29 de outubro de 2009

Redescoberta

Hoje eu vou furar o top de 5ª, mas só pra não passar em branco:
Eu estava olhando as resenhas de discos recém-lançados no Território da Musica, e entre elas tinha a resenha do último disco da banda veterana Europe. O artigo dizia que o álbum era imperdível para quem tem o mínimo de interesse por Hard Rock. Curioso que sou, ouvi o disco. Desisti na metade. O disco é realmente bom, mas serviu mesmo pra me lembrar que não, eu não tenho o mínimo interesse em Hard Rock.

27 de outubro de 2009

E a vida imita... o que mesmo?

Vi uma notícia hoje na UOL que me trouxe uma série de lembranças de fatos e filmes e notícias, e filmes baseados em fatos que foram notícia. Bem, a história é a do vídeo abaixo:



Pra você que não teve paciência de esperar o vídeo carregar e assistir, eu explico: esse alemão, não muito normal, pelo que se vê no vídeo, conheceu uma brasileira e veio pra cá pra conhecê-la. Deixa eu brincar de adivinho - a gente sabe como é brasileiro, fala "vai lá em casa um dia desses" e fica torcendo pra você nunca aparecer, pode ter sido o caso desse alemão, só que numa escala internacional, e... bem, nem é sobre isso que eu ia falar. Voltando ao trilho da conversa, o tal sujeito resolveu que não ia voltar pra Alemanha, e agora está morando no aeroporto. Sim, todos nós lembramos de O Terminal. E O Terminal é baseado em uma história real. O que faz desse um daqueles casos em que "a vida imita a arte que imita a vida", um desses clichês dos quais a gente sempre desdenha até ver alguma utilidade.

Eu poderia citar também Clube da Luta e dizer que "tudo parece uma cópia de uma cópia de uma cópia", mas aí eu me lembro esse foi o filme que o Mateus Meira invadiu com uma metralhadora e depois tentou alegar insanidade por estar obcecado pelo Duke Nukem - mais um caso vida-imita-qualquer-coisa?
O que realmente me chama a atenção é que semana passada tivemos um outro caso desses! Um casal de namorados adolescentes resolveu deixar os pais malucos fugindo pra "viver por aí", inspirados por Na natureza selvagem, filme que eu não vi, mal sei do que se trata, e parece ser mais uma fantasia riponga/mochilão/vidaloca.
E (só mais uma) ano passado tivemos mais um doido tentando reprisar uma cena do GTA: um tailandês quase matou um taxista pra ver se roubar um taxi "era tão fácil como no jogo".

Não sei exatamente o que está acontecendo com as pessoas, mas eu achava que a vida, mesmo com toda a sua banalidade, tem seus momentos insólitos, tensos, perigosos, divertidos. Eu não duvido do poder da ficção, acho que a literatura, cinema e a dramaturgia de modo geral tem o seu papel a cumprir pra suprir a quantidade de encanto, magia, romance ou aventura que a vida real não tem - ao menos não na mesma medida da imaginação. Mas porque as pessoas resolveram achar que precisam  viver isso de verdade? A vida é tão enfadonha? O mundo se tornou um lugar tão chato assim? E o mais estranho: parece que agora qualquer fantasia serve. Tudo bem você fantasiar que é um intelectual bonitão que roda o mundo atrás de relíquias históricas e ainda salva o dia, mas quem é que diz "mamãe, meu sonho é morar no aeroporto"? Quem aí já descreveu o emprego dos sonhos como "testador de viabilidade real de eventos violentos em vídeo-games"? Eu já imaginei o que faria num cenário de apocalipse zumbi, mas isso não me faz querer sair por aí exterminando gente contaminada pela gripe A.

Talvez seja a eficiência extrema da ficção atual que esteja fritando o tutano das pessoas. A arte tem imitado a vida de modo tão convincente que se torna mais viva que o nosso mundinho real e cotidiano. Perto da suculência da vida dos filmes e novelas, o nosso mundo parece uma sopa velha e aguada. É hora de pararmos de olhar para as telas com tanta avidez e prestarmos mais atenção no mundo que nos cerca, e nos espantarmos com as coisas que estão lá, à espera de serem vistas. Afinal de contas, nessa história de ovo/galinha, no começo foi a arte que imitou a vida, antes da vida imitar a arte.

