18 de novembro de 2009

História Insólita #1

O moleton era novo. Presente da tia mais querida, ficara no armário por três semanas. Tinha de ser estreado numa ocasião especial. Era aniversário do primo Rodolfo, nada comparável a uma entrega de Oscar, mas era uma oportunidade. Também não estava tão frio assim, mas a vontade de usar a blusa nova fez com que o garoto colocasse o moleton naquela tarde de maio.

A Tia foi a primeira a cumprimentá-lo:
- Oi, Betinho - o nome dele era Norberto, que ele detestava. Gostava de Beto, e não muito de Betinho, mas era aceitável -, como você cresceu! Estou vendo que você gostou da blusa que eu te mandei, ainda bem que serviu! Se eu soubesse o tanto que você cresceu, tinha enviado um número maior! Hahahaha!

A Tia era assim, cheia de exclamações. O sorriso no rosto de Beto era autêntico: ele realmente gostava do jeito espalhafatoso da Tia, tão diferente da personalidade mais retraída e discreta da Mãe. Algo comum de acontecer entre irmãos, parecia que a personalidade de uma pessoa mais complexa havia se dividido para gerar duas pessoas caricatas. Ou talvez seja apenas preguiça do autor do conto.

Docinhos, bolo, o amigo gabola do primo do qual ninguém parece gostar, exceto uma garotinha de óculos sentada no canto e que se recusa a brincar com os outros, tudo corria normalmente na festa. Depois do Parabéns, as crianças (menos a garotinha de óculos) foram para o jardim brincar de pique-pega. Com o calor da brincadeira, Beto voltou para dentro da casa para tirar a blusa.

A borda inferior é puxada para cima, cobrindo a cabeça. Um momento de escuridão, e... a gola da blusa trava. Presa entre as orelhas e o queixo de Beto, a blusa deixa o rosto do garoto coberto e suando com o calor sufocante. "Calma, Beto, você já passou por isso antes", ele dizia pra si mesmo. "Libere as mãos, puxe o resto". Com as mãos livres das mangas, Beto deu um puxão na blusa.

Todos ouviram seus gritos, do lado de fora da casa. Quando chegaram ao quarto, Beto se debatia furiosa e desesperadamente para se livrar do moleton preso na cabeça. O puxão havia entalado mais ainda a blusa, dobrando as orelhas do menino. Beto pingava lágrimas e suor da face, mas ninguém podia ver, porque a blusa cobria tudo. Além do calor, agora a dor também era insuportável.

Alguns riam, outros tentavam ajudar. Depois de mais alguns puxões, todos concordaram que era inútil continuar forçando. Decidiram que precisavam de ajuda profissional, e levaram Beto ao pronto-socorro.

Foi uma coisa boa Beto estar com a cabeça coberta, pois todos na festa se amontoavam para ver o tinha acontecido. Alguns achavam aquilo tudo uma estupidez. O amigo gabola do primo Rodolfo agora olhava a própria blusa, desconfiado.

O médico no pronto-socorro examinou Beto, olhou a situação, e disse que não podia fazer nada naquela hora. Disse que precisava pensar. Que voltassem em uma semana. Receitou um analgésico e um calmante leve pro garoto, que se debulhava em lágrimas.

Na cabeça de Beto, as palavras da Tia ecoavam: "Se eu soubesse o tanto que você cresceu, tinha enviado um número maior! Hahahaha!" Agora, as risadas que lhe soavam tão simpáticas pareciam estar lá apenas para rir da sua situação.

Uma semana depois, voltaram ao médico. Todo sorrisos, ele disse que tinha a solução: um procedimento cirúrgico complicadíssimo, "mas de risco mínimo", disse ele. Usariam microcâmeras para enxergar dentro da blusa, e, com um equipamento para estender o alcance do bisturi, removeriam as orelhas de Beto, soltariam a blusa, e tentariam o reimplante. Todos na família foram contra.

Beto estava desolado. Se alimentava de sopa, através de um canudinho flexível retirado de uma bolsa de soro. Tinha conseguido uma licensa especial na escola, que abonaria suas faltas enquanto durasse a situação. Como não podia ver nada, não distinguia o dia da noite, e seu relógio biológico estava desregulado. Zanzava pela casa de madrugada, como uma aparição, trombando nos móveis. Quando tomava banho, a blusa ficava úmida por muito tempo, e fungos começaram a surgir no seu couro cabeludo. O médico voltou a insistir na cirurgia. Desta vez, ficaram tentados.

Um dia, apareceu uma van no lado de fora da casa. Ao atender a campainha, a mãe se deparou com uma moça de tailleur, com um cameraman atrás e um microfone na mão. O caso de Beto tinha chegado à TV. Logo havia dúzias de repórteres na porta, o telefone não parava de tocar. Todos queriam saber do "menino entalado".

Três meses depois da festa, a Mãe não aguentou mais. Pegou a melhor tesoura da casa, aproveitou enquanto Beto dormia, e cortou a blusa em mil pedacinhos. Beto estava livre.

Depois de um tempo, os fungos sumiram, a vermelhidão nas orelhas passou, e tudo voltou ao normal. Mas Beto nunca mais sentiu as orelhas propriamente aquecidas novamente.

2 comentários:

Diogo de Lima disse...

Uau, não era pra ficar tão grande, mas não consegui controlar a minha pena.

História surreal inspirada no medo que eu tinha quando era muito novo (e cabeçudo!) de ficar preso dentro da blusa na hora de tirá-la.

FABI disse...

kafkiana essa!!!!!

 
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