4 de outubro de 2009

Pontos

Outro dia, quando eu estava escrevendo um outro post me bateu uma dúvida no uso dos pontos de exclamação e interrogação combinados (!? ou ?! - o correto é !?). Pesquisando no google, acabei sem querer encontrando esse texto logo abaixo, que eu achei nada mais que lindo. Pedi à autora se poderia reproduzí-lo aqui, e tendo obtido sinal verde, aí vai:
O ponto de interrogação é um ponto de exclamação cansado

“O ponto de interrogação é um ponto de exclamação cansado”. Esta frase, que não termina com um nem com outro, anda comigo, ora no bolso de ganga da memória, ora no saco preto das frases preferidas ao ombro. Anda comigo há tanto tempo, que já a considero um pouco minha, até porque não saberia a quem a devolver. Tomo conta desta frase inspirada há mais de uma década e cada vez que a digo, afago, toco, embalo ou penso, ela promete ficar comigo por mais algum tempo. O ponto de interrogação é um ponto de exclamação cansado. No princípio, era o espanto: a exclamação, a surpresa, o entusiasmo. Primeiro, abrimos os olhos e a boca de espanto. Depois, queremos saber mais e melhor, porquê e como. Começamos por falar alto, para em seguida recolher a voz e sintonizá-la com o pensamento. Substituímos o espanto pela dúvida, mudamos o tom do olhar e a correspondente inflexão de voz. O dedo que aponta, firme como uma seta indicadora - ! - , passa a ouvido que acolhe e guarda sons como uma concha feita com a mão - ? - . O ponto de exclamação é sonoro e intenso, amplia sentimentos (até intensifica a dor), tem algo de espalhafatoso. Talvez por isso, canse enquanto se cansa. O ponto de interrogação, quando anda sozinho (não raras vezes é visto na companhia do ponto de exclamação, criando um oxímoro visual), indica um sinal de dúvida, a introspectiva e atenta procura de uma resposta. O ponto de interrogação é mais filosófico do que o ponto de exclamação? Perguntar é melhor do que afirmar? Teremos de tomar partido entre uma interjeição e uma interrogação? O ponto de exclamação parece uma solução e lembra uma ordem. O ponto de interrogação amplia uma atenção, acolhe um interesse. O ponto de interrogação é um ponto de exclamação cansado. Cansará mais exclamar ou perguntar? Como em todas as dialécticas desta vida, precisam um do outro para existir mais e se conhecerem melhor. O ponto de exclamação tem uma doença nas costas, uma corcunda acumulada com o tempo e o desgaste, resultante do seu uso e abuso, por todas as crianças, muitas pessoas e alguns escritores. Tem na sua aparente deformação um excelente motivo para ir ao ortopedista dos sinais gráficos de pontuação e ficar sentado na sala de espera entre um travessão e duas aspas, enquanto ouve as queixas dos parêntesis da frente. Mas talvez haja outra explicação para tudo isto. E se o ponto de exclamação tiver sempre uma interrogação escondida? Um pedido disfarçado, como este: reparas em mim? Ouves-me? Lês-me? Dás-me um pouco da tua vida? Escreves um post sobre mim?

p.s. - O único ponto de exclamação deste texto não está ao serviço da frase, é apenas uma imagem. Já nem sei há quantos milhões de caracteres não desenhava um.

Não apenas o texto é lindo, como me atingiu de uma maneira inesperada. Me identifiquei. Eu comecei a fazer muito mais perguntas depois que me cansei de fazer exclamações. Hoje me restam poucos pontos retos. A maioria já está curvada pelo tempo.

2 comentários:

Raquel Beatriz disse...

texto lindo!!!!

lindo lindo!!!!!

gracias!

EFGoyaz disse...

Realmente excelente o texto. Dá até vergonha de usar a exclamação depois disso. Uma lição pra vida. Uma lição pra vida?

 
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