2 de maio de 2010

A Atração da Gastronomia

Todo mundo quer ser gourmet. Nos projetos residenciais, tornou-se comum a cozinha-espetáculo, de preferência integrada à sala, porque o dono gosta de "cozinhar para os amigos"[sic]. Existem reality shows sobre chefs de cozinha passando em horário nobre; blogs sobre culinária, em geral, bombam na internet. Novos cursos superiores de gastronomia são abertos quase todo dia e até meu irmão, que nunca fritou um ovo na vida, já aventou, do auge da sua indecisão adolescente, a possibilidade de cursar um deles. Quando foi que pilotar fogão deixou de ser "trabalho de criados", "coisa de mulher", ou simplesmente uma necessidade?

É claro, todo mundo gosta de comer bem. Muitas pessoas gostam de cozinhar, algumas cozinham bem, uns poucos são verdadeiros gênios na cozinha, mas o que realmente me intriga é a quantidade de pessoas querendo à todo custo exibir os seus dotes culinários. Respeito muito o trabalho dos verdadeiros gourmets, dos chefs de cozinha, eles são profissionais e têm razão de existirem - afinal, se você vai pagar pra comer o que os outros cozinham, tem que ser no mínimo melhor que a comida que você mesmo faz, não é? O que me irrita são aquelas pessoas que, não contentes em comer bem, gostar de cozinhar, e talvez até cozinhar realmente bem, fazem questão de espalhar isso aos quatros ventos e dar showzinho para os amigos.

É claro, todo mundo gosta de calçar bem. Muitas pessoas gostam de caminhar, algumas até correm, e uns poucos ganham medalhas olímpicas fazendo isso, e precisam de um bom calçado pra tanto. Mas, não sei porque, não vejo ninguém fazendo curso de sapateiro ou montando um estande no meio da sala para colar o allstar dos amigos.

E aí é que vem o pulo do gato e o que me inquieta tanto: as pessoas que se intitulam gourmets-de-fim-de-semana só o fazem tão alto e claro porque comer bem/cozinhar bem se tornou sinônimo de sofisticação. E sofisticação, como todos devem saber, também é sinônimo de poder aquisitivo: restaurantes finos custam caro, ingredientes frescos e elaborados custam caro, e um vinho de qualidade para acompanhar também custa caro. "Sofisticado" é um ajetivo que custa caro para ser adicionado após qualquer substantivo. E é por isso que a gastronomia desperta tanto interesse, especialmente entre as camadas relativamente intelectualizadas da população: ela se torna, assim como os carros de luxo e roupas de marca, símbolos de um estilo de vida e de um padrão de consumo que poucos tem realmente condições de atingir. Com a diferença que não dá pra aprender a ser sommelier apenas com um crediário.

Em resumo, isso tudo foi pra falar que, na verdade, o que esse povo quer mesmo é só ser metido a besta. E eu sei disso porque eu mesmo já quis ser metido a besta, já quis ser reconhecido como um bom cozinheiro. Até que percebi duas coisas: a primeira é que eu não queria ser um bom cozinheiro, eu queria ser reconhecido como um. E é uma coisa muito triste precisar de algum baba-ovo elogiando a sua comida pra você se achar alguma coisa. Eu realmente não preciso disso. Eu gosto da minha comida e isso me basta. A segunda coisa que eu percebi é que eu gosto da minha comida porque eu não tenho paladar. Eu como direto da panela e não tenho a menor paciência de ficar enfeitando prato. Eu gosto de nissim miojo, de comida gordurosa e faço as misturas mais esdrúxulas, baseado numa teoria ainda mais esdrúxula. Mas isso é assunto para o post de amanhã.

3 comentários:

Anônimo disse...

QUANDO foi que voce pensou em ser reconhecido como bom cozinheiro? pelo que sei, voce sempre quis provar sua teoria de que todos os alimentos combinam entre si (ex: sanduiche de ervilha com Quick de morango, geleia, margarina, molho shoyu e chocolate granulado...)

Diogo de Lima disse...

Não, isso foi depois da revelação do mestre Rabolú... ainda hoje eu vou postar um novo texto detalhando a teoria.

diego.ufsc disse...

Lembra quando a gente morava atrás do Ginásio, em Pva, e a gente fazia arroz+feijão+farinha e fritava tudo aquilo? Aqui sim era sofisticação, brotha!

 
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