28 de março de 2010

A Hora do Planeta e a Dificuldade das Pessoas em Entender o Real Significado das Coisas

É, post com nome imenso.

Hoje (na verdade foi ontem, mas como eu não dormi, ainda é hoje pra mim, tá?) tivemos mais uma edição da hora do planeta. Pra quem não sabe o que é isso, a Hora do Planeta é um iniciativa da ONG WWF que ocorre um vez por ano. Como ato simbólico, pessoas e cidades devem apagar as luzes durante uma hora em um dia marcado pela entidade, como uma manifestação de apoio às ações que visam o desenvolvimento sustentável e o controle do aquecimento global.

Basicamente, a idéia é a seguinte: desligando as luzes da sua casa (ou, no caso de uma prefeitura, deligando a iluminação de monumentos, ou uma empresa desligando a iluminação da fachada, etc), você está dando um recado: "Sim, eu me importo com o aquecimento global. Eu quero fazer algo para ajudar. Eu encaro mudar o meu estilo de vida e fazer um esforcinho, tomando atitudes ambientalmente responsáveis". A lógica é que se você se dá ao trabalho de desligar as luzes da sua casa, e se submete ao incômodo de ficar uma hora no escuro, você também se daria ao trabalho de pesquisar no supermercado e escolher produtos mais ambientalmente responsáveis, e se submeteria ao incômodo de reduzir o consumo de carne para diminuir a emissão de gases que contribuem para o efeito estufa, por exemplo.

E mais: se você se priva de algo voluntariamente por uma causa, você manifesta seu apoio à medidas que podem fazer com que você seja obrigado a se privar de algumas coisas, em benefício dessa mesma causa. Em resumo, a Hora do Planeta é uma ação puramente simbólica, que demonstra o comprometimento e preocupação do participante com relação à mudança climática. Como resultado, espera-se que as empresas vejam que muita gente se importa com isso, e passem a priorizar práticas menos nocivas ao meio ambiente, até como forma de publicidade. Espera-se que os governos vejam que medidas restritivas pelo bem do planeta não são tão impopulares como muita gente pensa. E espera-se que as pessoas vejam que pequenas ações individuais podem fazer diferença quando colocadas lado a lado com milhões de outras pessoas fazendo a mesma coisa.

Mas aí vem sempre aquele pequeno problema: pra você compreender o significado de uma ação simbólica, é preciso pensar um pouco. E pensar é um coisa que 90% da humanidade daria um dedo pra não precisar fazer nunca. Ficar na base da associação automática pré-codificada é algo muito mais fácil. E o protorraciocínio que se associa à hora do planeta é: "Apagar a luz economiza energia. Então a Hora do Planeta é pra economizar energia. Ah, Fulano apagou a luz, mas ficou com a TV ligada, grande economia de energia". No ano passado, no dia seguinte à Hora do Planeta (da qual eu participei, ano passado e hoje), fui pesquisar pra saber quantas pessoas tinham aderido, qual tinha sido a extensão do movimento, e tudo o que encontrei na seção de perguntas e repostas da WWF foi uma pá de gente querendo saber quanta energia foi economizada. Porca miséria, uma coisa não tem nada a ver com outra! Tá certo que desligar a luz economiza energia, e que isso é ecológico, mas o objetivo da manifestação não é economizar energia, cáspita! Parece aquela idéia de que se todo mundo der descarga ao mesmo tempo, o esgoto pode explodir. Será que essas mesmas pessoas participariam de uma "Hora da Descarga", só pra ver quanta água limpa seria jogada no esgoto?

E abraçados com a galera da descarga, vem aquele povo que não tem nem idéia do que é o aquecimento global, que não mudaria em nada o seu estilo de vida, e que apaga a luz achando que economizou energia o suficiente para o ano todo, e fez a sua parte para salvar o planeta. E que no dia seguinte iria pra rua fazer barricada e tocar fogo em pneu se soubesse que o governo vai aumentar o imposto sobre o petróleo como medida pra reduzir a queima de combustíveis fósseis.

Esse cara é o pior tipo de todos: é aquele que espera que salvem o planeta, mas que não abre mão do direito de destruí-lo.

26 de março de 2010

Segura as pontas...

...que o trabalho tá apurado! Vida de freelancer é fogo...

