24 de agosto de 2010

A Imprensa Dodoizinha

Imaginem uma festa infantil. Sabem aquela criança chata, que fica pentelhando, cutucando e torrando a paciência dos outros? Aí chega um ponto em que alguma outra criança se irrita e dá uma cutucada nela também, do mesmo jeito que a pestinha fazia com os outros, e ela abre o berreiro e começa a chorar e chamar a mãe. Geralmente, o que a mãe faz é adular e dar razão pra "coitadinha", sempre vítima das maldades dos meninos mais velhos.

Diversos casos recentes tem me feito ver a imprensa brasileira da mesma maneira que as crianças dodoizinhas. Nossa imprensa se sente no direito de achincalhar qualquer um, divulgar informações de verificabilidade duvidosa, tratar como culpados suspeitos de crimes que nem sequer foram comprovados se realmente existiram, exercer o papel de polícia, promotoria, juri e juiz, sem aceitar sequer um olhar de reprovação ou conceder um direito de resposta.

Vou começar com dois casos pequenos antes de ir para o prato principal. O primeiro é o caso Dunga. Pra quem não sabe, durante a Copa, o então treinador da seleção estava dando uma coletiva de imprensa quando, no meio de uma resposta de Dunga, o repórter Alex Escobar, além de falar no celular, balançou a cabeça em desaprovação à resposta de Dunga. O treinador se interrompeu e perguntou a Escobar: "Algum problema? Não? Achei que tinha..." e logo depois murmurou "Cagão" e outras indelicadezas dirigidas ao repórter. Você pode conferir a gravação e a reação da Globo no vídeo abaixo:


O caso foi tratado como uma afronta à liberdade de imprensa e um desrespeito a um profissional que estava fazendo nada mais que o seu trabalho. Mas convenhamos: se o Alex Escobar estivesse sendo tão profissional assim, não iria aprovar ou desaprovar a reposta do treinador. Ele está lá pra informar, não para julgar a resposta. Mas, mesmo ignorando isso, a conduta subsequente da Globo não foi nada profissional. Na coletiva de imprensa seguinte, um dos jornalistas da Globo, se não foi o próprio Escobar, usou de pretexto a expulsão do Kaká no jogo anterior para perguntar a Dunga se ele considerava o autocontrole uma virtude e como ele demonstrava isso aos jogadores. Uma provocação barata, tentando arrancar de Dunga alguma nova reação explosiva, que você pode conferir clicando aqui para ver o vídeo (a partir dos 4min.). Dunga é quem foi surpreendentemente profissional dessa vez, respondendo educadamente a questão.
O resultado: Dunga foi demitido (menos por causa da Globo e mais por não ter vencido a Copa, é verdade). Alex Escobar agora apresenta o Globo Esporte, e, na semana da reestréia da Seleção, dentre toda a equipe de jornalistas da Globo, foi o único que ganhou uma camisa personalizada com o próprio nome, autografada por todos os jogadores da seleção, sem qualquer motivo especial. Puxa-saquismo por medo de represálias? Depois do amistoso contra os Estados Unidos, nos comentários após a partida, a equipe de transmissão esportiva da Globo (Galvão, Arnaldo, Caio Ribeiro e Tiago Leifert) qualificou o recomeço após a saída de Dunga com adjetivos desde "desabafo", "desafogo" até "exorcismo". Quem está sendo deselegante aqui?

O segundo caso: o caso Collor. Não aquele caso. Há algumas semanas, a revista ISTOÉ publicou uma matéria sobre a política no Alagoas, segundo a qual quase todos os candidatos importantes no estado estariam com problemas nas suas candidaturas por conta da Lei Ficha Limpa. A matéria diz que o "ex-presidente não conseguiu certidão de 'nada consta' na Justiça", dando a entender que "constava" alguma coisa - o que é uma inverdade. Por incrível que pareça, Collor sofreu um impeachment, ficou inelegível por 8 anos, como manda a lei, e hoje tem a ficha mais limpa que bebê depois do banho. Exigindo uma retratação do jornalista Hugo Marques, autor da matéria, Collor ligou para a sucursal de Brasília da revista. Não se sabe o teor da conversa, não há registro do que o jornalista disse a Collor, mas o seguinte trecho, completamente isolado do restante da conversa, foi amplamente divulgado pela imprensa:


Dias depois, Collor, que hoje é senador, subiu na tribuna do Senado para esclarecer que entregou devidamente todas as certidões à justiça e aproveitou para demonstrar toda a sua indignação não apenas com a matéria, mas com a divulgação de um trecho isolado de uma gravação que deveria ser ilegal, chamando o jornalista de apedeuta e sicofanta, o que, em português normal, significa chamar de mentiroso cara-de-pau de uma figa. A imprensa, é claro, reagiu. A ISTOÉ publicou, sob o título de "Recaída Autoritária", duas páginas de críticas à atitude do senador que ousou "exercer a livre opinião para uma agressão pessoal". A Agência Nacional de Jornais exortou às "autoridades competentes para que assegurem a plena vigência dos princípios constitucionais de liberdade de expressão". Mas não era isso que Collor estava fazendo?

