24 de agosto de 2010

A Imprensa Dodoizinha

Imaginem uma festa infantil. Sabem aquela criança chata, que fica pentelhando, cutucando e torrando a paciência dos outros? Aí chega um ponto em que alguma outra criança se irrita e dá uma cutucada nela também, do mesmo jeito que a pestinha fazia com os outros, e ela abre o berreiro e começa a chorar e chamar a mãe. Geralmente, o que a mãe faz é adular e dar razão pra "coitadinha", sempre vítima das maldades dos meninos mais velhos.

Diversos casos recentes tem me feito ver a imprensa brasileira da mesma maneira que as crianças dodoizinhas. Nossa imprensa se sente no direito de achincalhar qualquer um, divulgar informações de verificabilidade duvidosa, tratar como culpados suspeitos de crimes que nem sequer foram comprovados se realmente existiram, exercer o papel de polícia, promotoria, juri e juiz, sem aceitar sequer um olhar de reprovação ou conceder um direito de resposta.

Vou começar com dois casos pequenos antes de ir para o prato principal. O primeiro é o caso Dunga. Pra quem não sabe, durante a Copa, o então treinador da seleção estava dando uma coletiva de imprensa quando, no meio de uma resposta de Dunga, o repórter Alex Escobar, além de falar no celular, balançou a cabeça em desaprovação à resposta de Dunga. O treinador se interrompeu e perguntou a Escobar: "Algum problema? Não? Achei que tinha..." e logo depois murmurou "Cagão" e outras indelicadezas dirigidas ao repórter. Você pode conferir a gravação e a reação da Globo no vídeo abaixo:


O caso foi tratado como uma afronta à liberdade de imprensa e um desrespeito a um profissional que estava fazendo nada mais que o seu trabalho. Mas convenhamos: se o Alex Escobar estivesse sendo tão profissional assim, não iria aprovar ou desaprovar a reposta do treinador. Ele está lá pra informar, não para julgar a resposta. Mas, mesmo ignorando isso, a conduta subsequente da Globo não foi nada profissional. Na coletiva de imprensa seguinte, um dos jornalistas da Globo, se não foi o próprio Escobar, usou de pretexto a expulsão do Kaká no jogo anterior para perguntar a Dunga se ele considerava o autocontrole uma virtude e como ele demonstrava isso aos jogadores. Uma provocação barata, tentando arrancar de Dunga alguma nova reação explosiva, que você pode conferir clicando aqui para ver o vídeo (a partir dos 4min.). Dunga é quem foi surpreendentemente profissional dessa vez, respondendo educadamente a questão.
O resultado: Dunga foi demitido (menos por causa da Globo e mais por não ter vencido a Copa, é verdade). Alex Escobar agora apresenta o Globo Esporte, e, na semana da reestréia da Seleção, dentre toda a equipe de jornalistas da Globo, foi o único que ganhou uma camisa personalizada com o próprio nome, autografada por todos os jogadores da seleção, sem qualquer motivo especial. Puxa-saquismo por medo de represálias? Depois do amistoso contra os Estados Unidos, nos comentários após a partida, a equipe de transmissão esportiva da Globo (Galvão, Arnaldo, Caio Ribeiro e Tiago Leifert) qualificou o recomeço após a saída de Dunga com adjetivos desde "desabafo", "desafogo" até "exorcismo". Quem está sendo deselegante aqui?

O segundo caso: o caso Collor. Não aquele caso. Há algumas semanas, a revista ISTOÉ publicou uma matéria sobre a política no Alagoas, segundo a qual quase todos os candidatos importantes no estado estariam com problemas nas suas candidaturas por conta da Lei Ficha Limpa. A matéria diz que o "ex-presidente não conseguiu certidão de 'nada consta' na Justiça", dando a entender que "constava" alguma coisa - o que é uma inverdade. Por incrível que pareça, Collor sofreu um impeachment, ficou inelegível por 8 anos, como manda a lei, e hoje tem a ficha mais limpa que bebê depois do banho. Exigindo uma retratação do jornalista Hugo Marques, autor da matéria, Collor ligou para a sucursal de Brasília da revista. Não se sabe o teor da conversa, não há registro do que o jornalista disse a Collor, mas o seguinte trecho, completamente isolado do restante da conversa, foi amplamente divulgado pela imprensa:


Dias depois, Collor, que hoje é senador, subiu na tribuna do Senado para esclarecer que entregou devidamente todas as certidões à justiça e aproveitou para demonstrar toda a sua indignação não apenas com a matéria, mas com a divulgação de um trecho isolado de uma gravação que deveria ser ilegal, chamando o jornalista de apedeuta e sicofanta, o que, em português normal, significa chamar de mentiroso cara-de-pau de uma figa. A imprensa, é claro, reagiu. A ISTOÉ publicou, sob o título de "Recaída Autoritária", duas páginas de críticas à atitude do senador que ousou "exercer a livre opinião para uma agressão pessoal". A Agência Nacional de Jornais exortou às "autoridades competentes para que assegurem a plena vigência dos princípios constitucionais de liberdade de expressão". Mas não era isso que Collor estava fazendo?

Vejam bem, não estou dizendo que Collor seja flor que se cheire, nem defendendo seu ataque ao jornalista, por menos confiável que este seja. Qualquer um que tenha alguma lembrança ou conhecimento da história política desse país sabe que, quando foi conveniente a Collor, o apoio e a imprecisão da imprensa foram muito bem-vindos. Mas ainda assim, isso não é pretexto para a imprensa publicar o que quiser sem sofrer qualquer consequência. A imprensa dodoizinha é a favor da liberdade de expressão dela. Quando, a qualquer momento, alguém faz uso de sua liberdade de expressão contra a imprensa é acusado de retrógrado, ditador, de estar cerceando a liberdade de imprensa e de tentar trazer de volta a censura.

E então chegamos a hoje. Os humoristas não estão rindo. Eles até tentam fazer piada com a proibição à piada, mas nenhum deles está contente com o fato do TSE ter proibido a realização de “trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que de qualquer forma degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação”. Em outras palavras, os programas humorísticos brasileiros na TV e no rádio não podem fazer piada com os candidatos a qualquer cargo que seja. Preocupados com o desperdício de matéria prima humorística, os comediantes fazem passeatas, manifestos e mobilizam a opinião pública contra esse claro atentado à livre expressão.

Hélio de la Peña, do Casseta e Planeta, escreveu no seu blog: "A impressão que temos é que os candidatos são uns pobres indefesos, vítimas das piadas. Os políticos brasileiros estão protegidos por uma legislação absurda e exagerada. É como se os coitados estivessem sofrendo de bullying praticado pelos humoristas." Ok, isso é verdade, mas e a imprensa? A imprensa também não age como se estivéssemos às portas de uma ditadura, coitadinhos dos jornalistas? A verdade é que a imprensa já claramente fere o princípio da isonomia (dar um tratamento igual a todos os candidatos), seja ignorando completamente algumas candidaturas sob o pretexto de critérios completamente arbitrários, seja através de desigualdade qualitativa no tratamento. Dado isso, por que não ferir um pouco mais a igualdade nos programas humoristicos?

Hélio cita como exemplo positivo o caso da Tina Fey e suas imitações da candidata a vice-presidente dos EUA, Sarah Palin. Mas o que acontece é que Sarah Palin não ganhou as eleições, inclusive a escolha dela como vice foi considerada o maior tiro no pé da campanha republicana, por ser um alvo muito fácil. Palin pode não considerar o Saturday Night Live como causa de sua derrota, mas, cá entre nós, ela não enxerga um palmo na frente do próprio nariz. Vale reparar que, "na mais vibrante democracia do mundo, os EUA" - conforme definiu um editorial d'O Globo tratando do assunto - onde a liberdade total de imprensa é garantida, até 25% dos americanos acham que Barack Obama é muçulmano, dos quais 60% dizem que viram isso na mídia, que tem alguns setores controlados pela extrema direita. Será que é realmente uma boa idéia deixar que a imprensa seja seu próprio juiz? Num país como o  Brasil, em que bordões como "Meu nome é Enéas" fazem recordes de votação, quanto estrago pode fazer um apelido depreciativo que seja massivamente veiculado em nome do humor? Quem declara seu apoio a José Serra abertamente estando sujeito a ouvir um "você vota no Vampiro Anêmico? Você é da turma da anemia?" Em que medida isso prejudicaria a discussão política num país que tem notória dificuldade em levar as coisas a sério?

