28 de setembro de 2009

O Frangostein

Eu sou vegetariano, mas acho que vou falar pouco sobre vegetarianismo aqui. Esse não é um blog panfletário. Eu só estou dizendo isso porque vegetarianos veem o mundo com outros olhos. A maior parte das pessoas não pensa no que acontece nas "linhas de desmontagem" dos frigoríficos. E foi pensando numa delas que eu me espantei com algo que eu nunca tinha imaginado.

Estava eu no supermercado, passando por uma daquelas ilhas refrigeradas, quando me deparo com algo extremamente corriqueiro: uma montanha de frangos congelados. Não sei porque eu pensei na violência toda do processo, em como as partes são separadas sem a menor parcimônia. E me ocorreu uma idéia. Pra quem não está familiarizado com isso, os frangos congelados vem "recheados" com um pacote plástico contendo as partes menos nobres da carne: cabeça, pés, fígado, coração... É comum entre cozinheiros inexperientes esquecer de retirar o pacote plástico de dentro do frango antes de botá-lo pra assar, mas isso só acontece uma vez, pois o resultado é desastroso.

Enfim, o que me ocorreu, e nunca tinha me passado pela cabeça antes, é que essas vísceras, cabeça e etc. não pertencem necessariamente ao mesmo frango. Sou só eu, ou realmente é uma coisa muito estranha que esse monte de partes de diversos animais se unam pra criar a impressão de ser um animal só? Um Frangostein!

Ele vai puxar seu pé à noite

Eu não sou lá muito sensível à essa coisa de santidade de cadáver; pra mim um cadáver é só um monte de carne morta. Não há nada de estranho num pacote de coxas congeladas, por exemplo. Mas o que realmente me inquieta é que é tudo feito pra parecer que é parte de um mesmo animal. Pra quem acredita nisso, é algo que agrava a questão do carma: são vários carmas diferentes num mesmo pacotinho. Talvez seja tudo TOC de minha parte, mas as pessoas não estão sendo enganadas ao comprar vários pedaços de frango achando que estão comprando um frango só? Não existe algo no código de defesa do consumidor sobre isso?

24 de setembro de 2009

Sobre escrever merda

Há algum tempo eu venho dizendo a todos: o mercado editorial anda tão aquecido que qualquer um pode se arriscar a escrever o que quer que seja que provavelmente será publicado. Na verdade, parece que a coisa vai além, uma vez que estão precisando reeditar livros que já estavam fora do mercado.

Eu já vi muita coisa estranha, até já me mostraram o vídeo two-girls-and-a-cup (por favor, não se dê ao trabalho), mas essa matéria me pôs de cabelo em pé:
Livro 'Uma velha história da merda'* é reeditado no México

""O ato de cagar continua sendo um dos mais repetidos ritos de criação e realização, e, nesse contexto, todos somos artistas consumados", sentenciou o antropólogo Alfredo López Austin, ao apresentar a reedição de seu livro "Uma velha história da merda" (Una vieja historia de la mierda).
O livro que López Austin escreveu há 20 anos junto com o artista plástico mexicano Francisco Toledo foi reeditado recentemente e reúne "relatos e saberes mesoamericanos sobre as fezes".
Eu me admiro como tem gente capaz de ir tão longe com uma enrolação, e como tem gente que se deixa ser enrolada. Eu até acho que se pode extrair conhecimento e filosofia de quase qualquer coisa, até da merda mesmo. Mas... ritos de criação!? Artistas consumados!? Isso é conversa pra boi dormir! Deixa eu transcrever um possível diálogo entre esses dois:

López: Cara, eu estava precisando escrever um livro, pra tirar uma grana, sabe? Mas estou sem idéias...
Toledo: Que merda, hein? Eu tive uma crise criativa há um tempo atrás, foi fogo. Aí sabe o que eu fiz? Pegava qualquer idéia, e enrolava! Qualquer coisa pode ser feita desde que se tenha uma explicação bem elaborada.
L: Sério? E as pessoas não desconfiam?
T: Nunca! Se não entenderem a explicação, melhor ainda: você passa por gênio. Aliás, no mundo da arte é assim: quanto mais você chocar as pessoas melhor!
L: Sei não, na antropologia é tudo muito quadradinho...
T: Que tal se você agitasse um pouco as coisas? Pega algo sobre o que ninguém falaria! Joga um pouco de merda no ventilador!
L: Merda no ventilador... Merda, é isso! Todo mundo faz, sempre fez e sempre vai fazer! Dá um baita estudo antropológico!

