29 de novembro de 2009

A magia das promoções na internet


Eu nunca ganhei nada, à exceção de um real em uma ou outra raspadinha, e de uma garrafa de sidra vagabunda num bingo de igreja. Como eu tinha 7 anos, não bebi a sidra, então, nem conta. E acho que posso me conformar com o estado no qual as coisas estão. Tudo graças a uma praga que tomou conta do mundo das promoções: o "Concurso Cultural".

É preciso ressaltar não há nada de cultural num concurso desses. No geral, você tem que responder a uma pergunta babaca do tipo "O que deixa você ainda mais linda e com um visual super na moda?". Ah, vá, eu não preciso explicar como funciona. Todo mundo já topou com uma promoção dessas. A resposta mais criativa ganha.

Eu odeio concursos culturais. Principalmente porque eu nunca ganho. E também nunca ouvi falar de ninguém que ganhou. Mas também porque a cultura que eles promovem é a cultura do puxa-saquismo. Exemplo recém inventado: promoção da revista VidaVariada: "O que você faz pra ficar bem informado no seu dia-a-dia?". Resposta mais comum: "Leio a VidaVariada". A VidaVariada não existe, mas eu já vi isso em tanto lugar que nem é preciso pensar muito. As pessoas já fazem isso até sem pensar. Outro dia eu vi a mesma coisa no Yahoo!Respostas, e nem valia nada. A pergunta era: "O que você faz pra enrolar no trabalho", e teve uma torrente de respostas "fico no y!respostas". Qual é afinal a motivação de ficar puxando o saco de alguém que não vai te dar vantagem nenhuma? 

Outro motivo é a seleção das melhores respostas. Pesquisando no google, achei algumas pérolas vencedoras de concursos culturais. Não participei de nenhum deles, então, posso fazer uma avaliação suficientemente imparcial. Essa aqui, ao que parece era um  concurso de frases sobre correr, ganhou um carro: "Ao corredor valente, um coração saudável pertence." De fato, uma obra literária como essa merecia ganhar um Logan. 

Outro, valendo um Blu-Ray player: "Porque você merece um player Blu-ray da LG?" (eu ADORO isso de "por que você merece..." porque o ganhador nunca envolve merecimento de verdade. "Eu fui um bom menino o ano todo" seria uma boa resposta?). A promoção era do site Tarjapreta. E a resposta ganhadora foi: Porque só ganhando um Blu-Ray eu vou poder ver filmes com uma qualidade que dispense a Tarja Preta na minha TV”. Duas coisas: 1- isso não te faz merecedor de ganhar nada, só te faz necessitado. 2- Entenderam o que eu quis dizer com cultura de puxa-saquismo? Trocadilhos com o nome do site (revista, programa, etc) sempre ganham esse tipo de palhaçada. Eu pessoalmente preferia a resposta "Porque eu podia ta matando, roubando." Muito mais criativa. E menos puxa-saco.

Esse eu nem preciso comentar: Shopping Mega Polo Moda - “Qual loucura você seria capaz de fazer para ganhar uma viagem para Paris?”

Preparado? Lá vão as respostas ganhadoras:

“Nadaria nas cataratas de Foz de Iguaçu. Que loucura!” – Shess
“Iria usar uma fantasia de Torre Eiffel e desfilaria na Av. Paulista anunciando que o shopping Mega Polo Moda é o melhor centro atacadista”- Comércio de confecção Di Bom Gosto
“Por esta viagem me submeteria a subir os 1665 degraus da Torre Eiffel, somente de biquíni e salto alto em pleno inverno, agradecendo o Mega Polo Moda, por essa oportunidade”- Drops de Menta
“Uma loucura? Bom, eu faria um contrato de fidelidade com o Mega Polo Moda, abrindo mão de todas as lojas da rua… (risos)! Isso vale a viagem né?”- Mileny Acessórios

Pois é, né? Depois você fala que o jurado estava bêbado, que ele deu o prêmio pro primo do cunhado e querem te processar. Mas dá pra acreditar numa coisa dessas? Dá pra não duvidar da lisura de uma promoção desse tipo? Talvez por isso tenha se espalhado tanto esse tipo de promoção, já que todo sorteio de pacotinho de jujuba hoje em dia envolve a elaboração de uma frase: é pra ficar mais fácil de escolher quem leva a jujuba sem necessariamente ter que fraudar um sorteio. Você fala que achou mais criativa e pronto.

