6 de outubro de 2010

Tiririca e o Amadurecimento da Política Brasileira

Coisas importantes pra se dizer sobre a eleição do Tiririca: Não é o fim do mundo. Não é a primeira vez. Não vai fazer tanta diferença. E pode ser uma coisa boa.

Mas vamos com calma. Em primeiro lugar, não é o fim do mundo porque ele se elegeu por um partido com pouquíssima representatividade, sem qualquer figura de liderança na câmara. O tipo de partido que vai negociar uma aliança e pode tanto estar na oposição como na base do próximo governo, dependo de que vantagem conseguir angariar no acordo político. Então tanto faz de quem serão os votos na câmara, eles irão pro lado que o partido decidir. O mais grave nesse caso é a quantidade de votos, que elegeu mais quatro deputados de carona - ou seja, aumentou a representação (que ainda assim continua ínfima) de um partido de aluguel.

Não é a primeira vez, porque a estratégia de ter um candidato famoso puxando votos pra legenda já é bem velha, e em eleições passadas vimos os falecidos Enéas e Clodovil, Netinho de Paula quase tirou a Marta Suplicy da disputa do Senado, etc. O também falecido Rogério Cardoso já tinha sido eleito vereador no Rio em 1996, e se a gente lembrar de Reagan e Schwarzenegger nos EUA, dá pra dizer que esse tipo de coisa é bem comum.

E eu digo que não vai fazer diferença nenhuma porque depois que o TSE declarou que o mandato pertence ao partido, e não ao candidato - consequentemente, se o candidato sair do partido perde a vaga na câmara ou senado - tanto faz quem esteja lá, já que é obrigado por lei a fazer a vontade do partido. Isso é algo importante, e deve ser prestada atenção: o seu candidato eleito, o seu deputado ou senador não está lá pra representar você. Ele está lá pra representar o partido. O quer dizer que se ele votar diferentemente das determinações do partido, ele pode facilmente ser expulso da legenda, perder o mandato, e ser substituído por um suplente subserviente que não vai querer ter o mesmo destino. Então nesse caso tanto faz se o candidato eleito é o Tiririca, ou se é o verdureiro da esquina, ou se é um professor universitário. Todos eles são fantoches do partido. O sistema político brasileiro não encoraja o pensamento independente. O sistema político brasileiro não permite a representação direta ou indireta. O que o sistema político brasileiro promove é uma briga dos partidos pela sua perpetuação no poder. Os partidos lutam pelo seu próprio crescimento e fortalecimento, não por você. Se existe o trabalho pela melhoria das condições de vida da população, é porque os partidos sabem que esse é o melhor jeito de conquistar votos e se manter no governo.

E é por isso que eu digo que a eleição do Tiririca pode ser uma coisa boa. O Tiririca é um furo no sistema. Ele é um absurdo que precisa acontecer para demonstrar a fragilidade do processo eleitoral e acelerar a reforma política da qual se fala há anos e que nunca se concretiza. É a materialização que faltava para trazer a sociedade pra dentro do debate acerca dessa reforma.

Mas, acima de tudo, eu não vejo essa eleição recorde com surpresa porque é visível o desencanto do brasileiro com a política e os políticos, e a responsabilidade disso é totalmente destes. Eu gosto de comparar com a eleição americana, até porque é a que mais repercute no Brasil, então temos mais base pra comentar. Na última eleição dos EUA, vimos Obama e McCain representando lados opostos de uma posição política. Obama assumindo uma posição mais aberta e plural, enquanto McCain defendia a continuidade da velha política caubói americana. Um defendendo a retirada das tropas do Iraque, outro defendendo a manutenção. Tudo muito claro, muito evidente. 

No Brasil, qual é a posição de José Serra, e em que essa posição difere da posição da Dilma com relação a assuntos-chave da política no Brasil? "O Brasil pode mais", é o slogan da campanha tucana. É só isso? Essa é a grande diferença? "Está bom, mas podia ser melhor"? A concordância é tão grande que eu nem sei dizer quais são os assuntos-chave para a política no Brasil. O que se discute? Parece que a única discussão política que se faz no Brasil é em torno de denuncismos, em vez de idéias e posições - e por isso as campanhas continuam investindo nisso. Isso se reflete na posição dos eleitores: se a única coisa que se fala em política é sobre a corrupção, e se todo mundo é corrupto, e se todos defendem as mesmas posíções, que diferença faz?

