3 de maio de 2010

A Esculhambação da Gastronomia

Salada de tomate combina com salada de couve-flor? O melhor acompanhamento para um prato principal qualquer é arroz ou batata? Para responder essas questões, o Idéias Insólitas presenteia vocês com uma teoria revolucionária que vai transformar completamente o modo como você, prezado leitor, encara a culinária.

(Rola uma musiquinha de abertura de programa culinário)

Baseado na minha aparente total falta de critério para escolher combinações de alimentos, eu desenvolvi uma teoria para governar a possibilidade de misturas inusitadas serem realizadas sem dano. Mas, para explicá-la satisfatoriamente, tenho que voltar no tempo e contar uma história.

No já longínquo ano de 2007, eu comecei a fazer sanduíches com qualquer coisa que eu pudesse encontrar na geladeira e colocar dentro de um pão: alface, tomate, queijo, mostarda, ketchup, molho shoyu, maionese, mel, geléia, uvas, feijão... qualquer coisa. Minha esposa batizou isso de sanduíches Rabolu (em homenagem à célebre frase do V.M. Rabolu: "quem tiver entendimento que entenda, porque aqui há sabedoria"). Um dia, um amigo meu, vendo aquela cornucópia dentro do sanduíche, resolveu concorrer e fazer um outro sanduíche mais estranho e com mais coisas.

Entramos numa competição que era retomada a cada vez que nos encontrávamos, em que o que era posto no sanduíche de um, teria de ser posto no do outro. E, por incrível que pareça, os sanduíches continuavam bons, mesmo após a adição de vinagre, canela e calda de chocolate (mas isso só nós dois saberemos, porque ninguém mais se atreveu a provar). Até que um dia, ele resolveu adicionar Quick sabor morango no sanduíche. Pra não ficar diminuído, eu coloquei também. Não consegui terminar de comer, quick foi demais pra mim. Joguei a toalha, enquanto via ele abrindo o sanduíche de novo, dizendo: "precisa mais quick".

A minha idéia inicial de que qualquer coisa podia ser combinada foi jogada por terra, mas eu ainda não estava pronto para desistir. Até que percebi que aquilo era uma exceção: quick é uma porcaria, não dá pra comer num sanduíche algo que você também não comeria fora do sanduíche. E foi então que a minha teoria revolucionária veio à tona. O enunciado inicial do Teorema de Rabolu é o seguinte:

O que é bom separado, é bom em conjunto.

Ao longo dos anos, o conceito foi sendo constantemente posto à prova, pelos mais variados métodos, sempre com sucesso inquestionável, mas não sem passar por algumas adaptações. Reconhecendo que o conceito de "Bom" em culinária é muito relativo, o enunciado do teorema passou a ser:

Se você gosta de dois ou mais pratos isoladamente, gostará também 
da mistura desses pratos, na medida em que gostar de cada um deles.

O que parece uma teoria temerária e anárquica, na verdade segue regras muito específicas para que tenha validade:

Regra nº1 - Os alimentos devem ser consumidos em conjunto do mesmo modo que são consumidos isoladamente.
Em outras palavras, se você bater uma pizza no liquidificador junto com salada de frutas, não estará aplicando o teorema corretamente. A menos que você goste de pizza batida no liquidificador.

Regra nº2 - Temperos a ser adicionados devem, necessariamente, ser considerados bons com pelo menos um dos ingredientes.
Aplicação prática: se você não gosta de abacaxi com vinagre, nem de feijão com vinagre, não se recomenda que seja adicionado vinagre a feijão-com-abacaxi.

Regra nº3 - Aplicação do fator de risco.

Último desenvolvimento da teoria, o fator de risco é uma fórmua matemática que calcula a porcentagem do teorema de funcionar adequadamente. O cálculo da porcentagem de sucesso de qualquer mistura é dado por:

Onde:
P = Porcentagem de sucesso de uma mistura qualquer.
Q = Quantidade de componentes adicionados
r = coeficiente de risco, a ser aplicado segundo os valores a seguir:
  • r = 1 se os componentes forem de uma mesma categoria (salada + salada, sobremesa + sobremesa, etc)
  • r = 2 se um ou o único componente adicionado for de categoria distinta do outro, exceto sobremesa ou bebida.
  • r = 3 se um ou o único componente adicionado for sobremesa ou bebida, sem que o(s) outro(s) o seja(m).
  • r = 4 se a mistura englobar mais de dois componentes, e todos forem de categorias distintas.
Ω =  potencial de falha crítica, sendo aplicáveis:

          a) Ω = 1, se todos os ingredientes forem do mesmo estado físico
          b) Ω = 2, se um dos ingredientes for líquido
          c) Ω = 4, se os componentes forem tradicionalmente consumidos em temperaturas diferentes (divididos entre gelado, frio, morno ou quente)
          d) Ω = 6, se b) e c) forem aplicáveis

Estudos de caso:

Caso 1 - Pizza de palmito + pizza de champignon = são aplicados os valores: Q = 1 (apenas um componente adicionado); r = 1 (ambos os componentes de categorias iguais); Ω = 1 (ambos no mesmo estado físico).
P = (100/ 2.1.1).1,9 = 95
Para esses valores, o percentual de sucesso é de 95%. Quem gosta de pizza de champignon e de pizza de palmito não teria problemas em colocar uma fatia sobre a outra e comer.

Caso 2 - Feijão + sorvete = são aplicados os seguintes valores: Q = 1 (apenas um componente adicionado); r = 3 (um dos componentes é sobremesa); Ω = 4 (consumidos em temperaturas diferentes).
P = ( 100/2.1.3^4).1,9 = 1,17
Nesse caso, o percentual de sucesso é de 1,17%. Nesse caso, mesmo que os componentes sejam bons isoladamente, o risco é altíssimo, e a mistura é potecialmente desastrosa (o que não impede que 1,17% das pessoas que gostam de feijão e de sorvete possam gostar dela).

 Quem tiver entendimento que entenda.

3 comentários:

EFGoyaz disse...

Que show! Realmente é fantástico. Tirando as fórmulas matemáticas, sempre que leio seu blog me sinto menos bizarro.

F. disse...

mal posso acreditar que essa teoria esta chegando onde chegou! desde que eu levantei a hipotese sorvete+feijao pensei que a questao estaria encerrada.
bem, belo post, mas eu ainda acho que bolar uma formula matematica eh so um jeito de sair pela tangente, pois o que era uma verdade universal (pra voce) virou um conjunto de probabilidades.

diego.ufsc disse...

Perdesse a mão nesse post... a formula matemática nao tem a menor consistência matemática.... e o texto ficou sem sequência... classificação: UB - vc sabe o que significa!

 
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