13 de março de 2010

História Insólita #2 - parte 2


Um dia, Leda pensou que estava pronta para estrear o biquíni. Infelizmente, naquela tarde o sol havia - com certeza, deliberadamente - se escondido atrás de ameaçadoras nuvens de chuva, e Leda, pacientemente, preferiu guardar seu trunfo para uma ocasião mais propícia. Chegando ao calçadão, não encontrou Renato... sozinho. Ele estava correndo com outra mulher, de cabelos muito pretos, mais bonita e aparentemente mais jovem que ela. Leda não era mulher de desistir assim tão fácil, e correu para alcançá-los. Ao vê-la, Renato nem se sobressaltou.

- Oi, Leda! Essa aqui é a Berenice, uma amiga minha, eu disse a ela que corria aqui, e ela vai começar a correr conosco todo dia, não é fantástico?

Renato corria mais devagar para acompanhar Berenice, e Leda gostou tão pouco disso quanto Berenice não gostou de ter sido chamada de amiga. Saíam faíscas dos olhares trocados entre as duas.

Aquele dia foi um pesadelo. Leda não sabia se concentrava seus esforços em impressionar Renato ou em se livrar da rival. Ela levava vantagem por estar mais em forma e puxava o passo, tentando fazer a inimiga engolir poeira. Renato tentava acertar o passo com Berenice, para ser gentil, mas de quando em vez corria mais, não dava pra ir tão devagar quanto a amiga novata.

No fim da corrida, Renato deu uma desculpa e não fez companhia nem a uma e nem a outra. Leda não ia aceitar essa situação: ligou correndo para sua melhor amiga, Júlia, e marcou encontro ali na choperia do calçadão. Contou sobre Renato, como tinham se conhecido e como ela estava perdidamente apaixonada por ele, queria casar, ter filhos, ele era o homem certo, ela sabia. Contou da dieta, do pneuzinho, do sacrifício todo e agora, essa rival.

Julia conhecia bem a amiga e sabia que se não fosse Renato, seria Pedro, Leandro, Henrique. Ela sabia que Leda se apaixonava muito facilmente - era melhor falar a verdade, por mais que doesse, agora no começo, mesmo que a amiga se chateasse, Julia sabia, que assim como as paixões anteriores, essa ia passar. E foi logo contando: "Olha, Leda, ele é mesmo um cara legal, interessante, mas..." Nesse momento, passou uma banda do coreto da cidade e o som ensurdecedor de tambores e pandeiros não me permitiram compreender o que foi dito. Deve ter sido uma acusação terrível, posso dizer, pela cara que Leda fez. Eu não tenho idéia do que foi dito e nem posso calcular se isso envolvia ou não a nova amiga de Renato, ou se era algo pior - porque Leda estava se abanando agora – ou algo ainda pior, muito pior que o pior que eu imaginei – porque a essa altura ela desmaiou.

Mas o que pareceu foi que Júlia sabia de algo sobre Renato, ou Berenice, ou Leda, ou sobre ela mesma, e agora Leda também sabia. A reação de Leda foi digna de final de novela, como se Júlia tivesse contado a ela algo como... bem... como o final da novela.

Mas, à parte as vãs aliterações do autor, de posse dessa nova informação, Leda decidiu que o biquíni não podia esperar: seria estreado na tarde seguinte, fizesse chuva ou sol. "Pode até nevar, mas eu ponho esse biquíni nem que seja a última coisa que eu faça!", pensou ela. Leda não acreditou no dia seguinte, quando, naquela tarde de abril, os flocos de neve começaram a cair na frente da sua janela enquanto ela se preparava para sair.

Neve. Numa tarde de abril. Num país tropical. NO BRASIL! Ah não! Sacanagem do autor! Já ouvi falar em chuva de sapo. Já ouvi falar em chupacabra. Já ouvi falar em ET de Varginha... Ora, nevar é café pequeno perto disso tudo. E nesse dia nevou.

Que verdade era aquela, tão reveladora, que fez Leda desmaiar, que fez a neve nevar? E por último, mas não menos importante: que fez Leda saber que era a hora de estrear o biquíni. Leda pegou um biquíni amarelo-limão tipo fio-dental, ia destacar o bronzeado. Se olhou no espelho, nem sinal dos pneuzinhos, ela estava mesmo em forma, impecável. Passou maquiagem, escovou o cabelo, se olhou mais uma vez, pegou a saída de praia e foi pra Avenida Beiramar.