Concursos culturais fedem. É pedir muito que voltem para o velho "cadastre um email e concorra"?

26 de novembro de 2009

O que é ser brasileiro

Passei esse fim de semana na casa de um amigo meu, e domingo ele pôs pra tocar o disco The Life Aquatic Studio Sessions, do Seu Jorge. Pra quem não sabe, lá pelos idos de 2004, Seu Jorge gravou a trilha sonora do filme The Life Aquatic with Steve Zissou, que eu não vi, mas pretendo. E a tal trilha sonora é composta apenas por versões em portugês das músicas do David Bowie. A esta altura, você deve estar pensando: "Seu Jorge adaptando Bowie para português? Lá vem." E vem mesmo, mas me adianto.

Eu estou comentando isso porque, coincidentemente, nesse mesmo fim de semana o meu irmão comprou uma revista BIZZ de 2006 no sebo, que tem a avaliação do disco que ele lançou contendo as versões que entraram e que não entraram na montagem do filme. A nota sobre o disco dizia assim:
"Um disco preguiçoso, pouco inspirado e com letras contrangedoras (...). E foi como falso malandro que Seu Jorge levou essas sessões: qualquer telecoteco levado naquela língua exótica é cool e vira bossa [pra gringo que paga uma fortuna por uma havaiana]. Ou seja: é um legítimo disco chinelão!"

Ok, embora eu ache que se quiserem prender o Seu Jorge pelos seus crimes, deveriam pegá-lo por aquela versão daquela música gringa chatíssima (e levar a Ana Carolina como cúmplice), eu não vou ficar defendendo o Seu Jorge: eu também tenho as minhas ressalvas por ele transformar Rebel Rebel em Zero a Zero, ou cantar em Changes: "Lá vem meu trem. To saindo fora porque eu vou me dar bem".

Mas vamos contextualizar: os produtores queriam dar um "tempero brasileiro" ao filme. Tanto que o personagem do Seu Jorge (ele faz uma ponta) se chama - vamos lá, negão, brasileiro... - Pelé dos Santos. E brasileiro é um povo chinelão por natureza. Eu sei que muito fã xiita deve ter ficado de mimimi "ele destruiu as músicas", mas brasileiro é assim mesmo, não é? Nada é sagrado, nada é levado a sério, e qualquer coisa rende uma boa piada, ou ao menos um sambinha.

Nada mais brasileiro que pegar o ritmo das músicas de um cara tão cultuado como o David Bowie e refazê-la como se não fosse nada, da forma mais cara de pau e despretensiosa possível. Uma das maiores expressões de brasilidade que eu conheço é a música Tarde em Itapuã, da dupla Toquinho/Vinícius. Um velho calção de banho, passando a tarde na praia sem ter muita coisa com que se preocupar.

Somos indolentes, levamos muito pouca coisa a sério, temos uma tendência absurda para a iconoclastia galhofeira, e gostamos de vida mansa. Mas quem não quer levar a vida assim? Quem não quer passar a tarde na praia numa esteira de vime tomando água de côco? Quem não quer ser brasileiro?

18 de novembro de 2009

História Insólita #1

O moleton era novo. Presente da tia mais querida, ficara no armário por três semanas. Tinha de ser estreado numa ocasião especial. Era aniversário do primo Rodolfo, nada comparável a uma entrega de Oscar, mas era uma oportunidade. Também não estava tão frio assim, mas a vontade de usar a blusa nova fez com que o garoto colocasse o moleton naquela tarde de maio.

A Tia foi a primeira a cumprimentá-lo:
- Oi, Betinho - o nome dele era Norberto, que ele detestava. Gostava de Beto, e não muito de Betinho, mas era aceitável -, como você cresceu! Estou vendo que você gostou da blusa que eu te mandei, ainda bem que serviu! Se eu soubesse o tanto que você cresceu, tinha enviado um número maior! Hahahaha!

A Tia era assim, cheia de exclamações. O sorriso no rosto de Beto era autêntico: ele realmente gostava do jeito espalhafatoso da Tia, tão diferente da personalidade mais retraída e discreta da Mãe. Algo comum de acontecer entre irmãos, parecia que a personalidade de uma pessoa mais complexa havia se dividido para gerar duas pessoas caricatas. Ou talvez seja apenas preguiça do autor do conto.

