6 de agosto de 2010

O debate de ontem à noite

Nem sempre é pra falar de coisa inútil que eu estou aqui. Vou dar a minha avaliação do debate dos presidenciáveis que ocorreu ontem à noite, 05 de agosto. Acho exagero dizer que este debate teve ou terá muita influência na decisão do voto dos eleitores, já que colocar um debate pra concorrer com a semifinal brasileira da Libertadores da América (que o São Paulo ganhou, mas perdeu) é pedir pra não ter audiência. Mas, se esse primeiro confronto entre os candidatos não vai alterar em muito as pesquisas, já dá pra ter certeza que ele vai alterar o rumo que as campanhas dos cadidatos irão seguir. O debate da band funcionou mais ou menos como o primeiro round de uma luta de boxe, em que os lutadores trocam alguns golpes fracos, medem a distância do adversário e avaliam o estilo de luta pra saber melhor como atacar nas próximas etapas.

Antes de mais nada, preciso declarar a minha total neutralidade no assunto - algo que até me surpreende. Eu nasci em 86, então, desde que eu me lembro, todas as eleições pra presidente tiveram o Lula como cadidato. Eu cresci num ambiente político em que o Lula representava a oposição contra gente da corja dos Maluf, ACM, Collor, contra a privatização predatória do Estado que foi levada a cabo durante a era FHC, o que, juntamente com uma boa dose de ingenuidade infantil, fizeram com que eu sempre tenha sido um Lulista. Isso começou a se desvanecer em 2002, quando eu vi que o Lula já não era mais toda aquela oposição. Nessa época, eu também já tinha abandonado aqueles delírios pseudocomunistas em que muitos adolescentes pseudopolitizados caem (e que muitos levam até os DCEs das universidades, até o dia em que precisam cortar o cabelo, tomar banho e arrumar um emprego, nessa ordem), então ainda considerava a vitória de Lula um avanço. Tímido, mas um avanço. Depois de ver que bandeiras são hasteadas e arriadas a cada minuto, e que alianças são feitas e desfeitas sem levar em conta qualquer posição ideológica, apenas por conveniência política, perdi qualquer empatia por organizações partidárias.

O que vimos no debate ontem foi uma Marina Silva extremamente apagada, que falou pouco, nas poucas vezes em que falou não empolgou nem mostrou grandes convicções - à exceção do momento, no final do debate, em que foi confrontada pelo Plínio Arruda, do PSOL. Ainda assim, faltou coragem pra dizer o que o próprio Plínio falou na réplica: o desenvolvimento sustentável é possível, mas esse desenvolvimento vem a taxas muito menores que da forma predatória. Não se faz desenvolvimento sustentável sem reduzir a margem de lucro ou a velocidade de crescimento, e a Marina, tentando agradar a todos (como todo bom político) omitiu isso, preferindo se fazer de ingênua e reafirmar que vai cuidar do meio ambiente sem sacrificar o empresariado. Não convenceu.

Dilma Rousseff, por sua vez, mostrou a todos porque é uma aposta arriscada do PT. Dilma nunca foi candidata para nenhum cargo, e a falta de experiência num debate político pesou (vejam bem que eu estou falando de falta de experiência de debate, não estou questionando as capacidades administrativas dela). Dilma estava nervosa, por diversas vezes se enrolou toda, não completando os raciocínios, demonstrou insegurança e, se não perdeu nenhum eleitor por causa do desempenho no debate, duvido que tenha angariado algum tampouco. Questionada sobre quais seriam a suas propostas, Dilma só conseguiu declarar princípios ("vamos melhorar as universidades, vamos aumentar a segurança"), mas não deu nenhum dado ou citou um programa concreto. Ao que parece, a plataforma da petista é "o país vai bem, vamos manter as coisas como estão" - nenhuma proposta nova. A melhor jogada dela foi quando pediu para que Serra comentasse dois programas do governo Lula - Serra acabou simplesmente elogiando os programas do atual governo, tentou vincular a origem deles ao governo FHC, sem sucesso, e acabou mudando de assunto, voltando insistir no que parece ser o carro chefe da sua campanha: a saúde. "Todo mundo fala que o Serra é hipocondríaco, porque ele só sabe falar de saúde", ironizou Plínio Arruda, em seguida.

Da mesma maneira que Dilma, Serra não apontou nenhuma plataforma de governo, apenas tencionou mostrar falhas no governo Lula - o que pode ser revertido em vantagens para os petistas, já que, devido à baixíssima audiência desse debate, o estrago foi pouco, e os governistas vão se precaver melhor da próxima vez. Serra deveria ter guardado essa artilharia para mais tarde. Os quase 80% de aprovação do governo Lula são um telhado robusto para proteger das pedradas a candidata do PT, mas Serra mostrou que a mira dos tucanos é suficientemente boa para acertar algumas telhas de vidro no telhado do governo.

Ao contrário de Dilma, Serra, que é macaco-velho (bota velho nisso!), estava muito seguro e conciso nas suas respostas. O que não deveria querer dizer nada (exceto que ele sabe mentir melhor que os outros), mas sabemos que, infelizmente, o desempenho teatral dos candidatos conta muito para o eleitor médio. Acaba não importando tanto o que o candidato diz, mas quem consegue falar melhor (imagino quantos votos o William Bonner conseguiria só com o seu "Boa Noite"). É idiota, mas a eleição pode ser decidida por esse detalhe bobo, especialmente se a Dilma Rousseff não se mostrar mais simpática e acessível ao eleitorado. Serra aprendeu bem a lição do próprio Lula de se mostrar íntimo do eleitorado, especialmente em comparação com a Dilma, que lembrava mais o Lula sisudo de 89, 94 e 98.