Não havia ninguém lá. Claro, como ela não pensara nisso antes? Nevando! NEVANDO, LEDA! Pensou consigo. Ia ser demais querer público pra seu biquíni amarelo-limão. Ela ficou ali parada um tempo sem saber o que fazer e o frio começou a incomodar. Leda pensou em desistir quando viu, do outro lado da ciclovia, também de biquíni, a novata, Berenice. Vermelho-batom, fio dental, asa-delta e tudo o mais que um biquíni podia ser.

Uma olhou pra outra e, sem trocar palavra, ficou entendido que era pra valer. Começaram a corrida, lado a lado, de biquíni, na neve da avenida. Não demorou para dar rádio, jornal e TV cobrindo tão extraordinário evento - a neve e, claro, aquelas duas de biquíni sob (e sobre) a neve na Beiramar. Juntou gente, e Leda pode ver a amiga Júlia acenando com um cachecolzinho pra aquecê-la, mas recusou: ia estragar o visual e, além do mais, se a inimiga não parava nem pra pegar fôlego, ela não pararia...

Leda pensava em Renato pra ganhar mais fôlego, tentava divisar ele na multidão, pensava se ele estava vendo e se esticava toda, empinava o peito e... corria mais. Berenice nem parecia a novata do dia anterior, devia ter escondido o jogo, pois corria como quem estava caminhando, sem se cansar.

Provavelmente essas duas estão correndo até hoje em seus sumários trajes. Sumiram do mapa e não se soube mais delas. A neve um dia parou, e as coisas voltaram ao que eram antes, ou quase. Havia um cara se acotovelando pra ver as garotas de biquíni na neve aquele dia, bem atrás de Júlia. Ela se virou pra reclamar por mais espaço e viu Renato. Eles conversaram e ele resolveu chamá-la para um sorvetinho (num dia de neve, pois é).

Eu realmente não sei o que Júlia inventou pra sua amiga, mas eu sei o que Renato falou pra ela aquele dia quando saíram da sorveteria: "Sem graça aquelas duas magrelas de biquíni. Eu gosto é de mulher com gordurinha, pneuzinho, como você, gata". Estão juntos até hoje.

12 de março de 2010

Pérolas do Jornalismo da Globo

Eu já disse que não teria como trabalhar numa emissora de televisão por não ter o desprendimento de falar de coisas importantes (ou nem tão importantes) como um retardado.

Outro dia, assistindo o Jornal Hoje (o jornal mais imbecil da programação da Globo), a moça do tempo teve uma sacada genial: anunciando que a umidade do ar no sertão nordestino estava em 20%, quando o ideal seria no mínimo 60%, alertou que as pessoas podem ter problemas respiratórios por causa do ar muito seco. "Por isso", disse ela, "é sempre bom avisar: bebam bastante líquido". Mas que idéia genial!!! E eu que achava que o problema da seca no nordeste era justamente a falta de água! Eu jamais conseguiria pensar numa solução tão simples.

Hoje de manhã, apresentando o Bom Dia Brasil, o Renato Machado começou a dar uma notícia sobre a diminuição da expectativa de vida das próximas gerações, devido à obesidade, deste jeito: "E olha só: vejam como é importante esse aviso da Organização Mundial da Saúde...". Dica para a Rede Globo: quando quiserem economizar com salários de âncoras de telejornal, podem contratar uma manicure no lugar. "Menina, você viu o que a OMS falou outro dia? Que os menino tudo vai morrê mais novo que nóis!"

Eu sempre acabo me lembrando de um dia, na GloboNews, em que os apresentadores estavam explicando o Muro de Berlim deste jeito: "Olha, eu tenho as minhas idéias, você tem as suas... vamos construir um muro?" (Aparece a animação de um muro subindo entre os dois) "Pronto. Foi isso que aconteceu na Alemanha em mil novecentos e..." Eu entendo que a falta de cultura geral das pessoas seja grave, mas colocar os apresentadores falando como se estivessem lendo Rapuzel pra crianças de 5 anos é exagero.

E pra finalizar, um pequeno humor negro off-topic: vi no jornal que hoje o cartunista Glauco morreu assassinado. Viu só o que dá ficar fazendo tirinha sem graça?