24 de outubro de 2009

O Paradoxo da Regra e da Exceção

Um pouco de filosofia barata. Diz a tradição que toda regra tem uma exceção. Subentendido pela palavra "toda", está o enunciado de uma regra. Logo, se "toda regra tem uma exceção" é uma regra, ela deve estar submetida a si própria, e apresentar uma exceção - em outras palavras, existe uma regra que não possui exceção.

Porém, a presença dessa exceção invalida a regra, que, necessitando de reformulação, passa a ser "quase toda regra tem exceção". A menos que admitamos que à exceção a esta regra seja ela própria, e nenhuma regra deixe de ter exceção. Assim, "toda regra tem exceção" é a única regra que precisa de uma exceção para ter validade universal, e para que funcione perfeitamente, deve ser a sua própria exceção.

Em última análise, essa passa a ser a única regra que, ao mesmo tempo, tem e não tem exceção.

22 de outubro de 2009

Top de 5ª - Top 10 piores clipes dos anos 80

Pois bem... estava eu googleando atrás do nome de uma música que tinha ouvido num filme, quando me deparei com o clipe dela. A coisa foi tão estranhamente bizarra, e o clipe linkava com outro igualmente estranho, e mais outro, e quando vi eu já tinha material pra um bom top. Não considerei as roupas horrendas e os cabelos hediondos, isso já foi excessivamente massacrado. A intenção aqui é demonstrar que a tosquice dos anos 80 era mais que estética: era uma tosquice conceitual.

#10 - Culture Club - Karma Chameleon;
Bem, nada contra o Boy George se vestir daquele jeito estranho e andrógino, eram os anos 80, a gente perdoa. Mas porque raios essa produção toda, e encenar essa historinha bocó sendo que isso não tem nada a ver com a música? E a insistência em mostrar alguém tocando a gaitinha toda vez que se ouvia o som do instrumento (não tiveram essa preocupação com nenhum dos outros) também é de matar.


Para ver o vídeo com uma definição melhor, clique aqui. A EMI não libera o clipe para reprodução direta.

#9 - Oingo Boingo - Stay;
Nada muito bizarro aqui, uma produção tosquinha, fantasmas voando por aí sem motivo nenhum, mas o que é realmente estranho é a cara do Danny Elfman e o do baixinho que toca contrabaixo. Dá um medo...


#8 - Guns'n' Roses - Don't Cry;
Eu sei, Don't Cry é de 1992, mas está aqui por 3 motivos: a musica foi composta em 1987, o clipe tem um espírito oitentista, e o top é meu, então que se dane. O excesso de poses, a fragmentação que faz com que o clipe não tenha sentido nenhum, e a vergonhosa tentativa do Axl Rose em se promover usando a imagem de garoto perturbado com grandes problemas psicológicos "olha, eu faço terapia" faz dessa obra uma jóia dos anos 80 em plenos 90.




#7 - Legião Urbana - Será;
"Ah, coitados, eles eram muito novos, uma banda iniciante sem recursos". É, é verdade, mas não é pela falta de produção que esse clipe figura aqui. É porque os caras eram muito feios! A falta sex appeal e de intimidade com a câmera é quase digna de vergonha alheia.
Veja o vídeo nesse link.
Mais um vídeo controlado pela EMI, e eu não consegui outro com boa resolução.

#6 - Queen - I want to break free;
Respeito, muito respeito. Eu adoro Queen, acho que o Freddie Mercury é o maior vocalista da história do rock, mas precisava disso tudo nesse clipe? De 2:15 a 3:15 é um minuto inteiro apenas de gente vestida de colã rolando por cima de gente vestida de colã, montinhos de gente parecendo pelada, entre outras coisas altamente improváveis de se encontrar em um clipe atual.



#5 - Bonnie Tyler - Total eclipse of the heart;
Quem nunca ouviu pelo menos o refrão dessa música não viveu os anos 80. E ela é brega. A cantora é brega. E o clipe... é uma aula sobre como se fazer um clipe brega. Pense numa coisa cafona para um clipe. Pombas voando? Tem! Velas? Claro! Cortinas esvoaçantes? Não poderiam faltar! Ninjas? É óbv... peraí! Ninjas?