Mais questionamentos surgem, por exemplo, como garantir a imparcialidade no retrato dos candidatos dentro de uma linguagem que necessita da liberdade poética e de uma certa distorção da realidade para funcionar? Quanta manipulação pode se esconder atrás de uma sketch de humor? Imaginem as seguintes possíveis sátiras, ao exagero dos pedágios paulistas e ao assistencialismo dos programas como o Bolsa Familia: Serra surta e sai colocando pedágios em tudo, no cafezinho, no teclado do computador, nos banheiros do congresso. Lula por sua vez, torna-se um híbrido de Silvio Santos com ele próprio, e sai distribuindo Bolsas Família gritando "quem quer dinheiro?", e tendo Dilma no lugar de Roque. Duas sátiras ruins, dignas de figurar no Zorra Total, mas qual delas é mais danosa à imagem do candidato? O cara que cobra pedágio em tudo, ou o cara que distribui dinheiro?

Marcelo Tas, o cabeça do movimento pelo fim do bloqueio humorístico, disse que o humor é apenas o exagero da verdade. Mas qual verdade será exposta sob o pretexto da comédia, e quais serão suprimidas sob a alegação de serem sem graça? E quem irá controlar isso? Eu prefiro que o judiciário continue regulamentando as ações da imprensa, mantendo-as dentro da legalidade e garantindo na medida do possível a isonomia, do que chegar um dia em que os políticos serão obrigados a mandar camisas personalizadas e autografadas aos humoristas para não serem achincalhados perante milhões de eleitores.

17 de agosto de 2010

A moda dos pelados


- Esse seu time não joga nada!
- E o seu? Um bando de pernas de pau!
- Ah é? Domingo os dois vão jogar um contra o outro, e se o meu perder, eu desfilo pelado aqui no bar!
- Pois eu digo o mesmo! Tá apostado.

Essa conversa fictícia, por mais imbecil que seja, ainda é verossímil. Duvido que, há três meses atrás, se a situação fosse o contrário ("se o meu time ganhar, eu desfilo pelado") alguém fosse dizer o mesmo do texto. Afinal, quando você aposta fazer alguma coisa que é (ou deveria ser) vexatória, você torce para não ter que cumprí-la - para o seu time não perder, no caso. Mas desde que o Maradona prometeu ficar do jeito que veio ao mundo em público na Argentina se a Seleção dele fosse campeã (tendo sido seguido por várias outras aspirantes a celebridades e/ou celebridades decadentes como Larissa Riquelme e Enrique Iglesias - veja aqui), a história de desfilar pelado se inverteu. Agora as pessoas torcem para ganharem E ficarem peladas. E não apenas restrito ao mundo do futebol - a atriz colombiana Sofia Vergara, da badalada série Modern Family prometeu ficar pelada se o programa dela ganhasse algum prêmio no Emmy, que será no dia 29 de agosto. Vamos analisar as possibilidades que levam a essa inversão:

1 - Nenhuma dessas pessoas tem a intenção de cumprir a promessa? Errado. Após a Espanha ganhar a semifinal da Copa - vejam bem, foi a SEMI! - um torcedor espanhol, que nem havia prometido nada publicamente, comemorou exibindo nas ruas de Madri suas vergonhas. Ou a falta de. E o (cantor? ator?) famoso Enrique Iglesias de fato cumpriu a promessa de esquiar pelado se a Espanha fosse campeã do mundo. Na água. De noite. No escuro. Mas cumpriu.

