28 de março de 2010

A Hora do Planeta e a Dificuldade das Pessoas em Entender o Real Significado das Coisas

É, post com nome imenso.

Hoje (na verdade foi ontem, mas como eu não dormi, ainda é hoje pra mim, tá?) tivemos mais uma edição da hora do planeta. Pra quem não sabe o que é isso, a Hora do Planeta é um iniciativa da ONG WWF que ocorre um vez por ano. Como ato simbólico, pessoas e cidades devem apagar as luzes durante uma hora em um dia marcado pela entidade, como uma manifestação de apoio às ações que visam o desenvolvimento sustentável e o controle do aquecimento global.

Basicamente, a idéia é a seguinte: desligando as luzes da sua casa (ou, no caso de uma prefeitura, deligando a iluminação de monumentos, ou uma empresa desligando a iluminação da fachada, etc), você está dando um recado: "Sim, eu me importo com o aquecimento global. Eu quero fazer algo para ajudar. Eu encaro mudar o meu estilo de vida e fazer um esforcinho, tomando atitudes ambientalmente responsáveis". A lógica é que se você se dá ao trabalho de desligar as luzes da sua casa, e se submete ao incômodo de ficar uma hora no escuro, você também se daria ao trabalho de pesquisar no supermercado e escolher produtos mais ambientalmente responsáveis, e se submeteria ao incômodo de reduzir o consumo de carne para diminuir a emissão de gases que contribuem para o efeito estufa, por exemplo.

E mais: se você se priva de algo voluntariamente por uma causa, você manifesta seu apoio à medidas que podem fazer com que você seja obrigado a se privar de algumas coisas, em benefício dessa mesma causa. Em resumo, a Hora do Planeta é uma ação puramente simbólica, que demonstra o comprometimento e preocupação do participante com relação à mudança climática. Como resultado, espera-se que as empresas vejam que muita gente se importa com isso, e passem a priorizar práticas menos nocivas ao meio ambiente, até como forma de publicidade. Espera-se que os governos vejam que medidas restritivas pelo bem do planeta não são tão impopulares como muita gente pensa. E espera-se que as pessoas vejam que pequenas ações individuais podem fazer diferença quando colocadas lado a lado com milhões de outras pessoas fazendo a mesma coisa.

Mas aí vem sempre aquele pequeno problema: pra você compreender o significado de uma ação simbólica, é preciso pensar um pouco. E pensar é um coisa que 90% da humanidade daria um dedo pra não precisar fazer nunca. Ficar na base da associação automática pré-codificada é algo muito mais fácil. E o protorraciocínio que se associa à hora do planeta é: "Apagar a luz economiza energia. Então a Hora do Planeta é pra economizar energia. Ah, Fulano apagou a luz, mas ficou com a TV ligada, grande economia de energia". No ano passado, no dia seguinte à Hora do Planeta (da qual eu participei, ano passado e hoje), fui pesquisar pra saber quantas pessoas tinham aderido, qual tinha sido a extensão do movimento, e tudo o que encontrei na seção de perguntas e repostas da WWF foi uma pá de gente querendo saber quanta energia foi economizada. Porca miséria, uma coisa não tem nada a ver com outra! Tá certo que desligar a luz economiza energia, e que isso é ecológico, mas o objetivo da manifestação não é economizar energia, cáspita! Parece aquela idéia de que se todo mundo der descarga ao mesmo tempo, o esgoto pode explodir. Será que essas mesmas pessoas participariam de uma "Hora da Descarga", só pra ver quanta água limpa seria jogada no esgoto?

E abraçados com a galera da descarga, vem aquele povo que não tem nem idéia do que é o aquecimento global, que não mudaria em nada o seu estilo de vida, e que apaga a luz achando que economizou energia o suficiente para o ano todo, e fez a sua parte para salvar o planeta. E que no dia seguinte iria pra rua fazer barricada e tocar fogo em pneu se soubesse que o governo vai aumentar o imposto sobre o petróleo como medida pra reduzir a queima de combustíveis fósseis.

Esse cara é o pior tipo de todos: é aquele que espera que salvem o planeta, mas que não abre mão do direito de destruí-lo.

4 comentários:

F disse...

acho que barricada, esses ai nao fazem nao, da muito trabalho....

DomeniK Lupin (Lobo) disse...

Olá amigo,
você postou um comentário em meu blog falando que o lance das garrafas novas da coca cola não eram oficiais e sim um projeto de um estudante...
comentei com o pessoal que me deu a noticia e disseram pra mandar esse link pra ti.
é do site da coca cola, falando justamente sobre as novas garrafas...

http://www.thecoca-colacompany.com/citizenship/plantbottle.html

ps.: pra ser honesto, o site não me convenceu. ele fala dos mesmo materiais mas não do mesmo designer, que é o charme da coisas, na minha opnião...
de qualquer forma.
enjoy

Diogo de Lima disse...

Pra quem quiser saber do que o comentário acima está falando, confira em http://www.oescafandro.com.br/2010/03/29/coca-cola-verde/

É, com relação ao plástico eu estava sabendo (veja http://www.envolverde.com.br/materia.php?cod=71744), talvez tenha sido isso que tenha originado a lenda. Ainda assim, o "novo plástico" da coca tem apenas 30% de componentes vegetais, não 100% como era a sugestão do guri (esse Andrew Kim tem 18 anos), e não envolve nenhuma revolução no redesign das garrafas (uma mudançazinha aqui outra ali).

EFGoyaz disse...

Ah que bom seria se esse povo que faz "associação automática pré-codificada" fosse só nesse assunto...
Nesse ponto, acho muito melhor a pessoa que não-está-nem-aí-foda-se-tudo, do que a que se acha suficientemente esclarecida e que nada nunca vai adiantar nada e que todos nós somos hipócritas porque usamos internet e tomamos banho de chuveiro quente.
Gostei muito do seu post (pra variar). Foi até um "desabafo" ler essas coisas aqui.

 
BlogBlogs.Com.Br