Se você resolver assistir veja até o fim: o começo é bom, mas fica cada vez melhor.

#4 - Cindy Lauper - Girls just wanna have fun;
Sabe aquelas montagens de vídeo horrendas que fazem nas festas de 15 anos? Parece que a Cindy Lauper quis usar todos aqueles avançadíssimos "efeitos especiais" de uma vez só. Some-se a isso personagens caricatos e/ou monstruosamente feios, coreografias ridículas mal sincronizadas e o jeito extremamente peculiar da Cindy Lauper, e você tem essa pérola:



#3 - Zodiac Mindwarp - Prime Mover;
Acho que essa é a banda menos conhecida da lista, mas mereceu o podium com essa obra prima. Conteúdo: efeitos especiais que eram melhor não existir, performance exagerada, e, bem... a cena das doentes se transformando em tietes sedentas por sexo é impagável.



#2 - Twisted Sister - We're not gonna take it;
Os Twisted Sister já são uma aberração oitentista sem precisar de nenhuma ajuda, mas esse clipe no melhor estilo "coiote atrás do papa-léguas" colabora com essa condição. Esse clipe, parodiado na Ópera do Mallandro, entra em segundo lugar não apenas por ser tosco, mas por ter também rendido um filhote: um outro clipe deles mesmos (I wanna rock), que é igualzinho.



#1 - Men at Work - Down Under;
Nunca fui fã de Men at Work, mas achava que fossem uma banda mais séria. Porque raios alguém quereria fazer um clipe interpretando de maneira ridículamente literal cada uma das estrofes de uma letra que não faz sentido? E qual o significado do Koala de pelúcia? E quem foi o gênio da coreografia que bolou e treinou esses rapazes? São mistérios que nem o fim dos anos 80 conseguiu apagar. You better run, you better take cover.



Que posso eu dizer? É, eu realmente gosto de todo esse net-lixo.

21 de outubro de 2009

Bonner, Bonner...

Sapeando pelos canais da TV, me bati com uma entrevista que a Marília Gabriela fez do William Bonner, acabou de acabar (sempre adorei essa repetição). Peguei a entrevista do meio pro fim, não teve nada demais, nenhuma revelação bombástica, talvez eu a veja inteira depois. Provavelmente não vou fazer isso, mas fico curioso mesmo assim. Bem, lá vai: eu não sei se eu já externei isso, acredito que sim, mas eu tenho um respeito muito grande pelo Bonner. O sujeito é editor-chefe do JN há eras, e eu tenho certeza que essa não é uma posição pra qualquer um, e não é garantida simplesmente por ser um bom âncora, mas não é isso que me chama a atenção. O fato dele manter o tempo todo a sua humanidade bem visível aos olhos de todos que estiverem atentos pra ver é o que faz do Bonner um cara diferente. A ponto de ser tratado assim, "o Bonner", por gente que nem o conhece pessoalmente. Eu não sei definir exatamente por que eu tenho essa impressão, mas me parece mais fácil imaginá-lo chegando em casa e dando bronca nos filhos do que seria com a Ana Paula Padrão, ou o Didi, ou o Brad Pitt, ou o Kleber Bambam. Sei lá. Ele me parece gente, é só.

Acabei me desviando, porque o que eu realmente queria comentar é que, como é tradição, a Gabi pediu a ele uma frase pra encerrar a entrevista, e ele puxou da memória um trecho de um poema do Drummond que eu li uma vez, achei o máximo, depois de anos tentei encontrar de novo, mas não lembrava de uma linha pra digitar direito no google, e já tinha até desistido. Aqui está ele:

Quero
Carlos Drummond de Andrade                                                                       
Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.
Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?
Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.
Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.
Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

Obrigado, Bonner!

