10 de agosto de 2010

A Origem

Assisti A Origem (Inception) ontem. É o melhor filme de 2010? Talvez. Não vi muitos filmes deste ano este ano, e ele ainda não acabou. Zombieland com certeza é tão divertido quanto, senão mais, mas são categorias diferentes, e não se pode comparar o humor despretensioso de Zombieland ou Kick-Ass com a profundidade, criatividade e exuberância visual de Inception. Mas como todo mundo já comentou o filme, todos os blogs de cinema já deram sua análise e suas sinopses (a melhor sinopse e que não entrega tanto o roteiro é a do iG Cinema, clique aqui), eu prefiro comentar os comentários sobre o filme.

Em primeiro lugar, a badalação a respeito do filme se justifica. O filme é fantástico, o argumento e a resolução são convincentes e especialmente o ritmo é ótimo. As cenas dramáticas são fortes e significativas sem serem melosas e dão a pausa necessária entre as sequências mais movimentadas. Mas o argumento (apesar de convincente) não é perfeito, e o conceito de dilatação temporal do sonho dentro do sonho com base na aceleração da atividade mental é completamente absurdo. Se você sonha que está sonhando, a sua cabeça funciona mais rápido que num sonho normal? É como se a velocidade de funcionamento da mente fosse algo infinito e multiplicável numa medida exata determinada pela quantidade de camadas do sonho. Mas isso não é algo que compromete a diversão ou a compreensão do filme. Algo que eu aprendi ao longo dos anos é que o melhor jeito de aproveitar um filme é aceitar o que ele te dá - você deixa pra duvidar e analisar depois.

Sobre a compreensão do filme, algo que muita gente reclamou é a de que o roteiro ou a trama eram incrivelmente intrincados e praticamente incompreensíveis. Eu não sei que tipo de filme essas pessoas andam assistindo (filmes do Will Ferrel?), mas se há algo que se pode dizer em favor da direção de Chris Nolan é que em nenhum momento você fica perdido na trama, nem deixa de saber o que está se passando em qualquer uma das camadas de sonho. O roteiro é linear, claro, e pouca coisa deixa de ser revelada - o filme deixa alguns mistérios secundários para os espectadores mais ávidos ou mais observadores, mas de modo geral a trama é completamente revelada e suas consequências práticas estão muito bem expostas diante dos olhos de todos.

Mas o que realmente me incomoda é que muita gente considere esse filme como a obra prima de Chris Nolan por "levar o espectador a questionar a sua realidade". Isso é bobagem - é a mesma coisa que dizer que Paulo Coelho é um gênio por questionar a sanidade e a loucura em Verônika Decide Morrer, um livro cheio de chavões e clichês sobre o que é a insanidade. A idéia da indistinguibilidade entre realidade e sonho já não é nova nem no âmbito do cinema, e já foi explorada de modo muito mais interessante e enigmática em O Operário (The Machinist, 2004). Mesmo entre a obra de Nolan, o questionamento da realidade é muito mais intenso em Amnésia (Memento, 2000) do que em A Origem.

Resumo da Ópera: A Origem é um filme que deve ser visto e merece todos os elogios. Leva o prêmio de filme da década, como já estão advogando? Vamos deixar passar a estupefação inicial e depois decidimos.

Um comentário:

Diogo de Lima disse...

Esqueci de comentar isso... dá uma pena do personagem do Cillian Murphy, o cara é muito infeliz.

 
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