24 de setembro de 2009

Sobre escrever merda

Há algum tempo eu venho dizendo a todos: o mercado editorial anda tão aquecido que qualquer um pode se arriscar a escrever o que quer que seja que provavelmente será publicado. Na verdade, parece que a coisa vai além, uma vez que estão precisando reeditar livros que já estavam fora do mercado.

Eu já vi muita coisa estranha, até já me mostraram o vídeo two-girls-and-a-cup (por favor, não se dê ao trabalho), mas essa matéria me pôs de cabelo em pé:
Livro 'Uma velha história da merda'* é reeditado no México

""O ato de cagar continua sendo um dos mais repetidos ritos de criação e realização, e, nesse contexto, todos somos artistas consumados", sentenciou o antropólogo Alfredo López Austin, ao apresentar a reedição de seu livro "Uma velha história da merda" (Una vieja historia de la mierda).
O livro que López Austin escreveu há 20 anos junto com o artista plástico mexicano Francisco Toledo foi reeditado recentemente e reúne "relatos e saberes mesoamericanos sobre as fezes".
Eu me admiro como tem gente capaz de ir tão longe com uma enrolação, e como tem gente que se deixa ser enrolada. Eu até acho que se pode extrair conhecimento e filosofia de quase qualquer coisa, até da merda mesmo. Mas... ritos de criação!? Artistas consumados!? Isso é conversa pra boi dormir! Deixa eu transcrever um possível diálogo entre esses dois:

López: Cara, eu estava precisando escrever um livro, pra tirar uma grana, sabe? Mas estou sem idéias...
Toledo: Que merda, hein? Eu tive uma crise criativa há um tempo atrás, foi fogo. Aí sabe o que eu fiz? Pegava qualquer idéia, e enrolava! Qualquer coisa pode ser feita desde que se tenha uma explicação bem elaborada.
L: Sério? E as pessoas não desconfiam?
T: Nunca! Se não entenderem a explicação, melhor ainda: você passa por gênio. Aliás, no mundo da arte é assim: quanto mais você chocar as pessoas melhor!
L: Sei não, na antropologia é tudo muito quadradinho...
T: Que tal se você agitasse um pouco as coisas? Pega algo sobre o que ninguém falaria! Joga um pouco de merda no ventilador!
L: Merda no ventilador... Merda, é isso! Todo mundo faz, sempre fez e sempre vai fazer! Dá um baita estudo antropológico!

(Meses depois)

T: E aí, bicho? Como vai aquele lance de merda?
L: Não muito bem... pesquisei uma coisa aí, outra lá, mas tem pouca bibliografia falando do assunto, ninguém leva a coisa a sério... tem umas informações bacanas, mas não dá pra montar um livro.
T: Ah, cara, enrola! Exagera! Se fosse uma obra de arte, eu faria montes de merda, inscrições com merda, a galeria da merda, com um tapete marrom e uma privada num pedestal no fim do percurso!
L: Puxa, você é bom nisso! Quer escrever comigo? Te coloco de co-autor!
T: Beleza, cara... começa assim: você cria merda, então é como um rito de criação, saca?

E por aí vai...

Voltando à realidade, os fanfarrões vão mais adiante:
"A ideia do livro, que reúne ilustrações sobre as fezes, surgiu porque ambos os estudiosos se sentiram atraídos pelos "enigmas da defecação"(...).
"Nas sociedades humanas, a cotidiana produção de excrementos se encontra na exata fronteira entre a natureza e a cultura, nos limites incertos entre a fisiologia, a comunicação simbólica e a mais pura criação coletiva e privada", ressaltou o especialista."
Aham, comunicação simbólica. Aham, criação coletiva - não quero nem imaginar como seria isso. Estes dois coprófilos, talvez coprófagos, e quem sabe até copromantes, possivelmente esbarraram na mesma brecha intelectual que Marcel Duchamp esbarrou no início do século XX: ao enviar um mictório como obra de arte para uma exposição em 1917, só pra sacanear os colegas, viu a sua piada ser levada a sério, e acabou se tornando um dos ícones do movimento Dada.
Isso é uma faca de dois gumes, pois, se por um lado é um passaporte para a vida mansa, por outro lado, qualquer coisa que você escrever depois disso será irremediavelmente levada a sério, e ninguém vai entender que você está fazendo uma piada. Você se torna escravo da sua fanfarronice. Esse antropólogo, por exemplo, está há vinte anos falando sobre merda. E eu acharia isso uma.

* Já cansei disso de batizar os livros com "Uma breve história do..." ou "Uma nova história da...". Eu esperava que os autores fossem mais criativos, e não se limitassem a copiar o Stephen Hawking. Só aqui, na estante na minha frente, eu tenho dois livros assim: Uma breve história do tempo (o original, do Hawking) e Uma breve história do mundo, de Geoffrey Blainey.

Um comentário:

EFGoyaz disse...

Anos antes já fizeram isso com a arquitetura e ainda o fazem. Afinal, em terra de cego....Claro que de modo bem menos corajoso. Aí já seria por demais insólito. Curti o marcador "picaretagem", rs.
O que me assusta é o quanto essas coisas ganham a atenção, os ouvidos e o respeito das pessoas. Não é "natural". Qualidade...te abandonaram faz tempo. Empecilho bobo essa tal qualidade. Saiu na Folha, tá valendo.

 
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