17 de outubro de 2009

Curtas de Viagem


Quinta passada, dia 08, saímos eu, meu irmão e minha mãe, daqui de Uberlândia-MG em viagem para Concórdia-SC, a cidade onde nasci e lar de quase toda a minha família materna. Era aniversário da minha mãe no dia 12, eu me formei mês passado, e isso serviu de pretexto para reunir a família.
Ao longo dessa semana, fui coletando uma série de observações pra postar aqui, mas só tive tempo de assentá-las nessa página agora. Aí vão:

Simpatia e hospitalidade são virtudes quase sempre associadas aos brasileiros. O que é estranho é quando um desses seres peculiares nascidos nesta região selvagem abaixo do Equador exagera na sua "brasilidade". Encontramos um desses "brasileiros convictos" à noite, num muquifo ao lado de um posto entre Marília e Ourinhos. Um sujeito muito incomum, parecendo uma mistura de Heihachi do Tekken com o Tião Macalé, colocado numa bodega no meio do nada. Ele ficou indo e voltando à mesa onde estávamos (éramos os únicos no lugar), chamou a gente de "vizinho" o tempo todo, perguntou mil vezes se estava tudo a contento, trouxe a neta no colo pra gente conhecer... dava pra ver que, na concepção dele, ele estava fazendo de tudo pra parecer simpático, mas o efeito foi muito mais de esquisitice. E o mundo tá cheio de gente assim, sufocantemente tentando ser simpático (e.g. vendedores de loja de roupas). O que me leva a pensar, afinal, qual é o objetivo de ser simpático? Não era fazer com que as pessoas se sintam à vontade?

Imaginou a mistura?

Viagens pra minha terra natal sempre me deixam nostálgico/melancólico, e eu sempre me pego pensando em como a minha vida teria sido se eu não tivesse saído de lá (evidentemente, não chegando a nenhuma conclusão, visto que eu saí), e me perdendo em lembranças há muito esquecidas. Na verdade, eu saí de Concórdia muito cedo, então as minhas lembranças mais antigas de lá são também de viagens de férias, notadamente de quando íamos visitar a minha bisavó. Para chegar à casa dela, atravessávamos a cidade, e nunca íamos além disso; na inocência dos meus 5 anos, eu achava que a cidade acabava nas árvores do quintal da Nonna, e me veio à mente nessa visita (há mais de 15 anos que eu não entrava nessa casa, desde que a minha bisa morreu, em 93) a ocasião em que, me esgueirando entre as pedras do quintal, eu vi que havia mais cidade além das árvores do fundo do lote, e pra mim isso foi uma descoberta comparável à de que a terra é redonda.
Concórdia não é o tipo de cidade estagnada, onde você passa anos longe e quando volta vê que nada mudou, pelo contrário, eu sempre me admiro com como a cidade tem crescido. Mas ao redor dessa casa tudo continua igual. O salão de beleza da Renilda ao lado, a Funilaria Aliança logo depois, na esquina o Bar do Tito com a sorveteria em cima, e do outro lado da rua a oficina mecânica num galpão de madeira, velho e mal cuidado, que sabe-se lá como continua de pé, tudo continua como há 15 anos atrás, à exceção da Nonna e do Nonno que não estão mais lá. A vida é assim, a gente vai ficando velho e cada vez mais sentimental.

Viajar de carro cansa, mas tem as suas compensações, e uma delas é que você fica muito mais atento ao caminho que viajando de ônibus, no qual você está muito mais preocupado em se desviar do chato que sentou ao lado, ou simplesmente dorme o caminho todo (meu caso). O tempo todo fomos brindados com belas paisagens, e até avistamos um lobo-guará cruzando a estrada na frente no nosso carro (de longe achei que era um potro, de tão grande, mas quando passamos perto ele ainda não tinha atravessado, era lindo). Na volta o tempo estava chuvoso e terrível pra se viajar, mas no final da tarde o sol apareceu apenas para produzir um arco-íris duplo e para anunciar que estava se pondo, e tivemos um duelo cromático: à frente estava tudo azulado, mergulhando em sombras, mas nos retrovisores víamos o mundo tingido de dourado. Quando finalmente tentei registrar isso, o flash da máquina atrapalhou e perdi o melhor ângulo de visão que tive.

Maldito flash automático!

Eu sempre me absurdo com a cara-de-pau com que as estradas são deixadas sem manutenção. Encontramos muitas obras de reparos ao longo do caminho, mas sempre em trechos de rodovia pedagiada. A teoria é que se eles deixarem as estradas do jeito que estão, em breve o povo vai estar implorando pra pagar pedágio, e o governo pode sair de fininho. Mas o mais ridículo é encontrar as placas avisando: "Atenção: longo trecho de pista com defeitos". É como mandar um recado: "A gente não vai consertar mesmo, então, se vira aí, e cuidado com os buracos".