Vejam bem, não estou dizendo que Collor seja flor que se cheire, nem defendendo seu ataque ao jornalista, por menos confiável que este seja. Qualquer um que tenha alguma lembrança ou conhecimento da história política desse país sabe que, quando foi conveniente a Collor, o apoio e a imprecisão da imprensa foram muito bem-vindos. Mas ainda assim, isso não é pretexto para a imprensa publicar o que quiser sem sofrer qualquer consequência. A imprensa dodoizinha é a favor da liberdade de expressão dela. Quando, a qualquer momento, alguém faz uso de sua liberdade de expressão contra a imprensa é acusado de retrógrado, ditador, de estar cerceando a liberdade de imprensa e de tentar trazer de volta a censura.

E então chegamos a hoje. Os humoristas não estão rindo. Eles até tentam fazer piada com a proibição à piada, mas nenhum deles está contente com o fato do TSE ter proibido a realização de “trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que de qualquer forma degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação”. Em outras palavras, os programas humorísticos brasileiros na TV e no rádio não podem fazer piada com os candidatos a qualquer cargo que seja. Preocupados com o desperdício de matéria prima humorística, os comediantes fazem passeatas, manifestos e mobilizam a opinião pública contra esse claro atentado à livre expressão.

Hélio de la Peña, do Casseta e Planeta, escreveu no seu blog: "A impressão que temos é que os candidatos são uns pobres indefesos, vítimas das piadas. Os políticos brasileiros estão protegidos por uma legislação absurda e exagerada. É como se os coitados estivessem sofrendo de bullying praticado pelos humoristas." Ok, isso é verdade, mas e a imprensa? A imprensa também não age como se estivéssemos às portas de uma ditadura, coitadinhos dos jornalistas? A verdade é que a imprensa já claramente fere o princípio da isonomia (dar um tratamento igual a todos os candidatos), seja ignorando completamente algumas candidaturas sob o pretexto de critérios completamente arbitrários, seja através de desigualdade qualitativa no tratamento. Dado isso, por que não ferir um pouco mais a igualdade nos programas humoristicos?

Hélio cita como exemplo positivo o caso da Tina Fey e suas imitações da candidata a vice-presidente dos EUA, Sarah Palin. Mas o que acontece é que Sarah Palin não ganhou as eleições, inclusive a escolha dela como vice foi considerada o maior tiro no pé da campanha republicana, por ser um alvo muito fácil. Palin pode não considerar o Saturday Night Live como causa de sua derrota, mas, cá entre nós, ela não enxerga um palmo na frente do próprio nariz. Vale reparar que, "na mais vibrante democracia do mundo, os EUA" - conforme definiu um editorial d'O Globo tratando do assunto - onde a liberdade total de imprensa é garantida, até 25% dos americanos acham que Barack Obama é muçulmano, dos quais 60% dizem que viram isso na mídia, que tem alguns setores controlados pela extrema direita. Será que é realmente uma boa idéia deixar que a imprensa seja seu próprio juiz? Num país como o  Brasil, em que bordões como "Meu nome é Enéas" fazem recordes de votação, quanto estrago pode fazer um apelido depreciativo que seja massivamente veiculado em nome do humor? Quem declara seu apoio a José Serra abertamente estando sujeito a ouvir um "você vota no Vampiro Anêmico? Você é da turma da anemia?" Em que medida isso prejudicaria a discussão política num país que tem notória dificuldade em levar as coisas a sério?

Mais questionamentos surgem, por exemplo, como garantir a imparcialidade no retrato dos candidatos dentro de uma linguagem que necessita da liberdade poética e de uma certa distorção da realidade para funcionar? Quanta manipulação pode se esconder atrás de uma sketch de humor? Imaginem as seguintes possíveis sátiras, ao exagero dos pedágios paulistas e ao assistencialismo dos programas como o Bolsa Familia: Serra surta e sai colocando pedágios em tudo, no cafezinho, no teclado do computador, nos banheiros do congresso. Lula por sua vez, torna-se um híbrido de Silvio Santos com ele próprio, e sai distribuindo Bolsas Família gritando "quem quer dinheiro?", e tendo Dilma no lugar de Roque. Duas sátiras ruins, dignas de figurar no Zorra Total, mas qual delas é mais danosa à imagem do candidato? O cara que cobra pedágio em tudo, ou o cara que distribui dinheiro?

Marcelo Tas, o cabeça do movimento pelo fim do bloqueio humorístico, disse que o humor é apenas o exagero da verdade. Mas qual verdade será exposta sob o pretexto da comédia, e quais serão suprimidas sob a alegação de serem sem graça? E quem irá controlar isso? Eu prefiro que o judiciário continue regulamentando as ações da imprensa, mantendo-as dentro da legalidade e garantindo na medida do possível a isonomia, do que chegar um dia em que os políticos serão obrigados a mandar camisas personalizadas e autografadas aos humoristas para não serem achincalhados perante milhões de eleitores.

Um comentário:

Diogo de Lima disse...

Esqueci de incorporar isso no texto: A sociedade brasileira tem que ser tão crítica e cética com a imprensa quanto é com os políticos. Temos que parar de agir como a mãe da dodoizinha, adulando a criança mimada. Todos precisam de limites.

 
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