As Armadilhas da Tecnologia

Só uma pequena observação: parece que tem coisas que o computador faz de propósito, só pra te sacanear. Hoje de manhã a internet estava fora do ar, e o meu modem estava piscando com uma luz verde (o normal é azul). Depois de esperar um tempo, pra ver se voltava, resolvi ligar no helpdesk da Claro pra ver o que estava acontecendo. E também já perdi mais um tempo procurando o telefone de contato da bendita operadora. E também enrolei um pouco, porque acho um saco ficar falando com máquina e gente que parece máquina. E enquanto isso o modem aqui na minha frente, piscando verde.

Quando finalmente liguei lá, depois de três horas de luzinha verde desde que eu acordei, errei a primeira ligação, tive de ligar de novo, digitar número de telefone, dar número de CPF, até que consegui falar com o atendente pra ter essa conversa aqui:

- Claro-Banda-Larga-Fátima-Bom-Dia-Com-Quem-Eu-Falo?
- Oi, meu nome é Diogo, eu estou com um proble... - e a luz verdinha piscando...
- Desculpe-senhor-não-entendi-o-seu-nome.
- É Diogo - luz verde continua.
- Em-que-posso-ajudá-lo?
- O meu modem está...

Não cheguei a terminar a frase, porque no mesmo momento, o sem-vergonha do modem começou a piscar com a luzinha azul habitual e indicar o sinal. Agradeci à mulher, por educação, porque na verdade ela não teve tempo de fazer nada, e desliguei. A conexão estava normal.

Não sei o que aconteceu, mas acho que o modem ouviu que eu ia dedurar ele pros chefes e resolveu parar de fazer corpo mole...

9 de março de 2010

História Insólita #2 - parte 1

Já faz um tempo desde a História Insólita #1, mas eu nunca prometi que um número dois sairia, prometi? Enfim, baseando-se numa dinâmica bastante cohecida (Stella Carr e Ganymédes José já chegaram a escrever um livro inteiro assim), eu e minha esposa escrevemos essa historieta, através da técnica "cada um escreve um parágrafo e continua a história". Como a coisa estava divertida, o texto ficou longo - vou publicá-la em duas partes.

História Insólita #2

Leda resolveu que estava passando da hora de fazer academia. Havia tempo que um pneuzinho desagradável teimava em espiar por sobre a calca jeans. Coisa à toa, mas ela olhava com aquele olho de lente de aumento e pra ela parecia uma fatia de bacon, bem gorda. Aliás, tinha até aumentado, pensando bem.

Como em todos os casos clássicos de procrastinação, Leda passou três semanas escolhendo o local que seria o seu templo de culto ao próprio corpo. Não podia ser qualquer academia. Uma das visitadas (e logo rejeitadas) possuía espelhos em todas as superfícies planas disponíveis. Depois de perceber isso, as 24 pessoas que pareciam estar malhando todas iguais e lotando a academia, se tornaram apenas seis: duas senhoras na esteira (cada uma em uma, obviamente), gritando para que os comentários sobre a novela das seis pudessem ser ouvidos sobre a ensurdecedora música eletrônica que inundava o ambiente; três moças (duas magras, uma gordinha) nas bicicletas ergométricas e um rapaz que a cada três levantamentos de peso parava o exercício e fazia uma pequena pose na frente de um dos espelhos. Outra academia, uma academia apenas para mulheres, não tinha espelho em lugar algum, e o som ambiente era uma música calma e agradável. Dizia a moça que lhe apresentou o lugar que a intenção era fazer com que as frequentadoras se sentissem à vontade. Essa também foi imediatamente rejeitada: Leda não se sentia, e nem queria se sentir confortável com aqueles indesejados pneuzinhos. No fim de duas semanas, com o peso do atraso na consciência, ela finalmente escolheu.

Escolheu correr. Iria correr todo dia, na avenida perto de casa. Academia era mesmo uma coisa muito cara, muito cheia de espelho, muito barulhenta. A avenida era de graça e o melhor, haveria muita oportunidade pra conhecer homens interessantes correndo ou pedalando na ciclovia. E foi assim que Leda conheceu Renato, um cara de tipo atlético, desses que correm todo dia na mesma avenida e encontram uma mulher razoavelmente atraente e dizem "E então, você é nova por aqui?". Pois foi isso mesmo o que ele perguntou.