2 - A possibilidade de ver a pessoa pelada seria um incentivo ao time a ganhar, ou aos jurados concederem o prêmio? Basta analisarmos a gênese do fenômeno: quem é que tem interesse em ver o Dieguito de Maradona? No caso de Larissa Riquelme ou Sofia Vergara até seria compreensível, mas, conforme demonstrado pelos links anteriores, não é preciso muito esforço para não sobrar muita coisa inédita pra ver, sem necessidade de ganhar uma Copa do Mundo. Fora que gente pelada na rua não é sexy, é só esquisito.

3 - As pessoas completamente perderam a inibição de mostrar o próprio corpo, e estamos caminhando para uma sociedade mais livre, menos preconceituosa, menos recalcada e reprimida com relação à nudez? Fácil de derrubar. Se a peladice pública fosse algo normal, não estaria sendo anunciada como um prêmio ou um evento bizarro. E ninguém cumpriria a promessa no escuro.

Que raios está acontecendo? Não sei dizer com certeza, mas uma vez, vendo o nível das coisas que as pessoas revelam no twitter, eu disse que a privacidade era como uma pin-up envelhecida: já foi muito valorizada, mas hoje ninguém quer mais. A privacidade é o Dominó. A privacidade é um curso de datilografia. Talvez por tanta celebridade ter sua vida privada escarafunchada até o avesso, a falta de privacidade seja inconscientemente considerada um indicador de sucesso, e por isso as pessoas estejam tão ansiosas pra se livrarem dela.

A inversão da aposta (ganhar e mesmo assim pagar o mico) possivelmente vem da própria inversão do mico. Nessa nossa era youtúbica, em que quanto mais ridícula a pessoa for mais famosa ela fica (vide Star Wars Kid e Rodrigo Ferraz), passar vergonha em público deve ser considerado desejável para boa parte das pessoas. Desse modo, os possíveis peladões prometem ficar pelados, e com isso chamam a atenção; unem o útil ao agradável:  torcem pra ganhar e para ficarem pelados, pois assim chamam mais ainda a atenção. E com o benefício de que se não ganharem, não precisam fazer nada. O que é uma burrice muito grande, afinal, na velha fórmula, em que quem perde a aposta é que paga, a pessoa ficaria em evidência nos dois casos, ou por ter ganhado, ou por ficar pelado.

Eu acho que, além de um alpinismo midiático de quinta categoria, isso é uma pouca vergonha!

10 de agosto de 2010

A Origem

Assisti A Origem (Inception) ontem. É o melhor filme de 2010? Talvez. Não vi muitos filmes deste ano este ano, e ele ainda não acabou. Zombieland com certeza é tão divertido quanto, senão mais, mas são categorias diferentes, e não se pode comparar o humor despretensioso de Zombieland ou Kick-Ass com a profundidade, criatividade e exuberância visual de Inception. Mas como todo mundo já comentou o filme, todos os blogs de cinema já deram sua análise e suas sinopses (a melhor sinopse e que não entrega tanto o roteiro é a do iG Cinema, clique aqui), eu prefiro comentar os comentários sobre o filme.

Em primeiro lugar, a badalação a respeito do filme se justifica. O filme é fantástico, o argumento e a resolução são convincentes e especialmente o ritmo é ótimo. As cenas dramáticas são fortes e significativas sem serem melosas e dão a pausa necessária entre as sequências mais movimentadas. Mas o argumento (apesar de convincente) não é perfeito, e o conceito de dilatação temporal do sonho dentro do sonho com base na aceleração da atividade mental é completamente absurdo. Se você sonha que está sonhando, a sua cabeça funciona mais rápido que num sonho normal? É como se a velocidade de funcionamento da mente fosse algo infinito e multiplicável numa medida exata determinada pela quantidade de camadas do sonho. Mas isso não é algo que compromete a diversão ou a compreensão do filme. Algo que eu aprendi ao longo dos anos é que o melhor jeito de aproveitar um filme é aceitar o que ele te dá - você deixa pra duvidar e analisar depois.