(Meses depois)

T: E aí, bicho? Como vai aquele lance de merda?
L: Não muito bem... pesquisei uma coisa aí, outra lá, mas tem pouca bibliografia falando do assunto, ninguém leva a coisa a sério... tem umas informações bacanas, mas não dá pra montar um livro.
T: Ah, cara, enrola! Exagera! Se fosse uma obra de arte, eu faria montes de merda, inscrições com merda, a galeria da merda, com um tapete marrom e uma privada num pedestal no fim do percurso!
L: Puxa, você é bom nisso! Quer escrever comigo? Te coloco de co-autor!
T: Beleza, cara... começa assim: você cria merda, então é como um rito de criação, saca?

E por aí vai...

Voltando à realidade, os fanfarrões vão mais adiante:
"A ideia do livro, que reúne ilustrações sobre as fezes, surgiu porque ambos os estudiosos se sentiram atraídos pelos "enigmas da defecação"(...).
"Nas sociedades humanas, a cotidiana produção de excrementos se encontra na exata fronteira entre a natureza e a cultura, nos limites incertos entre a fisiologia, a comunicação simbólica e a mais pura criação coletiva e privada", ressaltou o especialista."
Aham, comunicação simbólica. Aham, criação coletiva - não quero nem imaginar como seria isso. Estes dois coprófilos, talvez coprófagos, e quem sabe até copromantes, possivelmente esbarraram na mesma brecha intelectual que Marcel Duchamp esbarrou no início do século XX: ao enviar um mictório como obra de arte para uma exposição em 1917, só pra sacanear os colegas, viu a sua piada ser levada a sério, e acabou se tornando um dos ícones do movimento Dada.
Isso é uma faca de dois gumes, pois, se por um lado é um passaporte para a vida mansa, por outro lado, qualquer coisa que você escrever depois disso será irremediavelmente levada a sério, e ninguém vai entender que você está fazendo uma piada. Você se torna escravo da sua fanfarronice. Esse antropólogo, por exemplo, está há vinte anos falando sobre merda. E eu acharia isso uma.

* Já cansei disso de batizar os livros com "Uma breve história do..." ou "Uma nova história da...". Eu esperava que os autores fossem mais criativos, e não se limitassem a copiar o Stephen Hawking. Só aqui, na estante na minha frente, eu tenho dois livros assim: Uma breve história do tempo (o original, do Hawking) e Uma breve história do mundo, de Geoffrey Blainey.

22 de setembro de 2009

Dia de...

Hoje foi o Dia Mundial Sem Carro. E também é a Semana Nacional do Trânsito. E também é a Semana da Doação de Órgãos. Tudo assim, com letra maiúscula, pra dar a verdadeira noção da importância do fato. Eu, por exemplo, vou passar essa semana toda pensando no trânsito, a não ser, claro, nos momentos em que eu estiver ocupado doando medula e o rim que eu tenho sobrando.

Deixando o sarcasmo de lado, eu não entendo completamente o porquê dessa mania de brasileiro (será só de brasileiro? Se eu estiver enganado alguém me corrija) de inventar uma data comemorativa pra tudo. Só hoje, dia 22/09, é Dia do Contador, da Banana, da Defesa da Fauna, da Juventude do Brasil, de São Tomás de Vilanova (que santo é esse?), do Ciclista, do Estudante Secundário e dos Amantes, sem contar os que eu já citei no começo. Tem dia de qualquer coisa, até das coisas mais esdrúxulas. Até Dia do Corno, 25 de novembro, com direito a musica do Reginaldo Rossi e tudo.