Mas em termos de desempenho teatral, ninguém supera o Plínio Arruda, do PSOL. A grande estrela (e surpresa) da noite de ontem atingiu o topo dos Trending Topics no Brasil e o segundo lugar nos TTs mundiais no twitter. Se mostrando debochado, irônico e partindo pra briga, Plínio praticamente transformou o debate numa Stand-up Comedy. É claro que apareceram momentos em que a síndrome de perseguido do PSOL, PSTU e outros partidos da "esquerda socialista oprimida" deu o ar da sua graça (coisas como "ninguém pergunta nada pra mim", "estou sendo discriminado", "a mídia omitiu a minha candidatura", etc). Não dá pra deixar de concordar com o Eduardo Guimarães quando ele fala que "Plínio estava calmo e bem-humorado porque é um franco-atirador que nada tem a perder", mas ele foi o único que conseguiu surpreender, com potencial para cativar uma parte indecisa do eleitorado. Num debate em que a evasividade e o Fair Play foram a tônica, é bom ver que pelo menos um dos candidatos teve coragem de partir pro enfrentamento e apresentar uma proposta que não se propõe a agradar todo o mundo - mesmo que sejam propostas completamente descabidas.

Na minha avaliação, após o debate quem estava com Dilma permaneceu com Dilma, assim como quem estava com Serra ou Marina mantiveram suas posições. Se houve um vencedor no debate, foi o próprio Plínio Arruda, que deve ter angariado umas boas centenas de eleitores. Se ele nao ganhar a eleição, pelo menos já ganhou mais 2000 seguidores no twitter de ontem pra hoje (e contando!). Confira o estilo da figura no vídeo abaixo:


Eu continuo com o voto em aberto.

6 comentários:

Diogo de Lima disse...

Ufa, ficou enorme! Será que alguém vai ler todo?

EFGoyaz disse...

Só parece que o texto ficou grande, mas a gente lê tranquilo. Quem viu o debate, pode ir relembrando cada parte.
Sobre o Plínio, eu não entendo uma coisa: 90% da população se diz insatisfeita com os políticos, mas só vota em políticos "A" (Maluf e PSDBs e derivados) e em políticos "B" (PT e derivados). Por quê todo mundo tem medo de votar em políticos "W" (PSOL, PSTU e tudo mais?) Se querem mudança, como ela seria? Votando em quem já votaram antes e não deu certo?
Fiquei muito tentado em votar no Plínio. Se ele ganhasse, seria ao menos um grande incômodo pra uma estrutura já há muito consolidada e pronta, esperando uma administração "A" ou "B".

Fabi disse...

se eu votasse no brasil ia votar nesse tio - concordo com o Glaucio, se voce quer mudança...
agora, isso de desempenho em debate fazer as pessoas votarem nesse ou naquele candidato, eu discordo. Acho que as pessoas (a maioria) escolhem seus candidatos por cogniçao rapida. Eh uma coisa de gosta ou nao gosta e pelo que a gente tem visto esses anos todos, uma porcentagem muito pequena esta disposta a ouvir uma opiniao diferente ou ate mudar a propria. Tanto que geralmente (se nao sempre) o camepao do 1 turno eh o que vence no segundo.

Fabi disse...

ainda me lembrei de que naquela ultima eleiçao, quando a coisa tava pegado fogo entre Lula e Serra, o Serra falou muito bem, o Lula se enrolou, falou muita besteira e alem do mais, o portugues dele sempre foi sofrivel - e veja quem ganhou.

Um povo cuja maior fonte de informaçao eh o jornal da globo, cuja diversao eh Faustao e que tem a memoria tao curta que vota no Maluf e outros do mesmo tipo a cada eleiçao, num pais em que se eh considerado alfabetizado quem sabe escrever o proprio nome... vai usar que criterio pra escolher candidato????

OBS: nao sou analfabeta, meu teclado eh que nao tem acentuaçao grafica.
OBS2: nao sou de direita, nem de esquerda. sou do lado de quem eh decente o suficiente pra representar com o minimo de dignidade as pessoas do nosso pais.

Diogo de Lima disse...

OK, agora eu também tenho que dar razão pro Plínio quando ele fala que "omitiram a candidatura" dele. Após o debate, o Vox Populi fez uma pesquisa acerca do desempenho dos candidatos e excluiu o candidato do PSOL dos resultados. Ele nem aparece nos formulários da pesquisa!

Anônimo disse...

O Brasil vai bem (ou menos pior do que antes) com o Lula, merece uma continuidade. O problema é que a Dilma é uma aposta fraca, fraca, fraquíssima. A bem da verdade, o "mensalão" - que não se provou nada, no fim das contas - acabou prestando um grande desserviço pro Brasil: "eliminou" do cenário político gente bem mais capacitada e alçou à presidencia uma figura sofrível como a Dilma, que, com 85% de aprovação do governo, não deverá ter dificuldades para se eleger já no primeiro turno.

 
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