22 de setembro de 2009

Dia de...

Hoje foi o Dia Mundial Sem Carro. E também é a Semana Nacional do Trânsito. E também é a Semana da Doação de Órgãos. Tudo assim, com letra maiúscula, pra dar a verdadeira noção da importância do fato. Eu, por exemplo, vou passar essa semana toda pensando no trânsito, a não ser, claro, nos momentos em que eu estiver ocupado doando medula e o rim que eu tenho sobrando.

Deixando o sarcasmo de lado, eu não entendo completamente o porquê dessa mania de brasileiro (será só de brasileiro? Se eu estiver enganado alguém me corrija) de inventar uma data comemorativa pra tudo. Só hoje, dia 22/09, é Dia do Contador, da Banana, da Defesa da Fauna, da Juventude do Brasil, de São Tomás de Vilanova (que santo é esse?), do Ciclista, do Estudante Secundário e dos Amantes, sem contar os que eu já citei no começo. Tem dia de qualquer coisa, até das coisas mais esdrúxulas. Até Dia do Corno, 25 de novembro, com direito a musica do Reginaldo Rossi e tudo.

Talvez seja a combinação exata de preguiça e cordialidade que só o brasileiro tem. A gente quer ser simpático, quer lembrar de todo o mundo, reconhecer o valor de todo o mundo, mas sem ter muito trabalho. Tomemos um exemplo básico e mundial: o Dia das Mães. Sempre vem alguém com aquele papinho-frase-feita de que "dia das mães é todo dia".
E é.
É verdade, deveríamos honrar e respeitar nossas mães todos os dias, mas isso dá muito trabalho; já dá trabalho quando moramos com elas (mães são seres extremamente exigentes, não importa com relação ao que), o que dizer de quando moramos em outra casa, outra cidade? Quem telefona para os pais todos os dias para dar parabéns e agradecer por tudo o que eles fizeram? Dá trabalho mesmo. Então, para justificar a nossa preguiça, sermos cordiais, pseudo-atenciosos e aliviar a nossa consciência ingrata, nós fazemos isso apenas algumas vezes, e mais intensamente naquele dia pré-determinado do ano.


Já ligou pra sua mãe hoje?

Ok, eu entendo isso e respeito, mas e com relação aos dias estranhos, desnecessários ou repetidos? Como o Dia dos Adultos (15/01), ou o Dia da Velocidade (09/07) - vamos bater palmas pra ela, que não nos deixa chegar atrasados!

Além disso, temos aqueles dias que se pretendem a ser uma reflexão, ou conscientização, e que normalmente se tornam a) um fiasco; ou b) uma polêmica. O Dia Sem Carro é um caso do tipo fiasco (se não acredita, confira aqui, ou aqui). Os casos do tipo b mormente são relacionados a tentativas de inclusão de minorias, que geralmente tem o efeito de irritar as maiorias e as outras minorias não contempladas. Um dos exemplos, que eu achei uma coisa muito estranha quando eu vi pela primeira vez, é o Dia da Mãe Preta (destinado a lembrar das escravas que criavam os filhos dos escravocratas). O primeiro pensamento WTF que a gente tem é: e o dia da mãe branca? Bem, é claro que isso está mais pra provocação, mas há quem leve a sério a própria galhofa e faça a distinção entre as duas datas, como eu vi nesse site:

"Setembro é o mês das mães. Não das mães brancas, que podem sonhar com carro novo, celular, viagens... Para estas, foi reservado o mês de maio. Setembro celebra a mãe preta, a mãe de todas as raças, que amamentou sinhazinhas e sinhozinhos, serviu coronéis, plantou, colheu, construiu arranha-céus... e mora nas beiradas do mundo, mastiga quase nada, ninguém sabe como, resiste, procria e cria. "

A intenção era fazer um elogio, mas foi extremamente triste a tentativa: mais uma vez reforçou o preconceito de que preto é pobre, e que só branco tem celular, carro novo... Nessa tentativa pífia de fazer justiça racial com datas comemorativas, vem também o Dia da Consciência Negra, que até hoje só rendeu discussões do tipo "porque não existe dia da consciência (judaica, nipônica, hispânica, e, para os mais incisivos, ariana - escolha uma)?", e um feriado no dia 20/11.

Acho que é aí que reside o grande barato dessa criação massiva de datas. Toda dia-de-algo tem potencial pra se tornar um feriado, e como sempre criam feriados novos e nunca vi revogarem nenhum, talvez o grande objetivo por trás disso seja transformarem o ano todo num grande feriadão. Aí a gente só trabalha no carnaval.

Um comentário:

diogo disse...

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