Docinhos, bolo, o amigo gabola do primo do qual ninguém parece gostar, exceto uma garotinha de óculos sentada no canto e que se recusa a brincar com os outros, tudo corria normalmente na festa. Depois do Parabéns, as crianças (menos a garotinha de óculos) foram para o jardim brincar de pique-pega. Com o calor da brincadeira, Beto voltou para dentro da casa para tirar a blusa.

A borda inferior é puxada para cima, cobrindo a cabeça. Um momento de escuridão, e... a gola da blusa trava. Presa entre as orelhas e o queixo de Beto, a blusa deixa o rosto do garoto coberto e suando com o calor sufocante. "Calma, Beto, você já passou por isso antes", ele dizia pra si mesmo. "Libere as mãos, puxe o resto". Com as mãos livres das mangas, Beto deu um puxão na blusa.

Todos ouviram seus gritos, do lado de fora da casa. Quando chegaram ao quarto, Beto se debatia furiosa e desesperadamente para se livrar do moleton preso na cabeça. O puxão havia entalado mais ainda a blusa, dobrando as orelhas do menino. Beto pingava lágrimas e suor da face, mas ninguém podia ver, porque a blusa cobria tudo. Além do calor, agora a dor também era insuportável.

Alguns riam, outros tentavam ajudar. Depois de mais alguns puxões, todos concordaram que era inútil continuar forçando. Decidiram que precisavam de ajuda profissional, e levaram Beto ao pronto-socorro.

Foi uma coisa boa Beto estar com a cabeça coberta, pois todos na festa se amontoavam para ver o tinha acontecido. Alguns achavam aquilo tudo uma estupidez. O amigo gabola do primo Rodolfo agora olhava a própria blusa, desconfiado.

O médico no pronto-socorro examinou Beto, olhou a situação, e disse que não podia fazer nada naquela hora. Disse que precisava pensar. Que voltassem em uma semana. Receitou um analgésico e um calmante leve pro garoto, que se debulhava em lágrimas.

Na cabeça de Beto, as palavras da Tia ecoavam: "Se eu soubesse o tanto que você cresceu, tinha enviado um número maior! Hahahaha!" Agora, as risadas que lhe soavam tão simpáticas pareciam estar lá apenas para rir da sua situação.

Uma semana depois, voltaram ao médico. Todo sorrisos, ele disse que tinha a solução: um procedimento cirúrgico complicadíssimo, "mas de risco mínimo", disse ele. Usariam microcâmeras para enxergar dentro da blusa, e, com um equipamento para estender o alcance do bisturi, removeriam as orelhas de Beto, soltariam a blusa, e tentariam o reimplante. Todos na família foram contra.

Beto estava desolado. Se alimentava de sopa, através de um canudinho flexível retirado de uma bolsa de soro. Tinha conseguido uma licensa especial na escola, que abonaria suas faltas enquanto durasse a situação. Como não podia ver nada, não distinguia o dia da noite, e seu relógio biológico estava desregulado. Zanzava pela casa de madrugada, como uma aparição, trombando nos móveis. Quando tomava banho, a blusa ficava úmida por muito tempo, e fungos começaram a surgir no seu couro cabeludo. O médico voltou a insistir na cirurgia. Desta vez, ficaram tentados.

Um dia, apareceu uma van no lado de fora da casa. Ao atender a campainha, a mãe se deparou com uma moça de tailleur, com um cameraman atrás e um microfone na mão. O caso de Beto tinha chegado à TV. Logo havia dúzias de repórteres na porta, o telefone não parava de tocar. Todos queriam saber do "menino entalado".

Três meses depois da festa, a Mãe não aguentou mais. Pegou a melhor tesoura da casa, aproveitou enquanto Beto dormia, e cortou a blusa em mil pedacinhos. Beto estava livre.

Depois de um tempo, os fungos sumiram, a vermelhidão nas orelhas passou, e tudo voltou ao normal. Mas Beto nunca mais sentiu as orelhas propriamente aquecidas novamente.

8 de novembro de 2009

Uma verdade inconveniente

Vocês já se depararam com uma verdade inconveniente? E não estou falando do filme do Al Gore. Vocês já deram de cara com um fato que não encaixava na sua concepção de mundo, a ponto de fazer você simplesmente rir e se recusar a aceitá-lo? Deve ter sido assim que a Igreja reagiu quando Galileu e Copérnico disseram que a Terra não era o centro imóvel do Universo. Talvez tenha sido assim que Roberta Close se sentiu quando descobriu que era uma mulher presa no corpo de um homem. Ou o Prince, quando percebeu que trocar seu nome por um símbolo não ia dar certo.