Essa foto não é minha, mas é bem isso aí

A versatilidade das porcarias que a gente acaba roendo na viagem foi algo que me chamou a atenção. Porque nada tinha o gosto que se esperava que tivesse: o Halls parecia pedra sanitária com açúcar, o meu irmão comprou um Mentos sabor cola que tinha sabor de bala de coca-cola (que não tem gosto de coca-cola, apenas lembra vagamente algo que poderia se parecer com coca), o Trident tinha gosto de Vick Vaporub, e o biscoito de polvilho, comprado numa espelunca perdida no nada, bem... esse tinha gosto de biscoito de polvilho velho mesmo.

16 de outubro de 2009

Top de 5ª - 5 coisas que não podem faltar numa festa de família

E eis que surge o top de quinta que veio na sexta! Feriadão, viajando pra encontrar a família e comemorar o aniversário da minha mãe, não tive tempo de postar aqui. Mas a viagem me inspirou um top daquelas coisas que tem em toda família (ou pelo menos a gente gosta de pensar que tem, porque senão a sua família é que é esquisita):

#5 - Um parente que você nem conhece mais, mas se lembra de você: essa é cruel! Eu sempre tenho a impressão de que eu sou o membro mais relapso da famíla.
"- Quem é aquela ali no canto? / - É a Marcinha, filha do tio Nestor! / - Filha do tio quem?"

#4 - Uma pessoa idosa pra reclamar do quanto você está magro: pode ser vô, vó, tio, tia-avó, sempre tem algum velhinho benevolente pra dizer "mas como está magrinho!". Ou, na contra-mão, quando a pessoa está com aqueles quilinhos a mais (e louca pra se livrar deles): "ah, mas tá gordo, saudável!"

#3 - Muita comida, e alguém achando que não vai dar: e normalmente é a mesma pessoa do número anterior. Invariavelmente, essa bondosa senhora - geralmente é mulher - vai tentar colocar mais um quilo de feijão pra cozinhar ou assar um frango inteiro quando souber que vai chegar um convidado a mais. E o que é mais impressionante: mesmo diante de toda a sobra (via de regra, aproveitada nas próximas 4 refeições), ainda declara: "E quase que não deu mesmo!"

#2 - Um parente bêbado: é óbvio, esse personagem não pode faltar! Às vezes, são vários, ou mesmo todos os parentes que "estão com os copos", como se diz na terrinha. Nesse último caso, é o parente sóbrio que é a exceção; sempre tem um que não bebe. Mas o bebum de plantão geralmente é o mais comum: mesmo que estejam todos tontos, sempre tem um que se destaca. Seja um vetor para a discórdia, um chato insuportável, ou a alegria da festa, esse barrilzinho de chope é sempre uma presença confirmada!

#1 - Uma briga! Ah, sim, sempre tem alguma rusguinha em algum nível. Desde o cochicho escondido na cozinha até o barraco do tipo abertura-de-novela-do-Manoel-Carlos, o Pomo da Discórdia estará sempre presente nas mesas de reuniões familiares em todo o mundo. Famílias são feitas de pessoas, muitas pessoas, e a coisa que as pessoas mais tem dificuldade em fazer é viver em comunidade. O que é muito estranho, pois foi uma das primeiras coisas que a nossa espécie decidiu fazer, mas enfim... talvez seja essa a beleza da coisa, a sua família é o grupo no qual você pode brigar, e depois fica tudo bem. Ano que vem estão todos juntos de novo, e prontos pra outra!

