17 de outubro de 2009

Curtas de Viagem


Quinta passada, dia 08, saímos eu, meu irmão e minha mãe, daqui de Uberlândia-MG em viagem para Concórdia-SC, a cidade onde nasci e lar de quase toda a minha família materna. Era aniversário da minha mãe no dia 12, eu me formei mês passado, e isso serviu de pretexto para reunir a família.
Ao longo dessa semana, fui coletando uma série de observações pra postar aqui, mas só tive tempo de assentá-las nessa página agora. Aí vão:

Simpatia e hospitalidade são virtudes quase sempre associadas aos brasileiros. O que é estranho é quando um desses seres peculiares nascidos nesta região selvagem abaixo do Equador exagera na sua "brasilidade". Encontramos um desses "brasileiros convictos" à noite, num muquifo ao lado de um posto entre Marília e Ourinhos. Um sujeito muito incomum, parecendo uma mistura de Heihachi do Tekken com o Tião Macalé, colocado numa bodega no meio do nada. Ele ficou indo e voltando à mesa onde estávamos (éramos os únicos no lugar), chamou a gente de "vizinho" o tempo todo, perguntou mil vezes se estava tudo a contento, trouxe a neta no colo pra gente conhecer... dava pra ver que, na concepção dele, ele estava fazendo de tudo pra parecer simpático, mas o efeito foi muito mais de esquisitice. E o mundo tá cheio de gente assim, sufocantemente tentando ser simpático (e.g. vendedores de loja de roupas). O que me leva a pensar, afinal, qual é o objetivo de ser simpático? Não era fazer com que as pessoas se sintam à vontade?

Imaginou a mistura?

Viagens pra minha terra natal sempre me deixam nostálgico/melancólico, e eu sempre me pego pensando em como a minha vida teria sido se eu não tivesse saído de lá (evidentemente, não chegando a nenhuma conclusão, visto que eu saí), e me perdendo em lembranças há muito esquecidas. Na verdade, eu saí de Concórdia muito cedo, então as minhas lembranças mais antigas de lá são também de viagens de férias, notadamente de quando íamos visitar a minha bisavó. Para chegar à casa dela, atravessávamos a cidade, e nunca íamos além disso; na inocência dos meus 5 anos, eu achava que a cidade acabava nas árvores do quintal da Nonna, e me veio à mente nessa visita (há mais de 15 anos que eu não entrava nessa casa, desde que a minha bisa morreu, em 93) a ocasião em que, me esgueirando entre as pedras do quintal, eu vi que havia mais cidade além das árvores do fundo do lote, e pra mim isso foi uma descoberta comparável à de que a terra é redonda.
Concórdia não é o tipo de cidade estagnada, onde você passa anos longe e quando volta vê que nada mudou, pelo contrário, eu sempre me admiro com como a cidade tem crescido. Mas ao redor dessa casa tudo continua igual. O salão de beleza da Renilda ao lado, a Funilaria Aliança logo depois, na esquina o Bar do Tito com a sorveteria em cima, e do outro lado da rua a oficina mecânica num galpão de madeira, velho e mal cuidado, que sabe-se lá como continua de pé, tudo continua como há 15 anos atrás, à exceção da Nonna e do Nonno que não estão mais lá. A vida é assim, a gente vai ficando velho e cada vez mais sentimental.

Viajar de carro cansa, mas tem as suas compensações, e uma delas é que você fica muito mais atento ao caminho que viajando de ônibus, no qual você está muito mais preocupado em se desviar do chato que sentou ao lado, ou simplesmente dorme o caminho todo (meu caso). O tempo todo fomos brindados com belas paisagens, e até avistamos um lobo-guará cruzando a estrada na frente no nosso carro (de longe achei que era um potro, de tão grande, mas quando passamos perto ele ainda não tinha atravessado, era lindo). Na volta o tempo estava chuvoso e terrível pra se viajar, mas no final da tarde o sol apareceu apenas para produzir um arco-íris duplo e para anunciar que estava se pondo, e tivemos um duelo cromático: à frente estava tudo azulado, mergulhando em sombras, mas nos retrovisores víamos o mundo tingido de dourado. Quando finalmente tentei registrar isso, o flash da máquina atrapalhou e perdi o melhor ângulo de visão que tive.

Maldito flash automático!

Eu sempre me absurdo com a cara-de-pau com que as estradas são deixadas sem manutenção. Encontramos muitas obras de reparos ao longo do caminho, mas sempre em trechos de rodovia pedagiada. A teoria é que se eles deixarem as estradas do jeito que estão, em breve o povo vai estar implorando pra pagar pedágio, e o governo pode sair de fininho. Mas o mais ridículo é encontrar as placas avisando: "Atenção: longo trecho de pista com defeitos". É como mandar um recado: "A gente não vai consertar mesmo, então, se vira aí, e cuidado com os buracos".

Essa foto não é minha, mas é bem isso aí

A versatilidade das porcarias que a gente acaba roendo na viagem foi algo que me chamou a atenção. Porque nada tinha o gosto que se esperava que tivesse: o Halls parecia pedra sanitária com açúcar, o meu irmão comprou um Mentos sabor cola que tinha sabor de bala de coca-cola (que não tem gosto de coca-cola, apenas lembra vagamente algo que poderia se parecer com coca), o Trident tinha gosto de Vick Vaporub, e o biscoito de polvilho, comprado numa espelunca perdida no nada, bem... esse tinha gosto de biscoito de polvilho velho mesmo.

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