Seja como for, ouvindo um podcast do Judão segunda à tarde, eu fiquei sabendo de algo que me deixou chocado: o Dr. House é o pai do Stuart Little.
(som de revelação bombástica) TUMMM!!!

Sim, o mal humorado, mal educado, mal barbeado e genial Dr. House é interpretado pelo mesmo ator que fez o papel do almofadinha imberbe, sem sal e politicamente correto que ADOTOU UM RATO. Ok, isso só faz com que o Hugh Laurie seja mais respeitável como ator, uma cara versátil e tudo, mas e o Dr, House, como fica nessa história? Não dá mais pra acreditar nas grosserias hilárias que ele fala sabendo que a qualquer momento ele pode levantar a bengala e gritar "um little aqui, um little lá!".


Paizão!! Qual o diagnóstico? Leptospirose?

Talvez esteja exagerando, mas é mais ou menos como dizer que um cara fera como o Kevin Spacey já fez um filme ruim como Superman Returns, ou A Corrente do Bem. Ou que o Josh Hartnett, que só faz filmes horrorosos, já participou de um filme bacana. Sin City, por exemplo.

Estou desiludido. Nunca mais acredito em algo escrito numa obra de ficção da TV.

5 de novembro de 2009

Top de 5ª - 5 coisas involuntariamente assutadoras


Um dia desses eu estava num corredor mais pobrinho do shopping daqui de Uberlândia (só tem um que realmente conta), e nele há uma loja de artigos religiosos. Na vitrine dessa loja, entre outras coisas, havia uma estatueta de São Sebastião. Eu sempre achei imagens religiosas assustadoras, e a de São Sebastião a mais medonha de todas, e isso de inspirou a um top daquelas coisas que não deveriam dar medo, mas dão.

#5 - Palhaços - Não sei se o exemplo que eu peguei é o melhor, afinal, esse foi um palhaço feito pra dar medo mesmo, mas sei de muita gente que tem medo dos palhaços comuns. Um amigo meu tem medo de palhaços e de mímicos, o que faz do Ronald McDonald o auge do terror pra ele. Na maior parte das vezes, a imagem que me vem à cabeça é a daqueles palhaços de circo itinerante, o que talvez explique a aura assustadora que geralmente acompanha ciganos e outros nômades. Sem contar que me parece uma vida bem deprimente (um pouco de preconceito aqui, ok). Me lembro de um episódio dos Simpsons em que o Homer faz uma cama para o Bart em formato de palhaço. O coitado fica quase psicótico tentando não dormir pra não ser devorado pela cama medonha.

#4 - Japoneses
Não sei se é porque eles parecem sérios demais, e por isso ficam mais assustadores quando não estão sendo sérios. Ou se os olhos puxados parecem estar permanentemente estudando um modo de atacar. Não me levem a mal, eu tenho um grande respeito pela cultura japonesa, e até acho que eles estão corretos em não ter muitos costumes nos quais nós, ocidentais, insistimos (encostar nas pessoas pra cumprimentar, por exemplo). Mas os filmes de terror orientais comprovam que não precisa muito pra fazer um japonês dar medo, um pouco de cabelo na cara já basta. E se for criança, então...

E o que dizer em câmera lenta? Genial o vídeo, só precisa ignorar a música

#3 - Imagens sacras - Muitas foram feitas para aterrorizar os fiéis, eu sei, mas de modo geral a iconografia das imagens sacras é baseada em símbolos de algo que os santos fizeram ou disseram, de modo a condensar a história no seu ponto mais alto. Dessa forma, nada mais natural que representar São Sebastião no auge do seu martírio, ou ainda insistir na imagem do Cristo crucificado. Mas que todo aquele sangue, flechas e espinhos são medonhos, ninguém pode discordar. Eu lembro de uma vez, quando eu estudava em uma escola católica e tinha uns 7 anos, a turma toda foi na igreja ao lado da escola e entramos na sacristia. Numa salinha vazia, tinha "alguma coisa grande" coberta com um pano. Quando eu levantei uma pontinha pra ver o que era, tinha um cristo crucificado, em tamanho natural, e bem a parte que eu levantei era a cabeça dele, com coroa de espinhos, sangue, cara de sofrimento e olhando pra mim. Olhando pra mim! Aquela imagem me perseguiu por vários dias (e noites!).
Talvez a fé seja um fator a mais a ser considerado, porque na tradição católica, todas essas pessoas só estão lá pra te julgar. Outra imagem que eu tinha medo era a do cristo pantocrátor (aquele com a mãozinha em posição de julgamento), mas nada me assustava mais quando criança do que as imagens de um cristo benevolente e acolhedor me chamando pra si. Parecia uma anunciação de que eu estava pra morrer.