10 de outubro de 2009

Break Up - Pete Yorn & Scarlett Johansson: uma mini-resenha


Como eu disse no último post, estou à procura de coisas novas para ouvir, mas poucas têm realmente merecido a minha compulsória segunda audição. Mesmo as coisas mais antigas ou não-tão-novas que eu tenho me obrigado a ouvir pra não continuar completamnte ignorante a respeito (como Blur, ou Muse) tem me decepcionado. Nessa busca por lançamentos que sejam dignos de figurar num top melhores de 2009, o disco que intitula esse post foi uma promessa empolgante a princípio.
Não que eu seja o tipo de pessoa sempre por dentro das coisas. A minha primeira reação ao saber do lançamento foi: "A Scarlett Johansson canta? E quem é esse tal de Pete Yorn?". Fiquei curioso, fui dar uma conferida.
Break Up (Separação, no sentido de namorados que terminam) apresenta suas canções sob o ponto de vista de namorados discutindo a relação. E todos nós sabemos como são relacionamentos que não dão certo. No começo sao empolgantes, atraentes, fascinantes, e você sempre quer mais. Com o tempo, algumas coisas começam a te irritar ou "não serem como antes", e quando você percebe já está louco pra terminar. É exatamente esse caminho que as 11 canções do disco de Pete/Scarlett tomam.
As 4 primeiras faixas são deliciosas e irretocáveis, um excelente trabalho. A partir da 5 música, a coisa começa a desandar, e o disco se encerra de modo enfadonho e melancólico, praticamente inaudível.
Só para exemplificar a diferença, aí vão a primeira (Relator)e a última (Someday) faixas do disco:
Relator

Someday


Talvez seja essa a intenção de Pete Yorn, que compôs 10 das 11 faixas (uma delas é um cover). Mas existem jeitos melhores de retratar um fim de namoro, sem que o disco fique chato. Vide Amy Winehouse, por exemplo. Back to Black é o pé-na-bunda mais divertido dos últimos tempos.

8 de outubro de 2009

Top de 5ª - 5 melhores discos que eu encontrei no último ano

Ok, não é exatamente um ano, e eu sei que tá um pouco cedo pra algo que parece ser uma lista de final de ano, mas eu resolvi soltar essa antes que alguns discos bons saíssem do período de abrangência. Eu gostaria que fosse um top 10, mas ultimamente tem sido bem difícil achar algo empolgante, então resolvi dar um tempo até o fim do ano pra ver se ainda aparece algo pra eu fazer um top 5 melhores de 2009. Entraram no top apenas discos relativamente novos, porque se fosse contar tudo o que eu ouvi no ultimo ano o top só teria albuns do Genesis.

#5 - Calexico - Carried to Dust (2008); Falando em Genesis, desde que eu ouvi Selling England by the Pound pela primeira vez e não achei nada demais (e depois me arrependi amargamente de ter verbalizado isso), eu adotei uma política de nunca ouvir um disco uma vez só. Com esse disco do Calexico foi assim. Ouvi uma vez, achei interessante, mas sem muita graça, e cada vez que eu o via, me dava vontade de ouvir de novo, e cada vez que eu ouvia eu passava a gostar mais dele. Um disco calmo, tranquilo, com muitas referências folk mexicanas e country, é o típico disco para se ouvir numa viagem longa (ou quando se tem um trabalho longo a ser feito).
Ouça Slowness:


#4 - Oasis - Dig Out Your Soul (2008); O que parecia ser um retorno triunfal depois de anos sem um lançamento de destaque parece ter se tornado uma despedida em grande estilo após a última e talvez derradeira briga dos irmãos Gallagher. De qualquer forma, se os líderes do Oasis não conseguiram maturidade pessoal para superar as suas diferenças, esse disco é a prova de que ao menos a maturidade musical foi atingida. Som pesado, denso e com uma psicodelia ao melhor estilo Beatles pós-Sgt Pepper, Dig Out Your Soul é um encerramento digno da representatividade musical que o Oasis teve nos anos 90.
A mais psicodélica do disco, To be Where There's Life:



#3 - Medeski, Martin & Wood - Let's Go Everywhere (2008); Eu não sei quem começou essa história de fazer discos pra crianças (até onde eu sei, muita gente já fez, mas eu só me lembro agora de Adriana Calcanhoto e Ziggy Marley), mas acho que tanto no exterior como aqui devem existir muitos pais cansados de ter que ouvir discos de "xuxas" junto com os filhos. E também muito artista bacana que se preocupa com o que os filhos vão ouvir. O fato é que o genial trio jazzista Medeski, Martin & Wood embarcou na onda e produziu um dos discos mais bonitinhos que eu já ouvi, e ao mesmo tempo com um apuro musical e uma acessibilidade muito grandes. Com certeza é algo que um possível filho meu vai escutar.
Confira a faixa-título:


#2 - The Raconteurs - Consolers of the Lonely (2008); Já há algum tempo eu me tornei fã do trabalho dos The White Stripes (e consequentemente do Jack White), e sabia do projeto paralelo dos The Raconteurs, mas nunca tinha ouvido nada deles até o fim do ano passado. Me sinto um pouco desconfortável em dizer isso, mas o The White Stripes fica no chinelo. A guitarra raivosa de Jack White encontra nos outros músicos do Raconteurs a correspondência que Meg White raramente conseguiu dar. Embora eu ainda goste do White Stripes por ser um trabaho mais autoral e tudo, acho que agora é ele que deveria ser o projeto paralelo. Sinto muito, Meg.
Uma amostra do disco, The Switch and the Spur:



#1 - Gogol Bordello - Super Taranta! (2007); Você está cansado de emos chorões, indies retrô e pseudo-intelectuais dominando a cena musical? Não se aflija, Gogol Bordello chegou para ajudar! Com uma inusitada mistura entre música cigana/leste-européia e punk/hardcore, esse disco do Gogol Bordello é uma celebração da vida sem frescura e de todas as suas possibilidades sensoriais, sem espaço para dramas internos ou dilemas existenciais e amorosos. "Se nós não estamos aqui pra fazer o que eu e você queremos fazer, e ainda ficar pirando por causa disso, porque diabos estamos aqui?" Esse é o verso que abre o disco, e é precisamente esse o espírito do álbum.
Como amostra, aí vai Wonderlust King:

4 de outubro de 2009

Pontos

Outro dia, quando eu estava escrevendo um outro post me bateu uma dúvida no uso dos pontos de exclamação e interrogação combinados (!? ou ?! - o correto é !?). Pesquisando no google, acabei sem querer encontrando esse texto logo abaixo, que eu achei nada mais que lindo. Pedi à autora se poderia reproduzí-lo aqui, e tendo obtido sinal verde, aí vai:
O ponto de interrogação é um ponto de exclamação cansado

“O ponto de interrogação é um ponto de exclamação cansado”. Esta frase, que não termina com um nem com outro, anda comigo, ora no bolso de ganga da memória, ora no saco preto das frases preferidas ao ombro. Anda comigo há tanto tempo, que já a considero um pouco minha, até porque não saberia a quem a devolver. Tomo conta desta frase inspirada há mais de uma década e cada vez que a digo, afago, toco, embalo ou penso, ela promete ficar comigo por mais algum tempo. O ponto de interrogação é um ponto de exclamação cansado. No princípio, era o espanto: a exclamação, a surpresa, o entusiasmo. Primeiro, abrimos os olhos e a boca de espanto. Depois, queremos saber mais e melhor, porquê e como. Começamos por falar alto, para em seguida recolher a voz e sintonizá-la com o pensamento. Substituímos o espanto pela dúvida, mudamos o tom do olhar e a correspondente inflexão de voz. O dedo que aponta, firme como uma seta indicadora - ! - , passa a ouvido que acolhe e guarda sons como uma concha feita com a mão - ? - . O ponto de exclamação é sonoro e intenso, amplia sentimentos (até intensifica a dor), tem algo de espalhafatoso. Talvez por isso, canse enquanto se cansa. O ponto de interrogação, quando anda sozinho (não raras vezes é visto na companhia do ponto de exclamação, criando um oxímoro visual), indica um sinal de dúvida, a introspectiva e atenta procura de uma resposta. O ponto de interrogação é mais filosófico do que o ponto de exclamação? Perguntar é melhor do que afirmar? Teremos de tomar partido entre uma interjeição e uma interrogação? O ponto de exclamação parece uma solução e lembra uma ordem. O ponto de interrogação amplia uma atenção, acolhe um interesse. O ponto de interrogação é um ponto de exclamação cansado. Cansará mais exclamar ou perguntar? Como em todas as dialécticas desta vida, precisam um do outro para existir mais e se conhecerem melhor. O ponto de exclamação tem uma doença nas costas, uma corcunda acumulada com o tempo e o desgaste, resultante do seu uso e abuso, por todas as crianças, muitas pessoas e alguns escritores. Tem na sua aparente deformação um excelente motivo para ir ao ortopedista dos sinais gráficos de pontuação e ficar sentado na sala de espera entre um travessão e duas aspas, enquanto ouve as queixas dos parêntesis da frente. Mas talvez haja outra explicação para tudo isto. E se o ponto de exclamação tiver sempre uma interrogação escondida? Um pedido disfarçado, como este: reparas em mim? Ouves-me? Lês-me? Dás-me um pouco da tua vida? Escreves um post sobre mim?

