20 de abril de 2010

História Insólita #3


Quando ele se mudou, a primeira coisa em que reparou, além da pintura descascando, do piso lascado, e do aspecto universalmente deprimente do prédio onde alugara uma kitnete, foi a vizinha. Não que se tratasse de uma garota-propaganda de cerveja, ou da próxima modelo internacional. Era uma mulher comum, uma face comum, por volta dos 30. Com uma aparência tão desbotada e amarelada quanto as paredes do prédio, parecia combinar perfeitamente com o local. A sensação é de que tudo fora colorido com os três ou quatro tons de ocre de um mesmo estojo de pastel seco.

Mas por algum motivo, quando ele a viu saindo da porta ao lado da sua, cruzando com ele enquanto voltava para a nova casa, algo especial se acendeu nele. Talvez por ela parecer tão sozinha e miserável quanto ele. Talvez pela completa falta de atrativos, o que confirmava a sua realidade - e acessibilidade. Ou, quem sabe, ele só estava tão solitário que qualquer objeto disponível para uma fantasia romântica encontraria um caminho fácil ao interior de seus pensamentos. Seja por que motivo for, apaixonou-se pela vizinha.

Não que tenha sido imediato. No princípio, ele estava plenamente cônscio da irrealidade da situação, uma vez que nunca havia sequer trocado um olhar com a mulher da porta ao lado. Duas semanas depois da mudança, ele a encontrou pela segunda vez. Presos do lado de fora do edifício por uma dedetização que o síndico resolvera levar a cabo sem avisar, trocaram meia dúzia de palavras. Falaram sobre o tempo, o trânsito, as baratas... em geral, comentários seguidos de uma reposta monossilábica. Liberada a entrada, cada um se encaminhou para a sua porta. Regado pelas fantasias prévias, esse breve encontro ganhou contornos bem mais significativos do que deveria ter, e o convenceu de que a vizinha poderia ser tudo aquilo que ele imaginava nas noites de insônia.

Passava as noites após o trabalho lendo, alguma revista em quadrinhos ou romance barato que conseguia comprar no sebo por menos que o troco do ônibus. Num de seus delírios, resolveu encostar a poltrona  na parede que dividia os dois apartamentos, numa tentativa quixotesca de estar o mais próximo possível da amada. E foi aí que fez uma descoberta.

As paredes finas do prédio o permitiam escutar o que se passava no cômodo ao lado. Maravilhado com a possibilidade de participar da vida da vizinha, ainda que apenas como ouvinte, largou a leitura e passou a se concentrar nos sons que ouvia. Eram vozes. Ininteligíveis, o som de pessoas conversando chegava ao ouvido dele como se fosse uma sinfonia. Vez ou outra, alguma palavra ou frase conseguia ser identificada, geralmente coisas banais como "Obrigado por ter vindo" ou "Vou buscar um café".

Tímido demais para buscar uma aproximação real, aquela sessão diária com os ouvidos colados na parede da kitinete era como viver uma outra vida, na qual ele se imaginava do outro lado da alvenaria fina. Por quase um mês ele insistiu nessa prática. Vibrava com cada palavra desconexa que conseguia entender, e estremecia quando ouvia uma voz masculina do outro lado da parede. Construiu um perfil da vizinha. Ela parecia ter uma vida social bastante agitada, sempre recebendo pessoas novas, pela variedade de vozes que ele conseguia identificar através da divisão. Contrastando com o local lúgubre onde moravam, os amigos da mulher ao lado pareciam bastante sofisticados. Algumas vezes, ele conseguiu ouvir "Londres", "Milão", e, numa noite particularmente silenciosa, captou uma acalorada discussão sobre vinhos.

Até que em uma noite, quando ponderava se deveria bater na porta da vizinha e, num movimento súbito e apaixonado, declarar sua devoção, ouviu uma conversa com outro tom. Apenas duas pessoas. Uma voz masculina gritava e era respondida por outra voz igualmente exaltada. Era evidentemente um casal brigando. Ele não conseguiu compreender nada do que era falado. Mas, quando os ânimos se arrefeceram, uma trégua no barulho do tráfego o permitiu ouvir o homem dizer: "mas você sabe que eu te amo".

Era isso. Estava tudo acabado. Ela tinha um namorado. Marido, talvez. Ele sabia que jamais teria coragem de chegar perto dela de novo. A possibilidade de rejeição era muito grande, e a timidez também. Afastou a poltrona da parede. Retomou a leitura dos romances baratos, sufocando a sua paixão platônica como o mais caricato dos heróis de folhetim. Encontraria outro alguém, algum dia.

Do outro lado da parede, naquela noite, assim como em todas as outras noites, a vizinha, completamente só, assistia à novela do Manoel Carlos.

3 comentários:

F disse...

so cool!
voce me parece uma mistura de Roald Dahl (nos contos) com Verissimo. vai treinando, que um dia voce ganha dinheiro com isso (espero que nao demore)

Raquel Beatriz disse...

boa história...

Martin Juan Sarracena disse...

Gostei do conto.
Bem criativo. Lembrou-me de um filme com Jesse Valadão em que ele descobria que a mulher tinha um furo na meia, e quando ele voltou do trabalho o furo estava na outra meia.
O desfecho não conto, mas foi trágico.
Pelo menos seu personagem não foi tão radical.

 
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