4 de fevereiro de 2010

Educação de Brasileiro

Cada vez mais eu penso que existe alguma falha, alguma rachadura na matriz com a qual nós, brasileiros, somos forjados. Essa semana, no mesmo dia, eu tive dois exemplos que corroboram com a teoria. E o que eu notei, mais especificamente, é que brasileiro não sabe diferenciar quando está sendo educado e quando está sendo grosseiro.

Eu já comentei sobre os casos de simpatia sufocante. Duas amigas minhas já tiveram problema com isso: todo dia encontravam um maluco no ônibus - não o tipo de maluco que é realmente doente, e que por isso ninguém chama de maluco; acho que o mais apropriado seria simplesmente dizer que o cara era sem noção, mas acho que ele estava um pouco além disso - que insistia e ficava louco porque elas não deixavam ele cumprimentá-las com um beijinho. O que nos leva também a pensar em outra mania de brasileiro, que é a de ficar encostando nos outros, abraçando e dando tapinhas nas costas de quem mal conhece - meu concunhado inglês passou maus bocados com isso esse verão.

Mas não é disso que eu vou falar aqui. Como eu disse antes, dois fatos me chamaram a atenção essa semana: o primeiro é que eu tive de andar no centro da cidade, pra levar umas coisas no correio, e já tinha me esquecido da quantidade de distribuidores de panfletos que insfestam as calçadas aqui em Uberlândia. Tinha no mínimo uns três por quadra, de cada lado da rua, cada um com um papelzinho diferente - desde os caras de havaiana e camisa do vasco distribuindo "Compro Ouro" ou "Dona Zilá faz Amarração para o Amor", até os de gravata oferecendo crédito na Fininvest ou que quer que seja.

Como é habitual para todos que já passaram por este tipo de local, três passos após o distribuidor de panfletos começavam a pipocar no chão aquele monte de panfletos recém apanhados. Alguns amassados, outros nem mereceram este tipo de atenção - nenhum esforço maior que abrir os dedos e deixar a gravidade fazer o seu trabalho foi empreendido. É impossível não se perguntar: "se vai jogar fora sem nem ler, porque essas pessoas pegam o panfleto?" Eu sei que tem muita gente que pega por curiosidade mesmo, mas a maior parte das pessoas, se questionada, dirá que ficou sem jeito de ignorar a pessoa que estava distribuindo; colocada a mesma explicação em outras palavras, as pessoas dizem que "pegaram por educação".

E isso me deixa completamente perdido, pois como uma pessoa pode ser "educada" o suficiente para não ignorar o panfleteiro, mas não é educada o suficiente pra não jogar lixo no chão? Eu, caso estejam se perguntando qual a minha postura, ignoro mesmo e sem dó. Eu acho que ainda é mais desejável cometer uma falta de educação contra um indivíduo que cometer uma contra a coletividade (minha segunda teoria sobre o Brasil - aqui se respeita muito mais o privado que o público. Apenas o que é privado tem dono. O que é público, em vez de ser de todos, é de ninguém, na visão do brasileiro. Mas isso é assunto para outro post). Lógico que ambas podem ser evitadas, eu poderia pegar os panfletos e não jogá-los na rua, mas além da quantidade de panfletos ser absurda, eu também me sinto ofendido no meu direito de andar pela rua sem ser abordado a cada 20 metros, então eu e o panfleteiro estamos quites. Além do mais, a idéia é que se ninguém pegar, ninguém vai tentar distribuir, as calçadas ficam mais limpas, menos cheias de gente, e todo aquele cenário bonito que só depende de cada um fazer a sua parte. Eu faço a minha, não fazendo nada, simplesmente ignorando o cara dos panfletos.

O outro fato é menos frequente, mas não é inédito, já vi acontecer algumas vezes. Depois de fazer o que tinha que fazer no correio, peguei o ônibus pra ir pra casa. No banco à minha frente, haviam duas mulheres que queriam ir a um hospital, mas não lembravam onde tinham de descer. Então, peguntaram para a senhora que estava do meu lado se ela sabia onde era. A senhora disse que sabia, que ia descer um ponto depois e que avisava elas quando fosse pra descer.

Problema resolvido, certo? Parece que não, porque, dois minutos depois, para a minha surpresa e da senhora do lado, as duas mulheres resolveram perguntar de novo, a mesma coisa, mas dessa vez pra pessoa do banco da frente. Como se já não tivessem perguntado isso antes! Como se a mulher do meu lado tivesse dito que não sabia! E, principalmente, como se a mulher ao meu lado não pudesse ver que elas estavam fazendo isso! Acho que dessa vez seria mais educado se elas virassem para a senhora que deu a informação primeiro e dissessem: "olha, a sua informação não parece muito confiável, então a gente vai conferir ali com aquela moça com cara de quem sabe melhor das coisas, tá?" Ao menos seria mais sincero. Mas o principal, e que deve ser ressaltado, é: se você acha que a pessoa não tem uma cara confiável, você não pede informação pra ela!

Eu, que quando quero sou bem malvado, teria feito elas perderem o ponto e voltarem a pé. Mas eis o que ainda salva os brasileiros como merecedores da fama de povo simpático e hospitaleiro: a senhora ainda ajudou as duas atrapalhadas a descer no ponto certo e encontrar o hospital. Eu sei, isso é uma coisa legal nos brasileiros, mas - posso pegar pesado? - todo mundo gosta de brasileiro do mesmo jeito que todo mundo gosta de cachorro: mesmo tomando chute, a gente ainda abana o rabo. Nem que seja só por educação.

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