Talvez seja a combinação exata de preguiça e cordialidade que só o brasileiro tem. A gente quer ser simpático, quer lembrar de todo o mundo, reconhecer o valor de todo o mundo, mas sem ter muito trabalho. Tomemos um exemplo básico e mundial: o Dia das Mães. Sempre vem alguém com aquele papinho-frase-feita de que "dia das mães é todo dia".
E é.
É verdade, deveríamos honrar e respeitar nossas mães todos os dias, mas isso dá muito trabalho; já dá trabalho quando moramos com elas (mães são seres extremamente exigentes, não importa com relação ao que), o que dizer de quando moramos em outra casa, outra cidade? Quem telefona para os pais todos os dias para dar parabéns e agradecer por tudo o que eles fizeram? Dá trabalho mesmo. Então, para justificar a nossa preguiça, sermos cordiais, pseudo-atenciosos e aliviar a nossa consciência ingrata, nós fazemos isso apenas algumas vezes, e mais intensamente naquele dia pré-determinado do ano.


Já ligou pra sua mãe hoje?

Ok, eu entendo isso e respeito, mas e com relação aos dias estranhos, desnecessários ou repetidos? Como o Dia dos Adultos (15/01), ou o Dia da Velocidade (09/07) - vamos bater palmas pra ela, que não nos deixa chegar atrasados!

Além disso, temos aqueles dias que se pretendem a ser uma reflexão, ou conscientização, e que normalmente se tornam a) um fiasco; ou b) uma polêmica. O Dia Sem Carro é um caso do tipo fiasco (se não acredita, confira aqui, ou aqui). Os casos do tipo b mormente são relacionados a tentativas de inclusão de minorias, que geralmente tem o efeito de irritar as maiorias e as outras minorias não contempladas. Um dos exemplos, que eu achei uma coisa muito estranha quando eu vi pela primeira vez, é o Dia da Mãe Preta (destinado a lembrar das escravas que criavam os filhos dos escravocratas). O primeiro pensamento WTF que a gente tem é: e o dia da mãe branca? Bem, é claro que isso está mais pra provocação, mas há quem leve a sério a própria galhofa e faça a distinção entre as duas datas, como eu vi nesse site:

"Setembro é o mês das mães. Não das mães brancas, que podem sonhar com carro novo, celular, viagens... Para estas, foi reservado o mês de maio. Setembro celebra a mãe preta, a mãe de todas as raças, que amamentou sinhazinhas e sinhozinhos, serviu coronéis, plantou, colheu, construiu arranha-céus... e mora nas beiradas do mundo, mastiga quase nada, ninguém sabe como, resiste, procria e cria. "

A intenção era fazer um elogio, mas foi extremamente triste a tentativa: mais uma vez reforçou o preconceito de que preto é pobre, e que só branco tem celular, carro novo... Nessa tentativa pífia de fazer justiça racial com datas comemorativas, vem também o Dia da Consciência Negra, que até hoje só rendeu discussões do tipo "porque não existe dia da consciência (judaica, nipônica, hispânica, e, para os mais incisivos, ariana - escolha uma)?", e um feriado no dia 20/11.

Acho que é aí que reside o grande barato dessa criação massiva de datas. Toda dia-de-algo tem potencial pra se tornar um feriado, e como sempre criam feriados novos e nunca vi revogarem nenhum, talvez o grande objetivo por trás disso seja transformarem o ano todo num grande feriadão. Aí a gente só trabalha no carnaval.

Voltando à ativa

Finalmente resolvi começar a postar aqui no blog. Depois de muita enrolação, testes de layout e preparação de alguns posts na manga pra quando faltar assunto, decidi recomeçar as minhas atividades na blogosfera. Como esse blog é continuação de outro, deixo aqui o link pra quem quiser acessar os arquivos do (creio que hoje pouco recomendável) Idéias Insolitas original.

Sem mais, sejam bem vindos. Voltamos.
 
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