Foram correndo e conversando muito ao longo do caminho. Ele, evidentemente segurando o passo para acompanhar a novata, falava muito mais que ela, afinal de contas Leda estava muito preocupada em não fazer feio na frente do cara bonitão e guardou todo o fôlego que podia. Ao se separarem, ela já sabia quase tudo dobre ele: Renato era fã de Coldplay, Muse, música eletrônica, assistia Grey's Anatomy e 90210 toda semana, e seu livro preferido era Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus. Em resumo, tudo levava a crer que Renato era gay.

Agora você deve estar pensando: "Ora, a nossa protagonista mal conhece esse cara, ela pode muito bem paquerar outro amanhã e ter mais sorte." Não, não pode.
Detesto ter que desapontá-lo, leitor, mas a verdade é que Leda era dessas pessoas que se apaixonam muito fácil, sem que o alvo de seus descuidados sentimentos tenha que fazer muito esforço para que essa afeição imediata possa se justificar. Se alguém acha que forcei a barra demais, fique sabendo que essas pessoas existem, eu mesma tenho dois (viu só? dois!) amigos assim.
E como eu ia dizendo, Leda não poderia tirar Renato de sua cabeça. Ele já tinha ganhado a moca quando sorriu e disse que era fã de Coldplay e ela já estava pensando em casamento e filhos quando Renato resumiu seu livro favorito.

Além disso, Leda não viu nada demais nos gostos e atitudes de Renato, a não ser o fato de que iria ter alguém para assistir com ela às suas séries favoritas. Mesmo com dor nas pernas após o primeiro dia de exercícios, ela voltou no dia seguinte, no mesmo horário e não descansou a vista até que conseguiu localizar Renato entre a pequena massa de gente caminhando e correndo na Avenida Beiramar. Como isto na verdade pode induzí-lo, leitor, a uma conclusão errada, faz-se necessário um pequeno parêntese: a cidade de Leda não era uma cidade litorânea, e na verdade ficava num lugar bastante longe da praia. A Avenida Beiramar fora batizada em homenagem ao fundador da cidade, Rufino Beiramar. Mas isso não parecia ter qualquer influência no comportamento dos seus frequentadores, já que todos agiam como se estivessem na orla da praia - não raro, encontravam-se até mesmo pessoas de biquíni caminhando no calçadão da avenida.

De biquíni?? Sim, de biquíni. Hum... não era má idéia, Leda pensou. Assim que se livrasse dos terríveis pneuzinhos (aqueles, do primeiro parágrafo) iria sim chegar um dia, poderosa, de biquíni. Ela tinha certeza que Renato não ia resistir.

Leda passou a levar a coisa a sério. Agora corria todo dia, encontrava Renato, a amizade evoluía. Mas por alguma razão a coisa não esquentava. Nem um convitinho pra um sorvete! Ela tinha certeza que a triunfante chegada de biquíni seria decisiva para o tal do Renato perceber que ela era uma mulher atraente.
Já havia quase um mês desde o primeiro dia que Leda tinha começado a correr. Para garantir o fim da gordurinha teimosa, ela já estava apelando pra aquela prateleira desagradável que há nos supermercados, abarrotada de produtos light, diet e simpatizantes, que, como todos sabemos, custam muito, saciam bem pouco e não tem gosto de nada. Mas agora, ela iria até o Finn (essa crônica não é patrocinada por nenhum adoçante, eu é que não resisti ao trocadilho barato).

Leda pensava no biquíni, comia menos, corria mais... pensava no Renato sorrindo jogando a cabeça pra trás, daquele jeito meigo que ela gostava... e  ficava feliz.

CONTINUA...

6 de março de 2010

Pudores Improváveis

Eu tenho que comentar isso antes que o carnaval já fique longe demais. Na verdade já está, e o que eu vou comentar não tem tanto a ver com o carnaval, embora o use como pano de fundo. Pois bem, o fato é (ou foi): outro dia eu vi no mercado uma revista, dessas revistas populares de fofoca, Contigo, Minha Novela ou qualquer porcaria do gênero. A supracitada publicação de qualidade duvidosa trazia, em um pedaço da capa, fotos de rainhas-da-bateria, com um título do tipo "veja quem arrasou na avenida em 2009". Algo assim.

