13 de março de 2010

História Insólita #2 - parte 2


Um dia, Leda pensou que estava pronta para estrear o biquíni. Infelizmente, naquela tarde o sol havia - com certeza, deliberadamente - se escondido atrás de ameaçadoras nuvens de chuva, e Leda, pacientemente, preferiu guardar seu trunfo para uma ocasião mais propícia. Chegando ao calçadão, não encontrou Renato... sozinho. Ele estava correndo com outra mulher, de cabelos muito pretos, mais bonita e aparentemente mais jovem que ela. Leda não era mulher de desistir assim tão fácil, e correu para alcançá-los. Ao vê-la, Renato nem se sobressaltou.

- Oi, Leda! Essa aqui é a Berenice, uma amiga minha, eu disse a ela que corria aqui, e ela vai começar a correr conosco todo dia, não é fantástico?

Renato corria mais devagar para acompanhar Berenice, e Leda gostou tão pouco disso quanto Berenice não gostou de ter sido chamada de amiga. Saíam faíscas dos olhares trocados entre as duas.

Aquele dia foi um pesadelo. Leda não sabia se concentrava seus esforços em impressionar Renato ou em se livrar da rival. Ela levava vantagem por estar mais em forma e puxava o passo, tentando fazer a inimiga engolir poeira. Renato tentava acertar o passo com Berenice, para ser gentil, mas de quando em vez corria mais, não dava pra ir tão devagar quanto a amiga novata.

No fim da corrida, Renato deu uma desculpa e não fez companhia nem a uma e nem a outra. Leda não ia aceitar essa situação: ligou correndo para sua melhor amiga, Júlia, e marcou encontro ali na choperia do calçadão. Contou sobre Renato, como tinham se conhecido e como ela estava perdidamente apaixonada por ele, queria casar, ter filhos, ele era o homem certo, ela sabia. Contou da dieta, do pneuzinho, do sacrifício todo e agora, essa rival.

Julia conhecia bem a amiga e sabia que se não fosse Renato, seria Pedro, Leandro, Henrique. Ela sabia que Leda se apaixonava muito facilmente - era melhor falar a verdade, por mais que doesse, agora no começo, mesmo que a amiga se chateasse, Julia sabia, que assim como as paixões anteriores, essa ia passar. E foi logo contando: "Olha, Leda, ele é mesmo um cara legal, interessante, mas..." Nesse momento, passou uma banda do coreto da cidade e o som ensurdecedor de tambores e pandeiros não me permitiram compreender o que foi dito. Deve ter sido uma acusação terrível, posso dizer, pela cara que Leda fez. Eu não tenho idéia do que foi dito e nem posso calcular se isso envolvia ou não a nova amiga de Renato, ou se era algo pior - porque Leda estava se abanando agora – ou algo ainda pior, muito pior que o pior que eu imaginei – porque a essa altura ela desmaiou.

Mas o que pareceu foi que Júlia sabia de algo sobre Renato, ou Berenice, ou Leda, ou sobre ela mesma, e agora Leda também sabia. A reação de Leda foi digna de final de novela, como se Júlia tivesse contado a ela algo como... bem... como o final da novela.

Mas, à parte as vãs aliterações do autor, de posse dessa nova informação, Leda decidiu que o biquíni não podia esperar: seria estreado na tarde seguinte, fizesse chuva ou sol. "Pode até nevar, mas eu ponho esse biquíni nem que seja a última coisa que eu faça!", pensou ela. Leda não acreditou no dia seguinte, quando, naquela tarde de abril, os flocos de neve começaram a cair na frente da sua janela enquanto ela se preparava para sair.

Neve. Numa tarde de abril. Num país tropical. NO BRASIL! Ah não! Sacanagem do autor! Já ouvi falar em chuva de sapo. Já ouvi falar em chupacabra. Já ouvi falar em ET de Varginha... Ora, nevar é café pequeno perto disso tudo. E nesse dia nevou.

Que verdade era aquela, tão reveladora, que fez Leda desmaiar, que fez a neve nevar? E por último, mas não menos importante: que fez Leda saber que era a hora de estrear o biquíni. Leda pegou um biquíni amarelo-limão tipo fio-dental, ia destacar o bronzeado. Se olhou no espelho, nem sinal dos pneuzinhos, ela estava mesmo em forma, impecável. Passou maquiagem, escovou o cabelo, se olhou mais uma vez, pegou a saída de praia e foi pra Avenida Beiramar.

Não havia ninguém lá. Claro, como ela não pensara nisso antes? Nevando! NEVANDO, LEDA! Pensou consigo. Ia ser demais querer público pra seu biquíni amarelo-limão. Ela ficou ali parada um tempo sem saber o que fazer e o frio começou a incomodar. Leda pensou em desistir quando viu, do outro lado da ciclovia, também de biquíni, a novata, Berenice. Vermelho-batom, fio dental, asa-delta e tudo o mais que um biquíni podia ser.

Uma olhou pra outra e, sem trocar palavra, ficou entendido que era pra valer. Começaram a corrida, lado a lado, de biquíni, na neve da avenida. Não demorou para dar rádio, jornal e TV cobrindo tão extraordinário evento - a neve e, claro, aquelas duas de biquíni sob (e sobre) a neve na Beiramar. Juntou gente, e Leda pode ver a amiga Júlia acenando com um cachecolzinho pra aquecê-la, mas recusou: ia estragar o visual e, além do mais, se a inimiga não parava nem pra pegar fôlego, ela não pararia...

Leda pensava em Renato pra ganhar mais fôlego, tentava divisar ele na multidão, pensava se ele estava vendo e se esticava toda, empinava o peito e... corria mais. Berenice nem parecia a novata do dia anterior, devia ter escondido o jogo, pois corria como quem estava caminhando, sem se cansar.

Provavelmente essas duas estão correndo até hoje em seus sumários trajes. Sumiram do mapa e não se soube mais delas. A neve um dia parou, e as coisas voltaram ao que eram antes, ou quase. Havia um cara se acotovelando pra ver as garotas de biquíni na neve aquele dia, bem atrás de Júlia. Ela se virou pra reclamar por mais espaço e viu Renato. Eles conversaram e ele resolveu chamá-la para um sorvetinho (num dia de neve, pois é).

Eu realmente não sei o que Júlia inventou pra sua amiga, mas eu sei o que Renato falou pra ela aquele dia quando saíram da sorveteria: "Sem graça aquelas duas magrelas de biquíni. Eu gosto é de mulher com gordurinha, pneuzinho, como você, gata". Estão juntos até hoje.

3 comentários:

Diogo de Lima disse...

A história foi iniciada e finalizada pela Fabiana. Nessa segunda parte a gente já tinha desistido de fazer um parágrafo cada, e às vezes tem dois ou três em seuqência que são de um mesmo autor. Acho que dá pra perceber as trocas de pena durante a redação.

Enfim, espero que vcs achem tão divertido quanto eu achei ao escrever... Até me deu uma saudadinha do tempo do http://pablorobierto.blogspot.com/

Anônimo disse...

Aeeeee!!! Posta alguma coisa do Pablo Robierto!!! Esse é o melhor de todos!!!

Diogo de Lima disse...

Infelizmente, Pablo Robierto foi deportado do Rio de Janeiro de volta para Puérpera, onde está desde então planejando seu novo destino de imigração. Desta vez ele quer um local mais tolerante com os imigrantes... Estados Unidos, talvez...

 
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