Sobre a compreensão do filme, algo que muita gente reclamou é a de que o roteiro ou a trama eram incrivelmente intrincados e praticamente incompreensíveis. Eu não sei que tipo de filme essas pessoas andam assistindo (filmes do Will Ferrel?), mas se há algo que se pode dizer em favor da direção de Chris Nolan é que em nenhum momento você fica perdido na trama, nem deixa de saber o que está se passando em qualquer uma das camadas de sonho. O roteiro é linear, claro, e pouca coisa deixa de ser revelada - o filme deixa alguns mistérios secundários para os espectadores mais ávidos ou mais observadores, mas de modo geral a trama é completamente revelada e suas consequências práticas estão muito bem expostas diante dos olhos de todos.

Mas o que realmente me incomoda é que muita gente considere esse filme como a obra prima de Chris Nolan por "levar o espectador a questionar a sua realidade". Isso é bobagem - é a mesma coisa que dizer que Paulo Coelho é um gênio por questionar a sanidade e a loucura em Verônika Decide Morrer, um livro cheio de chavões e clichês sobre o que é a insanidade. A idéia da indistinguibilidade entre realidade e sonho já não é nova nem no âmbito do cinema, e já foi explorada de modo muito mais interessante e enigmática em O Operário (The Machinist, 2004). Mesmo entre a obra de Nolan, o questionamento da realidade é muito mais intenso em Amnésia (Memento, 2000) do que em A Origem.

Resumo da Ópera: A Origem é um filme que deve ser visto e merece todos os elogios. Leva o prêmio de filme da década, como já estão advogando? Vamos deixar passar a estupefação inicial e depois decidimos.

6 de agosto de 2010

O debate de ontem à noite

Nem sempre é pra falar de coisa inútil que eu estou aqui. Vou dar a minha avaliação do debate dos presidenciáveis que ocorreu ontem à noite, 05 de agosto. Acho exagero dizer que este debate teve ou terá muita influência na decisão do voto dos eleitores, já que colocar um debate pra concorrer com a semifinal brasileira da Libertadores da América (que o São Paulo ganhou, mas perdeu) é pedir pra não ter audiência. Mas, se esse primeiro confronto entre os candidatos não vai alterar em muito as pesquisas, já dá pra ter certeza que ele vai alterar o rumo que as campanhas dos cadidatos irão seguir. O debate da band funcionou mais ou menos como o primeiro round de uma luta de boxe, em que os lutadores trocam alguns golpes fracos, medem a distância do adversário e avaliam o estilo de luta pra saber melhor como atacar nas próximas etapas.

Antes de mais nada, preciso declarar a minha total neutralidade no assunto - algo que até me surpreende. Eu nasci em 86, então, desde que eu me lembro, todas as eleições pra presidente tiveram o Lula como cadidato. Eu cresci num ambiente político em que o Lula representava a oposição contra gente da corja dos Maluf, ACM, Collor, contra a privatização predatória do Estado que foi levada a cabo durante a era FHC, o que, juntamente com uma boa dose de ingenuidade infantil, fizeram com que eu sempre tenha sido um Lulista. Isso começou a se desvanecer em 2002, quando eu vi que o Lula já não era mais toda aquela oposição. Nessa época, eu também já tinha abandonado aqueles delírios pseudocomunistas em que muitos adolescentes pseudopolitizados caem (e que muitos levam até os DCEs das universidades, até o dia em que precisam cortar o cabelo, tomar banho e arrumar um emprego, nessa ordem), então ainda considerava a vitória de Lula um avanço. Tímido, mas um avanço. Depois de ver que bandeiras são hasteadas e arriadas a cada minuto, e que alianças são feitas e desfeitas sem levar em conta qualquer posição ideológica, apenas por conveniência política, perdi qualquer empatia por organizações partidárias.

O que vimos no debate ontem foi uma Marina Silva extremamente apagada, que falou pouco, nas poucas vezes em que falou não empolgou nem mostrou grandes convicções - à exceção do momento, no final do debate, em que foi confrontada pelo Plínio Arruda, do PSOL. Ainda assim, faltou coragem pra dizer o que o próprio Plínio falou na réplica: o desenvolvimento sustentável é possível, mas esse desenvolvimento vem a taxas muito menores que da forma predatória. Não se faz desenvolvimento sustentável sem reduzir a margem de lucro ou a velocidade de crescimento, e a Marina, tentando agradar a todos (como todo bom político) omitiu isso, preferindo se fazer de ingênua e reafirmar que vai cuidar do meio ambiente sem sacrificar o empresariado. Não convenceu.

