17 de agosto de 2010

A moda dos pelados


- Esse seu time não joga nada!
- E o seu? Um bando de pernas de pau!
- Ah é? Domingo os dois vão jogar um contra o outro, e se o meu perder, eu desfilo pelado aqui no bar!
- Pois eu digo o mesmo! Tá apostado.

Essa conversa fictícia, por mais imbecil que seja, ainda é verossímil. Duvido que, há três meses atrás, se a situação fosse o contrário ("se o meu time ganhar, eu desfilo pelado") alguém fosse dizer o mesmo do texto. Afinal, quando você aposta fazer alguma coisa que é (ou deveria ser) vexatória, você torce para não ter que cumprí-la - para o seu time não perder, no caso. Mas desde que o Maradona prometeu ficar do jeito que veio ao mundo em público na Argentina se a Seleção dele fosse campeã (tendo sido seguido por várias outras aspirantes a celebridades e/ou celebridades decadentes como Larissa Riquelme e Enrique Iglesias - veja aqui), a história de desfilar pelado se inverteu. Agora as pessoas torcem para ganharem E ficarem peladas. E não apenas restrito ao mundo do futebol - a atriz colombiana Sofia Vergara, da badalada série Modern Family prometeu ficar pelada se o programa dela ganhasse algum prêmio no Emmy, que será no dia 29 de agosto. Vamos analisar as possibilidades que levam a essa inversão:

1 - Nenhuma dessas pessoas tem a intenção de cumprir a promessa? Errado. Após a Espanha ganhar a semifinal da Copa - vejam bem, foi a SEMI! - um torcedor espanhol, que nem havia prometido nada publicamente, comemorou exibindo nas ruas de Madri suas vergonhas. Ou a falta de. E o (cantor? ator?) famoso Enrique Iglesias de fato cumpriu a promessa de esquiar pelado se a Espanha fosse campeã do mundo. Na água. De noite. No escuro. Mas cumpriu.

2 - A possibilidade de ver a pessoa pelada seria um incentivo ao time a ganhar, ou aos jurados concederem o prêmio? Basta analisarmos a gênese do fenômeno: quem é que tem interesse em ver o Dieguito de Maradona? No caso de Larissa Riquelme ou Sofia Vergara até seria compreensível, mas, conforme demonstrado pelos links anteriores, não é preciso muito esforço para não sobrar muita coisa inédita pra ver, sem necessidade de ganhar uma Copa do Mundo. Fora que gente pelada na rua não é sexy, é só esquisito.

3 - As pessoas completamente perderam a inibição de mostrar o próprio corpo, e estamos caminhando para uma sociedade mais livre, menos preconceituosa, menos recalcada e reprimida com relação à nudez? Fácil de derrubar. Se a peladice pública fosse algo normal, não estaria sendo anunciada como um prêmio ou um evento bizarro. E ninguém cumpriria a promessa no escuro.

Que raios está acontecendo? Não sei dizer com certeza, mas uma vez, vendo o nível das coisas que as pessoas revelam no twitter, eu disse que a privacidade era como uma pin-up envelhecida: já foi muito valorizada, mas hoje ninguém quer mais. A privacidade é o Dominó. A privacidade é um curso de datilografia. Talvez por tanta celebridade ter sua vida privada escarafunchada até o avesso, a falta de privacidade seja inconscientemente considerada um indicador de sucesso, e por isso as pessoas estejam tão ansiosas pra se livrarem dela.

A inversão da aposta (ganhar e mesmo assim pagar o mico) possivelmente vem da própria inversão do mico. Nessa nossa era youtúbica, em que quanto mais ridícula a pessoa for mais famosa ela fica (vide Star Wars Kid e Rodrigo Ferraz), passar vergonha em público deve ser considerado desejável para boa parte das pessoas. Desse modo, os possíveis peladões prometem ficar pelados, e com isso chamam a atenção; unem o útil ao agradável:  torcem pra ganhar e para ficarem pelados, pois assim chamam mais ainda a atenção. E com o benefício de que se não ganharem, não precisam fazer nada. O que é uma burrice muito grande, afinal, na velha fórmula, em que quem perde a aposta é que paga, a pessoa ficaria em evidência nos dois casos, ou por ter ganhado, ou por ficar pelado.

Eu acho que, além de um alpinismo midiático de quinta categoria, isso é uma pouca vergonha!

Nenhum comentário:

 
BlogBlogs.Com.Br