É nesse espírito que eu considero que estavam os eleitores do Tiririca nesse domingo. "Que diferença faz? Ele vai votar pelo partido, todos os partidos defendem as mesmas idéias, ninguém está ligando pro que eu realmente quero, eu vou é esculhambar isso mesmo". Não que eu creia que todos os brasileiros tenham essa consciência, mas de certa forma isso está implícito no ato de votar para alguém que é notoriamente incapaz de realizar as funções das quais será incumbido. Se o espírito é o do tanto faz, as pessoas preferem votar num idiota que nunca esteve metido em nenhum escândalo (lembrem-se, política no Brasil é sinônimo de escândalo de corrupção), a votar em pessoas experientes que estão enroladas até o pescoço com compromissos do partido. Os votos do Tiririca, além de serem devidos ao espírito galhofeiro do brasileiro, são votos de experiência. São votos de "vamos ver no que dá". E de novo isso pode ser bom.

Voltando ao caso americano, eles têm uma democracia consolidada que dura mais de 200 anos.  Republicanos e Democratas se alternam no poder há mais de um século. No Brasil, não se sabe direito o que é alternância de poder desde os anos 1950/60. Nossa democracia só ressurgiu, e ainda de um jeito meio atrapalhado, há cerca de 20 anos. Uma geração inteira foi "pulada" na época da ditadura, e é interessante observar que os dois candidatos que hoje concorrem à presidência eram opositores da mesma, membros justamente dessa geração que passou em branco nos 20 anos de ditadura militar. Ainda temos na nossa política remanescentes dessa época (vide José Sarney, por exemplo). Então é normal que haja esse tipo de "experimentação" na política brasileira. Em certa medida, é até saudável. Só acho que não precisava ser tão drástico.

1 de outubro de 2010

Guia Rápido para Divulgação de Textos na Internet

Você tem um texto que acha genial, informativo, espirituoso ou profundo? Você gostaria de divulgá-lo na internet e fazê-lo percorrer as listas de email, mas acha que ninguém vai te dar atenção porque você é apenas um desconhecido que passa tempo demais na frente do computador pensando na vida? Pois agora você também pode espalhar a sua mensagem para toda a rede de modo rápido, grátis e seguro! Basta seguir as seguintes simples regras para a Autêntica Atribuição Falsa de Autoria do Idéias Insólitas. A lógica é simples: pegue o seu texto, verifique em que categoria ele se encaixa, atribua a autoria às personalidades correspondentes, e fique famoso anonimamente! O nosso Guia® oferece uma ampla gama de personalidades à disposição para fornecer, sem qualquer espécie de consentimento ou custo adicional, a credibilidade necessária à divulgação do SEU texto! Confira:
  • Para a divulgação de informações noticiosas que o governo e os meios de comunicação não querem que você saiba (fim da tarifa telefônica, privatização da petrobrás, legalização da corrupção) e solicitação de abaixo assinados relacinados às mesmas: Franklin Martins
  • Para qualquer assunto relacionado à Amazônia: Cristóvam Buarque
  • Para assuntos mais amplos relacionados à ecologia, e no caso do autor querer aproveitar um pouco mais do momento de celebridade: Marina Silva
  • Para textos cômicos, levemente espirituosos, piadas infames e afins: Luís Fernando Veríssimo, Millor Fernandes
  • Para textos cômicos, levemente espirituosos, piadas infames e afins relacionados ao governo: Marcelo Tas
  • Para mensagens depressivas sobre a crueldade e frieza do ser humano: José Saramago (que mesmo depois de morto continua um dos autores mais produtivos atualmente).
  • Para crônicas virulentas direcionadas ao governo (independente de partido ou orientação política), especialmente dotadas de extensa verborragia (dependendo do grau intelectual do interlocutor, verborragia pode ser definida por uso de palavras do calibre de "pilantra" e "espoliar" até a acadêmica e refinada "hipócrita"): Arnaldo Jabor
  • Para textos comentando a educação das crianças de antigamente ("minha mãe falava 'não' e era 'não' mesmo"): Içami Tiba
  • Poemas, independentes de estilo, temática, tempo ou idioma: Carlos Drummond de Andrade (ou apenas Drummond, para os íntimos), Mário Quintana, Pablo Neruda.
  • Conselhos de saúde ou dicas de bem-viver (desde "use camisinha" até "coma devagar" ou "dance, mesmo que não saiba"): Drauzio Varella
E, finalizando:
  • Para "cartas abertas" de cidadãos indignados, colocar um Dr. ou Dra. antes de um desses nomes (Marina, Felicia, Fernando, Jucemar, Heriberto, Fátima, Sandra) e sobrenomes (Junqueira, Oliveira, Soares, Meirelles, Leão, Bernardes), escolhidos aleatoriamente (com o cuidado de não incorrer em nomes como Fernando Meirelles e Fátima Bernardes). Acrescentar um número aletório de OAB ou CRM, conforme a preferência.
O que importa se ninguém vai saber que foi você que escreveu? Entre você e o seu texto, pelo menos um vai ficar famoso.
Pero Vaz de Caminha
 
BlogBlogs.Com.Br