Entre as fotos de quatro ou cinco mulheres fantasiadas com biquínis minúsculos, havia uma que era algo como a foto abaixo:

E aí eu me pergunto: que raios tem a ver cortar o mamilo da foto? Eu juro que não estou tentando dar uma de malandro, "libera o mamilinho aí pra nóis, mano", ou coisa do tipo. Eu só estou tentando entender que tipo de moral torpe é essa. "A mama e a auréola pode mostrar, mas o bico do peito não, aí já é indecência!", imagino o editor dizendo...

É a mesma classe de argumento que leva as pessoas a dizer coisas como "fumei, mas não traguei". "Foi sexo oral, não foi sexo". "Comi mas não gozei". E daí pra frente. Mas o pior nesse caso é a revista censurar o bico do peito da moça depois de ela já ter aparecido em rede nacional com o peito todo de fora! Tipo, já foi, amigo! Além de carnaval já ser uma baita de um contra-senso: durante quatro dias no ano, você pode fazer o que quiser, ninguém é de ninguém, porque é carnaval, mas no resto do ano não. Eu sei que eu estou parecendo uma tia velha aqui, mas a minha opinião é justamente o contrário. Ok, eu acho carnaval um saco, mas se a pessoa gosta de uma libertinagem, que seja libertino o ano todo, em vez de ficar se reprimindo esperando uma festa que nem tem mais sentido. Ou alguém aí fica mesmo sem comer carne durante toda a quaresma?

É inegável o fato de que moral é algo muito pessoal, mas existem coisas que podem ser postas na mesma escala. Se deixou metade do mamilo aparecendo, que sentido há em esconder o bico? Aposto que muita gente ia me chamar de louco se eu resolvesse que mostrar a mama direita é indecente, mas a esquerda é ok - e não ia ser muito diferente disso.

Mas o ser humano é assim mesmo, né? O tabu é sempre mais forte que o argumento, e se o tabu é muito inconveniente, a gente dá um jeito de contorná-lo. Algumas religiões proíbem comer sangue, porque a bíblia diz que não se deve comer "carne com sangue". Mas como deixar de comer carne é muito difícil para a maior parte das pessoas, resolveram facilitar a vida do pessoal e transformar a proibição em comer sangue apenas. Aí tem crente por aí que se esbalda no bifão pingando sangue, mas não come chouriço nem que seja obrigado. Alô, a proibição não era "carne com sangue"? E aí, pode comer a carne, mas tem que jogar o sangue fora? "Sangue é vida, por isso, deve ir pro lixo". É, ok, faz sentido. Ao menos para os matadouros isso faz todo o sentido.

O que me lembra de outro caso de pudor sem sentido. Durante as olimpíadas de Pequim, os restaurantes chineses foram proibidos de servir carne de cachorro para não ofender os ocidentais. Muitos não respeitaram. A UOL publicou uma reportagem que descrevia a busca de um repórter para experimentar a carne de cachorro, e o público reagiu indignado. Ora essa, eu sou vegetariano e não apóio o consumo de carne em nenhuma circunstância. Até uso como argumento, às vezes, quando já estou de saco cheio, a pergunta "você comeria o seu cachorro?". Afinal, são todos comestíveis, né? Eu não creio que tenhamos o direito de aprisionar e matar qualquer animal apenas pra satisfazer o nosso paladar, mas me baseio simplesmente nos pilares do respeito e da compaixão. Quem acreditar que nós não devemos isso aos animais, sinta-se à vontade para exterminar e devorar qualquer um. Por isso, eu acho uma baita babaquice dizer que matar cachorros é crueldade e vacas não. Alguém me apresenta um critério lógico de seleção?

"Mas cachorros têm personalidade, isso conta muito", certo, Jules?

Mas enfim, agora há pouco, na TV, estava passando um programa (Rodrigo Faro apresentando - que decadência, hein?) em que duas pessoas tentavam adivinhar se a pessoa na frente era mulher ou homem, entre várias mulheres e travestis. Quem acertava marcava pontos. Há pelo menos 30 anos o Faustão exibe todo domingo um quadro que mostra gente caindo, batendo a cara no poste ou tomando bolada no saco.  Quem não tem pudor de exibir ou de assistir isso, não devia ter pudor de mais nada.
 
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