#2 - Pessoas muito musculosas - Isso é mais uma daquelas coisas pra assustar criancinhas. Do tipo "olha como você vai ficar se não comer a salada". O medo nem é pela possibilidade de levar uma porrada de um cara desses, é muito mais pelo caráter de quase auto-mutilação hipertrófica que esses fisiculturistas obsessivos impõem ao seu corpo. Você já teve medo de alguém sem um olho? Ou com uma narina só? É mais ou menos essa a sensação, com o bônus da bizarrice da voluntariedade da coisa.

#1 - Bonecas - Oh, rapaz... quanto mais realistas pior. Eu acho que tem um componente de síndrome de encarceiramento muito grande aqui. Explico: ao ver uma boneca que parece humana (ou com olhos muito vivos), têm-se uma certa empatia, e a base da empatia é a possibilidade de se imaginar no lugar do outro. Essa é uma característica inerente ao ser humano, é o que nos faz ser solidários e manter a continuidade da nossa espécie. E o medo deriva da imaginação de estarmos presos no corpo de uma boneca, imóveis, mas conscientes. Talvez seja um grilo só meu, talvez não, mas um dos grandes terrores da minha infância era quando a velhinha do filme Conveção das Bruxas conta a história de uma menina que foi aprisionada num quadro.
E também sempre há a possibilidade de uma delas sair andando e te atacar à noite. Acho que isso é uma espécie de culpa coletiva pela forma com que a gente maltratava os nossos brinquedos, associadas à nossa tendência à prosopopéia. Contando todas as lendas urbanas associadas a bonecas, contando os filmes de Brinquedo Assassino até Toy Story, a cultura pop está recheada de medo por esses objetos inanimados (será?).

2 de novembro de 2009

E o ser humano continua não me deixando na mão

O tempo passa, o tempo voa, até a poupança Bamerindus já bateu o trinta-e-um e a humanidade continua bestial como sempre. Muita gente já deve ter ouvido o bafafá, mas como só fiquei sabendo do ocorrido hoje, eu vou comentar o caso atrasado assim mesmo. O vídeo abaixo é imprescindível para a sua compreensão.


Alguém mais lembrou dos macacos no início de 2001, Uma Odisséia no Espaço?

Não tive saco de ver os outros vídeos, a mulherzinha já até deu entrevista pra um desses programas apelões do meio da tarde em emissoras classe C, mas isso não me interessa.

Imagina a seguinte situação: você está numa sala de aula, e de repente alguém grita:
- Tem uma menina com uma minissaia curtinha no corredor!
Você:
a) Continua assistindo a aula normalmente, pensando: e daí? Grande coisa.
b) Vai até a porta da sala e dá uma espiadinha.
c) Comenta com os colegas: "isso é roupa pra assistir aula?"
d) Corre até o corredor, tenta achar a sala em que a guria entrou, se pendura na janela pra espiar lá dentro, grita, assobia, e reúne um coro de gente pra gritar "PUTA! PUTA!"

É, eu escolheria a letra a, mas até entenderia quem escolhesse b ou c. O problema é que a letra d, por mais absurda e imbecil que pareça, foi a escolha da maioria dos alunos da Uniban. Pensa, por um minuto, que você não viu o vídeo. Se alguém te contasse que uma mulher reuniu uma universidade de 4 andares, cheia de gente, e teve que sair escoltada pela polícia para não ser linchada simplesmente POR USAR UMA MINISSAIA, você acreditaria? Dá pra acreditar que em pleno século XXI - não que o século XXI seja grande coisa só por ser depois do XX, mas é porque, supostamente, o presente é o auge da nossa evolução - que uma mulher possa correr o risco de ser linchada por usar uma minissaia?

