20 de fevereiro de 2010

Lost e as Falácias da Física Quântica

Assim como milhões de pessoas ao redor do mundo, eu estou acompanhando a última temporada de Lost. Mas não vou falar de Lost aqui. Só disse isso porque, na tentativa de explicar e entender o que está acontecendo na série, muita gente apela para as teorias mais esdrúxulas envolvendo a física quântica.

Como se todo mundo entendesse de física quântica...

Antes de tudo, gostaria de esclarecer que o que eu sei de física quântica é mais ou menos o que a maior parte do público sabe, e, como pessoa razoavelmente inteligente que sou, sei também que saber o que eu sei é saber patavina sobre o assunto. Enfim, Lost agora está mostrando duas realidades paralelas que ocorreram após um evento (prometo que é só isso que vou falar da série aqui, já acabou), e para os pseudo-físicos de plantão, isso é um prato cheio para puxar duas teorias da física quântica: o Gato de Schrödinger e a Imortalidade Quântica.

Basicamente, existe uma interpretação da física quântica que, transportada para a realidade nossa de cada dia, leva a conclusões como: um gato, trancado numa caixa com um mecanismo quântico que pode aleatoriamente liberar ou não uma cápsula de gás venenoso, estará simultaneamente vivo e morto ao mesmo tempo, enquanto não verificarem o pobre bichano. Esse é o gato de Schrödinger. A outra interpretação da história diz que, na verdade, a cápsula liberou E não liberou o veneno ao mesmo tempo, e o universo se dividiu em duas realidades, e numa delas o gato está vivo, e permanecerá vivo a cada vez que tentarem matar ele desse jeito ridículo. Logo, o gato é imortal.

Essas histórias ficaram famosas mesmo entre os leigos ligeiramente interessados nesses mistérios da ciência. Eu não tenho dúvidas de que, aplicadas à física quântica por um físico, num experimento de física, essas teorias devem fazer sentido e serem extremamente úteis na sua área de estudo. O problema é quando as pessoas resolvem levar essas metáforas ao pé da letra e considerar essas coisas como sendo algo "cientificamente comprovado" (vocês já repararam no quanto essa expressão é freqüentemente mal utilizada?).

Caramba, até o autor da história do gato escreveu ela pra criticar a interpretação dada ao fenômeno físico, e mostrar como ela era absurda ao ser transplantada para o mundo macroscópico. Ainda assim, a história da imortalidade quântica está sendo utilizada para engambelar um bando de leigos como prova científica de que a alma é imortal.

Isso só prova que alguns fundamentos de uma ciência, quando aplicados à outras áreas, se mostram completamente absurdos. Prova também que alguns aspectos da nossa ciência estão tão relegados ao plano abstrato que não fazem sentido se aplicados à realidade. E prova também que tem gente trouxa que se deixa induzir por uma linha de argumentação qualquer, mesmo que o resultado não faça sentido.

Permita-me tentar enganá-lo, leitor. Se eu passasse a eternidade jogando cara-ou-coroa com uma lhama alterada geneticamente para lançar a moeda num ritmo constante, com uma força e precisão sempre aleatórias, as possibilidades de cada um ganhar em cada turno são de 50/50%, certo? De modo que, no decorrer da eternidade, tanto eu como a lhama teremos jogado infinitas vezes, e cada um terá ganhado infinitas vezes. Infinito menos infinito, uma coisa anula a outra, e assim, ficaremos empatados por toda a eternidade. Certo?

Não, errado! Porque é impossível permanecer empatado no cara-ou-coroa. Mesmo que momentaneamente estejamos empatados a lhama e eu, na próxima vez que alguém jogar a moeda, algum dos dois sairá vencedor, desempatando a partida infinita. Nesse jogo de empata e desempata, estaremos empatados apenas na metade do tempo. Na outra metade, alguém estará sempre ganhando. O raciocínio matemático de que "infinito + 1 = infinito" não funciona aqui. Mesmo que se tente argumentar que metade da eternidade ainda é uma eternidade, então a outra metade também o é, de modo que chegamos à conclusão de que nós não teremos uma eternidade, e sim duas eternidades, simplesmente pelo fato de estarmos jogando cara-ou-coroa.

E, convenhamos, além de nenhuma das duas conclusões fazer sentido, ficar pensando no resultado da disputa só tem o efeito de te impedir de fazer as perguntas que realmente importam: por que diabos alguém alteraria o DNA de uma lhama para jogar cara-ou-coroa, ou ainda por que eu gastaria a minha eternidade fazendo isso?

10 comentários:

O Pensador Inutil disse...
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F. disse...

eu quero jogar Perudo com uma doninha geneticamente modificada.
(sso eh uma piada interna, me desculpe, seus leitores nao vao compreender).

F. disse...

Eu quase sempre comento duas vezes, nao sei porque.
ainda sobre a lhama e as diversas aplicacoes e implicacoes da fisica quantica no nosso mundo macro, eu tambem acho que fazer a pergunta certa sempre eh o mais importante, mas tambem eh o mais dificil.

F. disse...
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Diogo de Lima disse...

Comentário deletado mediante solicitação... :)

Anônimo disse...

Que cachaça vc anda bebendo? Viajar nas ideias é bom, mas dessa vez beirou a loucura! huahuahauh

Ah, se vc pensar probabilisticamente (e uma partida de cara-ou-coroa infinita só tem sentido probabilisticamente), sim, o resultado final será empate.

Abraços, diego

Diogo de Lima disse...

Exatamente, é algo que só faz sentido como probabilidade... o grande problema é quando se tenta levar a probabilidade ao pé da letra, e é isso que andam fazendo por aí.

Kayanna disse...

cunhadooo, admiro mesmo teu blog, pela coesão e outros milhares de adjetivos que poderia acrescentar, mas nesse post eu meio que quebrei a cabeça para entender...(loira, maybe) mas cheguei a conclusão do diego, o resultado seria sempre empate...
ai, que confusão!

beijoooooo

EFGoyaz disse...

Não adianta, Diogo. Viu o que a escola e a matemática fazem com as pessoas? Se matemática fosse ensinada como ferramenta e não como verdade, aí sim seria diferente. Mas dá um trabalho...

Vaneska disse...

Hum, brilhante sua crítica, mas veja rs Lost é uma série de ficção baseada em uma teoria até então controvérsia como vc mesmo abordou.
É uma licença poética apenas, e as pessoas vão em busca da física/mecânica quantica para sanarem suas angústias. Pegue leve, até onde sei nenhuma verdade é absoluta

 
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