9 de março de 2010

História Insólita #2 - parte 1

Já faz um tempo desde a História Insólita #1, mas eu nunca prometi que um número dois sairia, prometi? Enfim, baseando-se numa dinâmica bastante cohecida (Stella Carr e Ganymédes José já chegaram a escrever um livro inteiro assim), eu e minha esposa escrevemos essa historieta, através da técnica "cada um escreve um parágrafo e continua a história". Como a coisa estava divertida, o texto ficou longo - vou publicá-la em duas partes.

História Insólita #2

Leda resolveu que estava passando da hora de fazer academia. Havia tempo que um pneuzinho desagradável teimava em espiar por sobre a calca jeans. Coisa à toa, mas ela olhava com aquele olho de lente de aumento e pra ela parecia uma fatia de bacon, bem gorda. Aliás, tinha até aumentado, pensando bem.

Como em todos os casos clássicos de procrastinação, Leda passou três semanas escolhendo o local que seria o seu templo de culto ao próprio corpo. Não podia ser qualquer academia. Uma das visitadas (e logo rejeitadas) possuía espelhos em todas as superfícies planas disponíveis. Depois de perceber isso, as 24 pessoas que pareciam estar malhando todas iguais e lotando a academia, se tornaram apenas seis: duas senhoras na esteira (cada uma em uma, obviamente), gritando para que os comentários sobre a novela das seis pudessem ser ouvidos sobre a ensurdecedora música eletrônica que inundava o ambiente; três moças (duas magras, uma gordinha) nas bicicletas ergométricas e um rapaz que a cada três levantamentos de peso parava o exercício e fazia uma pequena pose na frente de um dos espelhos. Outra academia, uma academia apenas para mulheres, não tinha espelho em lugar algum, e o som ambiente era uma música calma e agradável. Dizia a moça que lhe apresentou o lugar que a intenção era fazer com que as frequentadoras se sentissem à vontade. Essa também foi imediatamente rejeitada: Leda não se sentia, e nem queria se sentir confortável com aqueles indesejados pneuzinhos. No fim de duas semanas, com o peso do atraso na consciência, ela finalmente escolheu.

Escolheu correr. Iria correr todo dia, na avenida perto de casa. Academia era mesmo uma coisa muito cara, muito cheia de espelho, muito barulhenta. A avenida era de graça e o melhor, haveria muita oportunidade pra conhecer homens interessantes correndo ou pedalando na ciclovia. E foi assim que Leda conheceu Renato, um cara de tipo atlético, desses que correm todo dia na mesma avenida e encontram uma mulher razoavelmente atraente e dizem "E então, você é nova por aqui?". Pois foi isso mesmo o que ele perguntou.

Foram correndo e conversando muito ao longo do caminho. Ele, evidentemente segurando o passo para acompanhar a novata, falava muito mais que ela, afinal de contas Leda estava muito preocupada em não fazer feio na frente do cara bonitão e guardou todo o fôlego que podia. Ao se separarem, ela já sabia quase tudo dobre ele: Renato era fã de Coldplay, Muse, música eletrônica, assistia Grey's Anatomy e 90210 toda semana, e seu livro preferido era Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus. Em resumo, tudo levava a crer que Renato era gay.

Agora você deve estar pensando: "Ora, a nossa protagonista mal conhece esse cara, ela pode muito bem paquerar outro amanhã e ter mais sorte." Não, não pode.
Detesto ter que desapontá-lo, leitor, mas a verdade é que Leda era dessas pessoas que se apaixonam muito fácil, sem que o alvo de seus descuidados sentimentos tenha que fazer muito esforço para que essa afeição imediata possa se justificar. Se alguém acha que forcei a barra demais, fique sabendo que essas pessoas existem, eu mesma tenho dois (viu só? dois!) amigos assim.
E como eu ia dizendo, Leda não poderia tirar Renato de sua cabeça. Ele já tinha ganhado a moca quando sorriu e disse que era fã de Coldplay e ela já estava pensando em casamento e filhos quando Renato resumiu seu livro favorito.

Além disso, Leda não viu nada demais nos gostos e atitudes de Renato, a não ser o fato de que iria ter alguém para assistir com ela às suas séries favoritas. Mesmo com dor nas pernas após o primeiro dia de exercícios, ela voltou no dia seguinte, no mesmo horário e não descansou a vista até que conseguiu localizar Renato entre a pequena massa de gente caminhando e correndo na Avenida Beiramar. Como isto na verdade pode induzí-lo, leitor, a uma conclusão errada, faz-se necessário um pequeno parêntese: a cidade de Leda não era uma cidade litorânea, e na verdade ficava num lugar bastante longe da praia. A Avenida Beiramar fora batizada em homenagem ao fundador da cidade, Rufino Beiramar. Mas isso não parecia ter qualquer influência no comportamento dos seus frequentadores, já que todos agiam como se estivessem na orla da praia - não raro, encontravam-se até mesmo pessoas de biquíni caminhando no calçadão da avenida.

De biquíni?? Sim, de biquíni. Hum... não era má idéia, Leda pensou. Assim que se livrasse dos terríveis pneuzinhos (aqueles, do primeiro parágrafo) iria sim chegar um dia, poderosa, de biquíni. Ela tinha certeza que Renato não ia resistir.

Leda passou a levar a coisa a sério. Agora corria todo dia, encontrava Renato, a amizade evoluía. Mas por alguma razão a coisa não esquentava. Nem um convitinho pra um sorvete! Ela tinha certeza que a triunfante chegada de biquíni seria decisiva para o tal do Renato perceber que ela era uma mulher atraente.
Já havia quase um mês desde o primeiro dia que Leda tinha começado a correr. Para garantir o fim da gordurinha teimosa, ela já estava apelando pra aquela prateleira desagradável que há nos supermercados, abarrotada de produtos light, diet e simpatizantes, que, como todos sabemos, custam muito, saciam bem pouco e não tem gosto de nada. Mas agora, ela iria até o Finn (essa crônica não é patrocinada por nenhum adoçante, eu é que não resisti ao trocadilho barato).

Leda pensava no biquíni, comia menos, corria mais... pensava no Renato sorrindo jogando a cabeça pra trás, daquele jeito meigo que ela gostava... e  ficava feliz.

CONTINUA...

Um comentário:

Anônimo disse...

Gostei. Quero ver o fim dessa história, que espero não vire novela, senão não poderei acompanhar até o final. Inté!

Magali

 
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