O pior é o rumo que a discussão tomou, nos comentários do vídeo. Já disseram que isso é falta de gezuis no coração dos jovens, já invocaram até a história de Maria Madalena (muito propriamente, mas com a intenção errada). Aí nós passamos do bando de macacos para os pregadores do deserto. 3000 anos de evolução, arte e cultura pra isso?

Etimologia de botequim


Como diz a descrição do meu perfil, eu sou um sujeito curioso de nascença. E isso inclui tentar descobrir a origem das coisas, qual a história delas, como elas se formaram. Deus e Nossa Senhora têm me ajudado muito com isso. O que acontece é que nem sempre eu tenho vontade de pesquisar, e muitas vezes eu fico só na especulação mesmo, mas, ainda assim, dá pra fazer algumas descobertas, e também dar algumas bolas fora no campo da etimologia. Com o tempo, eu fui juntando uma pequena coleção de palavras e explicações que pouco tem de científicas, e que podem se revelar verdadeiras ou não.

Beliche: no dialeto do português que é falado nesses nossos sertões brasileiros, a palavra acaba se tornando "bilixe", o que gera a confusão de que o nome é porque são duas camas - bi-liche. Qual não foi a minha surpresa quando pela primeira vez eu vi escrita a palavra "treliche". Estranhei o fato de ser "tre" e não "tri",  e só então atententei para o fato de "beliche" ser também escrito com E. Juntando o lé com cré, me dei conta que beliche deve ter a mesma raiz da palavra bélico - ou seja, uma cama para os soldados em instalações militares, uma cama bélica. O que, em uma análise uma pouco mais além, faz com que derivar "treliche" a partir de "beliche" não faça nenhum sentido, a não ser como uma piada idiomática que ninguém entendeu.

Vintage - essa entra na casa das bolas fora. A história é a seguinte: eu tenho a teoria que a moda e as influências culturais, a partir do século XX se repetem a cada 20 anos. Psicologizando a coisa um pouco, acho que é uma tendência dos jovens adultos (na casa dos 20) utilizarem na sua produção artística/criativa referências à sua infância, como uma espécie de saudosismo, no que são imediatamente bem aceitos por outros jovens que apreciam essas referências por ter algo a ver também com as suas infâncias. O que explicaria o retorno ao hipismo e ao movimento punk dos anos 70 nos anos 90, e a volta dos anos 80 na década vigente - não vai demorar até que os anos 90 venham bater na nossa porta exigindo o seu direito ao retorno. Baseado nisso, chutei que vintage teria origem nisso mesmo, esse período de vinte anos em que as coisas surgem, ficam bregas e depois voltam à tona como algo... bem, vintage. Mas me enganei, vintage tem a ver com vinhos. By wikipedia: "A sua origem ou significado vem de vint relativo à safra de uvas e age de idade."

Argentina - outro dia eu estava lendo um poema que dizia que o navio do protagonista não tinha "velas em mastro argentino". Como este trecho falava das colorações e materiais do tal navio, me deu um estalo: prata em latim é argentum, como todos aprendemos na tabela periódica das aulas de química. Então, a terra que fica próxima a foz do Rio da Prata é uma terra argentina, prateada, cheia de prata. A gente se acostuma a achar que Argentina é o nome do país e se surpreende quando descobre outro significado.

Inglaterra - o mesmo caso da Argentina, eu nunca tinha parado pra pensar no significado. O povo que colonizou permanentemente as terras onde hoje minha querida esposa se encontra foram os anglos, que deram origem à seguinte construção: eng=anglo, land=terra, England, terra dos anglos. Em português deve ter sido semelhante, a Angla Terra que se tornou Inglaterra.

Enfermeira - Ooolááááá... enfermeira! Essa é quase vergonhosa de tão óbvia. Enfermeira é alguém que cuida dos enfermos! Acho que utilizamos tão pouco a palavra enfermo, que se torna difícil fazer a associação. Depois de perceber a associação entre uma coisa e outra passei a prestar mais atenção a palavras com a terminação eiro. Dúvida: existe algo de pejorativo em derivar uma palavra com eiro? Afinal, tanta gente reclama que o certo para motoqueiro é motociclista, que bicicleteiro é ciclista, quase tanto quanto homossexualismo acabou sendo compulsoriamente substituído por homossexualidade (diziam as pessoas etimologicamente sensíveis que o sufixo ismo denota doença), que fico imaginando se existe um movimento organizado de enfermeiras querendo se tornar enfermistas.
 
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