Dilma Rousseff, por sua vez, mostrou a todos porque é uma aposta arriscada do PT. Dilma nunca foi candidata para nenhum cargo, e a falta de experiência num debate político pesou (vejam bem que eu estou falando de falta de experiência de debate, não estou questionando as capacidades administrativas dela). Dilma estava nervosa, por diversas vezes se enrolou toda, não completando os raciocínios, demonstrou insegurança e, se não perdeu nenhum eleitor por causa do desempenho no debate, duvido que tenha angariado algum tampouco. Questionada sobre quais seriam a suas propostas, Dilma só conseguiu declarar princípios ("vamos melhorar as universidades, vamos aumentar a segurança"), mas não deu nenhum dado ou citou um programa concreto. Ao que parece, a plataforma da petista é "o país vai bem, vamos manter as coisas como estão" - nenhuma proposta nova. A melhor jogada dela foi quando pediu para que Serra comentasse dois programas do governo Lula - Serra acabou simplesmente elogiando os programas do atual governo, tentou vincular a origem deles ao governo FHC, sem sucesso, e acabou mudando de assunto, voltando insistir no que parece ser o carro chefe da sua campanha: a saúde. "Todo mundo fala que o Serra é hipocondríaco, porque ele só sabe falar de saúde", ironizou Plínio Arruda, em seguida.

Da mesma maneira que Dilma, Serra não apontou nenhuma plataforma de governo, apenas tencionou mostrar falhas no governo Lula - o que pode ser revertido em vantagens para os petistas, já que, devido à baixíssima audiência desse debate, o estrago foi pouco, e os governistas vão se precaver melhor da próxima vez. Serra deveria ter guardado essa artilharia para mais tarde. Os quase 80% de aprovação do governo Lula são um telhado robusto para proteger das pedradas a candidata do PT, mas Serra mostrou que a mira dos tucanos é suficientemente boa para acertar algumas telhas de vidro no telhado do governo.

Ao contrário de Dilma, Serra, que é macaco-velho (bota velho nisso!), estava muito seguro e conciso nas suas respostas. O que não deveria querer dizer nada (exceto que ele sabe mentir melhor que os outros), mas sabemos que, infelizmente, o desempenho teatral dos candidatos conta muito para o eleitor médio. Acaba não importando tanto o que o candidato diz, mas quem consegue falar melhor (imagino quantos votos o William Bonner conseguiria só com o seu "Boa Noite"). É idiota, mas a eleição pode ser decidida por esse detalhe bobo, especialmente se a Dilma Rousseff não se mostrar mais simpática e acessível ao eleitorado. Serra aprendeu bem a lição do próprio Lula de se mostrar íntimo do eleitorado, especialmente em comparação com a Dilma, que lembrava mais o Lula sisudo de 89, 94 e 98.

Mas em termos de desempenho teatral, ninguém supera o Plínio Arruda, do PSOL. A grande estrela (e surpresa) da noite de ontem atingiu o topo dos Trending Topics no Brasil e o segundo lugar nos TTs mundiais no twitter. Se mostrando debochado, irônico e partindo pra briga, Plínio praticamente transformou o debate numa Stand-up Comedy. É claro que apareceram momentos em que a síndrome de perseguido do PSOL, PSTU e outros partidos da "esquerda socialista oprimida" deu o ar da sua graça (coisas como "ninguém pergunta nada pra mim", "estou sendo discriminado", "a mídia omitiu a minha candidatura", etc). Não dá pra deixar de concordar com o Eduardo Guimarães quando ele fala que "Plínio estava calmo e bem-humorado porque é um franco-atirador que nada tem a perder", mas ele foi o único que conseguiu surpreender, com potencial para cativar uma parte indecisa do eleitorado. Num debate em que a evasividade e o Fair Play foram a tônica, é bom ver que pelo menos um dos candidatos teve coragem de partir pro enfrentamento e apresentar uma proposta que não se propõe a agradar todo o mundo - mesmo que sejam propostas completamente descabidas.

