31 de dezembro de 2009

Considerações sobre uma lista excepcionalmente difícil de fazer


Pra encerrar o ano, e também encerrar essa onda de posts sobre música, hoje vou tentar publicar dois posts sobre o assunto: esse, e o top de 5ª com os piores lançamentos de 2009. Mas uma coisa de cada vez.

Voltando alguns meses no tempo, eu publiquei aqui uma lista com os melhores discos que eu ouvi entre 2007/2008/2009. E deixei de fora o disco do Leonard Cohen, porque era um disco de 2009, e achei que ele se enquadraria melhor em outra categoria. Desde então, comecei a selecionar os destaques e rever as resenhas de discos desde o início do ano, ouvindo tudo o que podia, para elaborar uma lista com justiça (lembram da regra #1? Com a infinidade de lançamentos em 2009, não dava pra eu selecionar uma lista a partir de meia dúzia de discos).

Três meses e mais de 50 discos depois, aprendi algumas coisas sobre o mercado musical. Uma delas é que se você quer realmente saber do que um disco é feito, pule direto para a terceira faixa. A faixa de abertura invariavelmente vai fazer você dar mais crédito à banda do que ela merece. Eu disse que tinha evitado selecionar pra playlist as faixas de abertura ou músicas de trabalho, mas, analisando melhor, uma boa parte das músicas selecionadas são faixas de abertura: é inevitável, muitas vezes elas são muito superiores às outras (incluindo as músicas de trabalho).

Outra coisa (e isso não é novidade nenhuma, mas ficou extremamente claro) é que tem se tornado mais difícil distinguir os verdadeiros artistas e criadores de tendência dos que simplesmente pegam carona. Hoje é tudo tão rápido que (1) os verdadeiros artistas são copiados quase que concomitantemente ao lançamento, ou (2) não existem mais artistas que se inspiram em qualquer coisa, só identificadores de tendência de mercado que catam as referências e estilos com maior potencial de aceitação e jogam isso nos discos. Acho que é um pouco dos dois.

Vejamos o exemplo mais claro: qual é a menina dos olhos da indústria musical atualmente? Retirado de uma resenha, por ser a definição mais resumida de todo o "movimento": "misturar guitarras distorcidas, batidas eletrônicas e elementos vintage: Rock com Dance em embalagem retrô". Só esqueceram de falar que os sintetizadores voltaram também. 8 entre 10 das bandas aclamadas pela crítica seguem essa fórmula - inclua aí nomes como Franz Ferdinand, Yeah Yeah Yeahs, Arctic Monkeys, The Horrors, The Noisettes e mais uma porrada de gente. Está até difícil dizer qual é a cara da música dos anos 2000, porque a onda de soar vintage foi tão forte que às vezes não dá pra dizer se a música é atual ou se é dos 80 mesmo. O disco desse ano do The Horrors (Primary Colours) é assim. Outro disco de 2009 nessa onda é o do Papercuts (chegaram ao ponto de arranjar um órgão Hammond velho só pra soar como nos anos 60).

Além disso, também temos todo um esforço de gente talentosa, mas que perde a oportunidade de fazer algo que seja realmente bacana de se ouvir, só pra tentar soar moderninho, eletrônico, antenado, etc. Caso das garotas curitibanas do Mixtape, que poderiam fazer algo legal, e soam como um filhote remixado de Kid Abelha com NXZero. Ou o Kasabian, que não se decide pra que lado vai, se quer ser um rock revival do britpop ou se quer ser um grupo de música eletrônica. O disco que eles lançaram esse ano é praticamente esquizofrênico: alterna uma música num estilo, a próxima no outro, e não deve agradar nenhuma das duas audiências. Talvez seja por isso que esse disco bipolar se chame West Ryder Pauper Lunatic Asylum.

E aí eu cheguei num dileminha bem sacana, e que resultou na dificuldade de elaborar a lista dos melhores de 2009: eu deveria indicar os discos como os melhores de 2009 por estarem melhor inseridos no espírito de 2009, por representarem melhor ou por serem mais competentes em fazer o que se faz hoje em dia, mesmo não sendo o que eu gosto de ouvir? Como separar o ouvinte apaixonado por música do crítico musical (que geralmente precisa ser um cara atual/atualizado)?

Foi nesse ponto que eu lembrei que eu não sou um crítico musical! Então desencanei e fiz a lista com o que eu realmente gostei de ouvir esse ano. E descobri outra coisa: tem muita coisa boa sendo feita, mas eu gosto muito pouco delas. Por isso, numa lista de 10 discos/artistas temos nada menos que 5 com mais de 30 anos de carreira. Quatro deles já com mais de 60 anos.

Resumindo: escrever sobre música é difícil, deu um trabalho do caramba, eu tive de ouvir muita coisa ruim pra achar meia dúzia de discos que prestam, e não pretendo repetir a dose tão cedo. Cansei da atualidade, prefiro continuar nos anos 70.

3 comentários:

Diogo de Lima disse...

PS: ou seja, trabalho demais só pra colocar o disco do Leonard Cohen numa lista... da próxima vez, eu só indico o que eu achar legal e jogo na playlist do blog.

Fabiana disse...

gostei, ne!
vou ver se escuto tua lista!

Fabiana disse...

mas me recuso a ouvir Arctic Monkey.

 
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