11 de julho de 2010

Tópicos tangentes à Copa do Mundo - Parte 2

Final de domingo já é motivo de melancolia naturalmente. Final de domingo + final de Copa é uma combinação poderosa no caminho do aumento no número de suicídios, ainda mais considerando-se a ausência do Brasil do ponto mais alto do pódio. Ou sequer do pódio... mas, enquanto algumas pessoas se perguntam se existe vida após a Copa do Mundo, os nossos presidenciáveis dão um suspiro e se preparam para a vez deles de não sair dos holofotes. O que nos leva a outro comentário-padrão sobre a Copa:

Enquanto o Brasil se distrai com a Copa, ____________ aconteceu. Por favor, preencham a lacuna. Enxurrada assassina no nordeste? Código Florestal que destrói a amazônia? Podem escolher. Essas coisas realmente aconteceram (e até foram bem divulgadas, porque até eu que nunca vejo TV fiquei sabendo), e outras milhares de coisas igualmente importantes aconteceram durante a Copa, mas que diferença faria se tivessem sido mais divulgadas? O código florestal já estava tramitando há séculos no congresso, já tinha gente criticando, o Greenpeace organizou N petições online contra o tal código, e nada aconteceu. Quando os políticos decidem ignorar a opinião pública, eles simplesmente o fazem. A enxurrada assassina veio e se foi tão rápido quanto chegou, e até agora estão juntando os cacos. Alguém teria impedido isso? Ou o super-homem não pôde atender porque estava esperando o Messi fazer o seu golzinho na Copa? A diferença entre essa tragédia no nordeste e os deslizamentos no Rio de Janeiro foi que os jornais, em vez de ficarem entrevistando as pessoas chorando os parentes mortos, resolveu entrevistar o Dunga.

Parem de dizer que a cobertura da Copa é "pra te distrair das coisas que são realmente importantes". Parem com essa besteira paranóica de Cidadão Kane. É óbvio que vão dar mais destaque à Copa nos noticiários. O evento acontece uma vez a cada 4 anos! Todo ano tem algum escândalo político ou algum desatre natural. A Copa é mais rara, sinto muito. E o evento mais raro vende mais jornal. Há quem reclame que brasileiro dá menos atenção à política que ao futebol, e pode até ser verdade, mas não é por falta de fornecimento de informação. Agora mesmo durante a Copa, a revista IstoÉ teve duas entrevistas com Marina Silva e José Serra na capa (acho que se a Dilma ainda não apareceu, deverá vir logo). E antes que reclamem que a maior parte das pessoas não pode comprar a revista, toda semana eu tenho visto pesquisas sendo divulgadas na TV. Há outra explicação para as pessoas acharem que é só a Copa que ganha destaque: é porque elas só se interessam na Copa! Depois da Copa, vêm as eleições, sempre foi assim. A divisão me parece justa: dois meses para a Copa, três para as eleições (quatro, se houver segundo turno).

De qualquer forma, trabalhar na imprensa é uma coisa ingrata. Se não cobrem direito a Copa, estão  fazendo um trabalho mal feito e perdem audiência. Se cobrem a Copa extensamente, estão encobrindo outra coisa. Se mostram a trgédia brevemente, estão fazendo pouco caso; se promovem a superexposição da desgraça, estão se aproveitando do sofrimento dos outros. Se não dão notícias sobre eventos políticos, estão protegendo alguém; se cobrem o caso de perto, estão tentando destruir alguém. A TV quer audiência, e o melhor jeito de conseguir audiência é dar às pessoas o que elas querem ver. Se a Copa vende mais que a política, a culpa é de quem compra, não?

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