Na minha avaliação, após o debate quem estava com Dilma permaneceu com Dilma, assim como quem estava com Serra ou Marina mantiveram suas posições. Se houve um vencedor no debate, foi o próprio Plínio Arruda, que deve ter angariado umas boas centenas de eleitores. Se ele nao ganhar a eleição, pelo menos já ganhou mais 2000 seguidores no twitter de ontem pra hoje (e contando!). Confira o estilo da figura no vídeo abaixo:


Eu continuo com o voto em aberto.

2 de agosto de 2010

Os Homens que Encaravam Cabras

É um filme. Creio que seja o melhor modo de avisar de modo direto a que se refere o título bizarro do post, que também é um título bizarro para um filme. E pra ser rápido no gatilho, antes que você pense que eu estou resenhando um filme pornô zoófilo, o elenco é composto por Ewan McGregor, George Clooney, Kevin Spacey e Jeff Bridges. Atraí a sua atenção? Espero que sim.


Os Homens que Encaravam Cabras (The Men Who Stare at Goats, 2009) conta a história de um repórter (Ewan McGregor) que descobre um programa secreto do exército americano voltado ao treinamento de soldados paranormais, comandado por um coronel estudioso dos movimentos Nova Era (Jeff Bridges). Assim como o símbolo hippie ao lado da frase "Nascido para Matar" no capacete do soldado Joker, em Nascido para Matar, de Stanley Kubrick, a grande piada do filme é a evidente contradição do militarismo norte-americano em se apoderar de técnicas de meditação, yoga ou viagem astral para formar um exército.  Se a história soa surreal demais pra você, ou se ela parece completamente sem pé nem cabeça, aí vem a melhor parte: o filme é baseado numa história real. O programa realmente existiu - se é que ainda não existe. Se quiser saber mais sobre o assunto, pesquise sobre o First Earth Battalion.

Voltando ao filme: quem se lembra da primeira metade de Nascido para Matar, que mostra o treinamento extremamente rígido dos novos recrutas, certamente irá morrer de rir com os diversos flashbacks do treinamento dos "guerreiros Jedi" - como eles próprios se denominam - que são mostrados ao longo do filme, conforme o personagem de George Clooney (o mais poderoso dos "Jedi") vai narrando a história do Exército da Nova Terra para o repórter. Em vez de marchar, dançar. Em vez de manejar armas, manejar o espírito. Em vez de praticar pontaria, tentar parar o coração de uma cabra apenas com o pensamento (entendeu o título agora?). Se não fosse uma história real, eu acharia se tratar de uma paródia.

George Clooney faz um trabalho excelente e arranca boas risadas toda vez que tenta demonstrar alguma das técnicas de efetividade duvidosa aprendidas no treinamento - e é muito bom vê-lo fora do papel de galã. Jeff Bridges, no papel de um coronel hippie, também está fantástico como sempre. Ambas as atuações são tão boas que o aclamado Kevin Spacey, apesar de continuar impecável, fica completamente obscurecido. E um detalhe que torna tudo um pouco mais engraçado é o fato de Ewan McGregor já ter interpretado um Jedi (Obi-Wan Kenobi, nos três filmes mais recentes de Star Wars).

Os Homens que Encaravam Cabras é, ao melhor estilo Irmãos Cohen, uma ridicularização tanto do militarismo americano quanto da ingenuidade hippie/nova era - e da tentativa por si só ridícula de tentar unir as duas coisas. Ainda assim, o posicionamento do filme é mais favorável aos hippies. Afinal, se é pra ser ridículo, é melhor que seja de um modo que não faça mal a ninguém.

Detalhe importante: eu ia colocar o trailer aqui no blog, mas achei melhor não fazê-lo. Recomendo a todos que não assistam o trailer, porque ele entrega algumas das melhores passagens do filme (quando você vai assitir, já sabe o que vai acontecer). Vão direto pro filme e não se arrependerão.
 
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