p.s. - O único ponto de exclamação deste texto não está ao serviço da frase, é apenas uma imagem. Já nem sei há quantos milhões de caracteres não desenhava um.

Não apenas o texto é lindo, como me atingiu de uma maneira inesperada. Me identifiquei. Eu comecei a fazer muito mais perguntas depois que me cansei de fazer exclamações. Hoje me restam poucos pontos retos. A maioria já está curvada pelo tempo.

1 de outubro de 2009

Top de 5ª - 5 regras para um bom top

Eu sempre gostei de tops e sempre tive interesse em elaborá-los. Muitas vezes esse interesse esbarrava em preguiça e falta de motivação (eu ia fazer um top pra mostrar pra quem?). Mas de tanto ler tops por aí, decidi superar essas antigas limitações e criar uma coluna semanal nesse blog: o Top de 5ª.
Confesso que primeiro escolhi o nome e o dia pensando que a maior parte dos meus tops serão tops 5, e só depois pensei no trocadilho. Gostei. Mantive. É possível que alguns tops que eu vou escrever sejam mesmo de quinta.

Como eu disse, de tanto ler tops por aí, também percebi um padrão, uma espécie de código de conduta que rege os topeiros e topeiras mundo afora. E resolvi estrear a coluna com um meta-top: um top sobre tops. As "regras" não estão em qualquer ordem específica, além não serem exatamente regras. O topista deve ter sensibilidade para ignorá-las quando necessário. Fugir às regras, como vocês vão ver, também é essencial a um bom top.

5 regras para um bom top:

#1: Atente para o tamanho: eu achava que um top completo era sempre um top 10. Triste engano. O tamanho de um top depende diretamente do número de variáveis disponíveis. Um top 10 bandas dos anos 70 seria um top de bom tamanho. Existe uma boa competição e dá pra incluir uma ou outra banda obscura no meio das figurinhas carimbadas. Um top 5 certamente seria injusto - muita gente de fora. Mas como você faria um "top 10 instrumentos de jardinagem mais úteis"? Você teria que fazer esforço pra se lembrar de 10, e se ninguém fica de fora, não é um top. É uma lista de compras, para a próxima vez em que você for à loja de ferramentas.

#2: Fuja do óbvio: por falar em deixar algo de fora... um top, geralmente, serve para mostrar às pessoas algo que elas não conhecem, ou ainda, para mostrar algo conhecido sob um outro ângulo. Um top que dá uma visão clichê sobre algo que todos já sabem, é como um manual de instruções para palito de dentes: ninguém precisa, ninguém deveria ler e ninguém deveria se dar ao trabalho de escrever.

#3: Não fuja tanto do óbvio: trate de temas conhecidos. Salvo raras exceções, um top que só fala de coisas que ninguém conhece não cativa o público. Se eu for falar sobre os 5 melhores arquitetos do Art Nouveau, todos os que não são arquitetos vão passar direto. Um bom top é um top que todos podem concordar ou discordar, ou ainda elaborar suas próprias versões.

#4: Seja breve. Aplique a Navalha de Ockham, um top não é uma dissertação. Se algo demora muito pra ter sua presença no top explicada, provavelmente tinha algo com um mérito muito mais evidente pra ser colocado no lugar.

#5: Google it! Pesquise informações, confirme nomes e datas. Nada melhor pra acabar com a credibilidade de um top do que um "Curt Kobain morreu em 1992".

Existem outros truques mais sutis, como "deixe alguém importante de fora" ou "coloque em segundo lugar quem todos pensam que deveria estar no topo", mas os considero corolários da regra #2. E mesmo assim não são regra: são truques reservados apenas aos experts - e dito isto, acho que vou demorar um pouco a usá-los.
 
BlogBlogs.Com.Br