo. Mas ainda assim, essa música é de aumentar o volume até romper os tímpanos.

1969 - Whole Lotta Love, Led Zeppelin - Resista. Resita à tentação de headbanguear alucinadamente com esse riff. Resista só para descobrir que ele some no meio da música, e então volta com toda a força pra te pegar com a guarda baixa, e aí vc já não tem mais domínio do movimento da sua cabeça. O riff é tão forte que até a sua ausência o fortalece!

Janeiro 1970 - Roadhouse Blues, The Doors - 1970 foi o ano! Essa música está marcada para entrar na lista [no dia em que eu fizer tal lista] das melhores músicas pra se tocar em viagem. O clima de estrada está impregnado nessa peça, Roadhouse Blues tem cheiro de asfalto, e o riff que progride como o som de cavalos galopando te impulsiona em apenas um sentido: avante! Let it roll!

Fevereiro 1970 - N.I.B., Black Sabbath - Os Mutantes foram uma das bandas mais criativa e influentes no rock brasileiro. Arnaldo Baptista era um gênio. E mesmo assim eles não conseguiram resistir em plagiar desavergonhadamente o riff pesado de N.I.B. na música Tapupukitipa.

Setembro 1970 - Iron Man, Black Sabbath - O som da guitarra nessa música lembra o som de uma metalúrgica em funcionamento, metal raspando em metal. Não é à toa que o Black Sabbath é considerado por muitos a primeira banda de Heavy Metal da história. E esse som metálico casa muito bem com a idéia da música: um homem de ferro [nao O Homem de Ferro] enlouquecido que sai pelo mundo buscando vingança.

1972 - Smoke on the Water, Deep Purple - Esse dá vontade de deixar fora de tão óbvio. Não é nem preciso dizer nada. Smoke on the Water é o Top of Mind dos riffs de guitarra.

1973 - Keep Yourself Alive, Queen - Esta é a melhor faixa de abertura de um disco de estréia de uma banda. O Queen entra em cena com os dois pés na porta com não apenas um riff, mas com dois riffs fortíssimos sobrepostos. Animal!

1974 - Rebel Rebel, David Bowie - O próprio David Bowie comemorou a composição do riff de Rebel Rebel como gol do Brasil na final da Copa contra a Argentina. Não é pra menos. Rebel Rebel é um bate estaca que fica ressoando e entrando na sua cabeça como se houvesse uma sinfonia de operários martelando pregos no seu crânio - isso num universo em que se ter o crânio pregado é bom.

1975 - Walk This Way, Aerosmith - Houve uma época que o Aerosmith ainda não era arroz de festa da MTV. Talvez por ainda nem existir MTV na época, mas o fato é que nos anos 70, antes do Steven Tyler sequer cogitar fazer participações especiais ridículas em filmes ruins do John Travolta, o Aerosmith produziu belos clássicos do rock, como Dream On, Sweet Emotion e essa canção, que deve ter sido a primeira vez em que o rock interagiu com algo semelhante ao rap.

1980 - Back in Black, AC/DC - Repor um membro da banda é sempre algo delicado, e quando esse membro é o vocalista, então, a coisa se torna uma missão impossível. Pois quem diria que logo após a morte do vocalista Bon Scott [que morreu por porralouquice], o AC/DC conseguiria repor o vocalista e ainda gravar o disco de rock mais vendido na história? Back in Black, o carro chefe do álbum, é algo que já foi descrito como a mais pura expressão do rock'n'roll.

1982 - Should I Stay or Should I Go, The Clash - Eu não gosto de The Clash. The Clash é uma droga. Deve ter duas ou três músicas que eu goste. Felizmente essa é uma delas, e esse riff é excelente. Mais do que dar uma boa introdução pra música e morrer, ele se prolonga por toda a canção, se encaixando entre os versos com precisão. Desafio: eu quero saber quem da minha geração ouviu esse riff na música do Clash antes de ouvir o mesmo riff em Chopis Centis, dos Mamonas...

1991 - Enter Sandman, Metallica - Diga suas preces, pequeno um! Enter Sandman foi a música que colocou o Metallica no mapa das pessoas comuns, fora do círculo estrito dos metaleiros. Graças a ela e outros hits radiofônicos como Nothing Else Matters, o álbum preto do Metallica vendeu mais que chuchu na feira e não há um único cristão que não tenha ouvido exaustivamente esse riff no início dos anos 90.

2003 - Seven Nation Army, The White Stripes - A música começa com o riff. E continua com o riff. Ela nao tem refrão. No lugar dele, vc tem uma variação do mesmo riff. E ela não precisa de mais nada. Um exemplo perfeito do que uma música minimalista é capaz de fazer e da competência musical do Jack White.

E que comece a briga sobre quem ficou de fora!

4 de outubro de 2011

Porque eu não consigo fazer poesia

Eu tenho alguns amigos com blogs de poesia [o Desacanhamento Poético ou o Encurtação, por exemplo]. Como escritor enrustido que sou, já me arvorei por esse lado, mas nunca consegui produzir algo que tenha valor. Pelo menos, nunca vi em nenhuma poesia que já tenha escrito algo publicável. Até recentemente, eu achava que isso se devia a incompetência literária, mas essa semana tive um estalo do que isso realmente significa.

O que eu nunca tinha compreendido antes é que a poesia, exagerando um pouco, é a forma literária mais próxima da expressão de um sentimento puro. É claro que a elaboração de um poema envolve algum tipo de processo intelectual, racional, organizacional, o que quer que seja, mas sem o sentimento bruto a poesia nao está lá. É aí que o meu fracasso poético se cristaliza. Já na raiz. Porque eu nao sei aceitar um sentimento bruto. No momento do nascimento, ele é contaminado pela pergunta que permeia todo esforço intelectual que eu desenvolvo: "por quê?". E assim eu transformo o que seria meramente uma sensação em busca de ser exprimida em um dado, um problema, um enigma a ser resolvido.

Eu nasci ignorante, como poderia definir o nosso ex-presidente Lula. Completamente ignorante de tudo. Toda a vida, eu tenho lutado contra essa ignorância inata, empenhado em compreender os comos e os porquês. E poesia é ignorância. É ignorar os motivos, desconsiderar os processos, anular as causas. É aceitar a sensação simples, abraçar a primeiridade, sem tentar compreendê-la, controlá-la, domesticá-la - apenas fazendo o necessário para exprimí-la. Se você racionalizar, se você parar para pensar e lembrar que, por exemplo, a paixão se resume a uma tempestade neuroquímica no seu cérebro, motivada por um instinto primitivo de continuidade da espécie aliado a uma série de eventos pavlovianamente condicionantes, você espreme toda a poesia para fora dela. É como apertar uma uva até a fruta saltar pra fora, deixando apenas a casca na sua mão, e é exatamente o que eu não consigo deixar de fazer.

É isso que impulsiona esse blog, é a sua arché, a sua raison d'être. Essa sanha analítica que não deixa em paz o mínimo grão de areia que me cruza o caminho e que apunhala e expulsa de mim toda a poesia. Até quando eu estou lendo poesia não consigo deixar de analisar o porquê. Por que esse verso se quebrou aqui? Por que essa palavra está isolada nessa linha? Talvez nem o poeta tenha a resposta, mas eu me recuso a aceitar a aleatoriedade, ou dar de ombros perante a falta de explicação. Motivo há. Pra tudo. E eu preciso descobrir.
 
BlogBlogs.Com.Br