6 de março de 2010

Pudores Improváveis

Eu tenho que comentar isso antes que o carnaval já fique longe demais. Na verdade já está, e o que eu vou comentar não tem tanto a ver com o carnaval, embora o use como pano de fundo. Pois bem, o fato é (ou foi): outro dia eu vi no mercado uma revista, dessas revistas populares de fofoca, Contigo, Minha Novela ou qualquer porcaria do gênero. A supracitada publicação de qualidade duvidosa trazia, em um pedaço da capa, fotos de rainhas-da-bateria, com um título do tipo "veja quem arrasou na avenida em 2009". Algo assim.

Entre as fotos de quatro ou cinco mulheres fantasiadas com biquínis minúsculos, havia uma que era algo como a foto abaixo:

E aí eu me pergunto: que raios tem a ver cortar o mamilo da foto? Eu juro que não estou tentando dar uma de malandro, "libera o mamilinho aí pra nóis, mano", ou coisa do tipo. Eu só estou tentando entender que tipo de moral torpe é essa. "A mama e a auréola pode mostrar, mas o bico do peito não, aí já é indecência!", imagino o editor dizendo...

É a mesma classe de argumento que leva as pessoas a dizer coisas como "fumei, mas não traguei". "Foi sexo oral, não foi sexo". "Comi mas não gozei". E daí pra frente. Mas o pior nesse caso é a revista censurar o bico do peito da moça depois de ela já ter aparecido em rede nacional com o peito todo de fora! Tipo, já foi, amigo! Além de carnaval já ser uma baita de um contra-senso: durante quatro dias no ano, você pode fazer o que quiser, ninguém é de ninguém, porque é carnaval, mas no resto do ano não. Eu sei que eu estou parecendo uma tia velha aqui, mas a minha opinião é justamente o contrário. Ok, eu acho carnaval um saco, mas se a pessoa gosta de uma libertinagem, que seja libertino o ano todo, em vez de ficar se reprimindo esperando uma festa que nem tem mais sentido. Ou alguém aí fica mesmo sem comer carne durante toda a quaresma?

É inegável o fato de que moral é algo muito pessoal, mas existem coisas que podem ser postas na mesma escala. Se deixou metade do mamilo aparecendo, que sentido há em esconder o bico? Aposto que muita gente ia me chamar de louco se eu resolvesse que mostrar a mama direita é indecente, mas a esquerda é ok - e não ia ser muito diferente disso.

Mas o ser humano é assim mesmo, né? O tabu é sempre mais forte que o argumento, e se o tabu é muito inconveniente, a gente dá um jeito de contorná-lo. Algumas religiões proíbem comer sangue, porque a bíblia diz que não se deve comer "carne com sangue". Mas como deixar de comer carne é muito difícil para a maior parte das pessoas, resolveram facilitar a vida do pessoal e transformar a proibição em comer sangue apenas. Aí tem crente por aí que se esbalda no bifão pingando sangue, mas não come chouriço nem que seja obrigado. Alô, a proibição não era "carne com sangue"? E aí, pode comer a carne, mas tem que jogar o sangue fora? "Sangue é vida, por isso, deve ir pro lixo". É, ok, faz sentido. Ao menos para os matadouros isso faz todo o sentido.

O que me lembra de outro caso de pudor sem sentido. Durante as olimpíadas de Pequim, os restaurantes chineses foram proibidos de servir carne de cachorro para não ofender os ocidentais. Muitos não respeitaram. A UOL publicou uma reportagem que descrevia a busca de um repórter para experimentar a carne de cachorro, e o público reagiu indignado. Ora essa, eu sou vegetariano e não apóio o consumo de carne em nenhuma circunstância. Até uso como argumento, às vezes, quando já estou de saco cheio, a pergunta "você comeria o seu cachorro?". Afinal, são todos comestíveis, né? Eu não creio que tenhamos o direito de aprisionar e matar qualquer animal apenas pra satisfazer o nosso paladar, mas me baseio simplesmente nos pilares do respeito e da compaixão. Quem acreditar que nós não devemos isso aos animais, sinta-se à vontade para exterminar e devorar qualquer um. Por isso, eu acho uma baita babaquice dizer que matar cachorros é crueldade e vacas não. Alguém me apresenta um critério lógico de seleção?

"Mas cachorros têm personalidade, isso conta muito", certo, Jules?

Mas enfim, agora há pouco, na TV, estava passando um programa (Rodrigo Faro apresentando - que decadência, hein?) em que duas pessoas tentavam adivinhar se a pessoa na frente era mulher ou homem, entre várias mulheres e travestis. Quem acertava marcava pontos. Há pelo menos 30 anos o Faustão exibe todo domingo um quadro que mostra gente caindo, batendo a cara no poste ou tomando bolada no saco.  Quem não tem pudor de exibir ou de assistir isso, não devia ter pudor de mais nada.

Um comentário:

EFGoyaz disse...

É, meu amigo. O carnaval faz parte da humanidade há milênios. Desde que o homem "dominou" a astronomia, o carnaval não pode faltar de jeito nenhum: É igual você fazer um banheiro em mármore (sociedade), mas esquecer de deixar o ralo (carnaval). E a Igreja, que não é boba, podou o politeísmo, podou tudo o que pôde, mas prudentemente deixou o carnaval. E pra quê questionar? Nós é que somos as vacas, nossa obrigação é seguir as outras. "Libera o mamilinho aí pra nós, mano" rsrsrs. Já que vale citar a Bíblia pra justificar a lógica, Jesus teria nascido no ano zero (e não no ano 1), teria morrido na Sexta-Feira da Paixão e ressuscitado três(!) dias depois, no Sábado de Aleluia, etc, etc. Lógica é algo de outra dimensão paralela. Não dessa aqui.

 
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