6 de junho de 2013

Seu Genaro

Seu Genaro acorda cedo. É sábado, mas em sua vida de aposentado isso guarda pouco significado. Seu Genaro segue a mesma rotina, religiosamente. Toma banho, penteia os cabelos que conserva com orgulho aos seus 72 anos, se veste com esmero e desce para a rua. Vai à padaria da esquina, pede "o de sempre", senta-se próximo à janela. Se é um dia de sol, compra um jornal na saída e lê na pracinha em frente. Neste sábado específico fazia sol, comprou, saiu.

Seu Genaro reflete no caminho à pracinha, como muitas vezes já fizera, que a rotina é o que o prende conectado ao mundo. Desde a aposentadoria, se agarra às atividades que lhe são familiares. Levou um tempo para se habituar à mudança de não ter mais o destino certo do emprego diário, mas encontrou e assimilou o novo paradigma. Essa é a sua zona de conforto, uma cadeia de coisas que dependem umas das outras. Um algoritmo. Se lhe falta água, não pode sair de casa. Como poderia, sem tomar banho? Perde-se o pente, toca a pedir à empregada que lhe compre outro. Não é apropriado que um senhor bem educado saia à rua com os cabelos desgrenhados. Não expressa esse temor a ninguém, mas se preocupa que possam um dia querer fechar a padaria. Não teria mais onde ir. O seu ritual diário é a sua âncora de sanidade em um mundo que deixou de compreender.

Ao chegar à pracinha, Seu Genaro olha com censura para um grupo de jovens. Nenhum deles penteou os cabelos ou fez a barba naquele sábado pela manhã. Pela aparência deles, provavelmente não haviam sequer tomado banho, ou ao menos dormido. Arruaceiros, que passaram a madrugada de sexta na rua.

O desleixo dos jovens é algo que Seu Genaro também não entende. Esses garotos de vinte e poucos não se importavam com nada, nem com eles mesmos. Cabelos de qualquer jeito, barba por fazer, vestiam a primeira coisa que encontravam no guarda-roupa. O futuro seria certamente negro, mas para Seu Genaro o futuro não importa muito. Só esperava que não tirassem dele a padaria.

O jornal - porque as letras ficavam cada vez menores? - não conseguia prender a atenção de Seu Genaro. Mais garotas e garotos malcuidados se uniam ao pequeno grupo inicial. Chegavam conversando, fazendo barulho, se apresentando. Alguns carregavam faixas. Entreouvindo os comentários de um grupo próximo, ficou sabendo que haveria uma manifestação. Algo sobre direitos dos animais e testes de cosméticos. Seu Genaro fez uma careta. O que tinham aqueles moleques a ver com isso? A julgar pela cara deles, nenhum usava cosmético algum. Muito menos eram animais, embora para Seu Genaro não estivessem muito longe.

Lembrou-se de quando era jovem e acompanhara a luta contra a ditadura. Aquilo era uma causa. Recém saído da universidade, chegou a ir a encontros políticos, antes que o emprego e o casamento o fizeram evitar riscos. Não ligava muito para capitalismo ou socialismo, para ele a luta importante era pela liberdade de expressão. Agora não estava tão certo. Era para isso que estavam usando o que a sua geração suou para conseguir? Todas as grandes lutas já haviam sido travadas. Esses jovens já receberam tudo pronto e ainda não estavam contentes. Crianças mimadas, buscando um motivo qualquer para se rebelar.

Um dos garotos veio até Seu Genaro e entregou um panfleto. Era sobre uma grande empresa alimentícia que utilizava óleo vegetal proveniente de fontes ilegais na Malásia. Foi a gota d'água. Seu Genaro esboçou perguntar "você é Malaio?" ao garoto, mas este já estava longe. Levantando-se, o septuagenário atravessou a rua e tomou o ônibus. Mais um minuto na praça e se atrasaria para seu jogo de bocha. Sentado no assento reservado, Seu Genaro resmungava: "Esse mundo está é perdido."

29 de novembro de 2012

História Insólita #7 - Dormindo com o inimigo

Convivo com um serial killer. Todos os dias, ele dorme ao meu lado. Cada vez mais me convenço de que é apenas uma questão de tempo até que, em um de seus frequentes surtos, ele avance sobre mim e me faça em pedaços.

No princípio, quando ele me acolheu em sua casa, não reparei nada estranho. Não tardou, porém, para que eu presenciasse um de seu acessos de raiva. Irrompendo no quarto, batendo a porta, desferiu um soco no armário. Não foi um soco leve, comedido. Foi um senhor murro, que o deixou resmungando de dor na mão. Quem levou a pior foi o armário, cuja porta rachou imediatamente num estalo. Até agora, uma semana depois, ela está no mesmo estado, semipendurada, sem nenhum conserto.

Esse foi apenas o primeiro de uma série de atos descontrolados. Na última ocasião, novamente entrando abruptamente no quarto enquanto balbuciava palavras incompreensíveis, atacou o banquinho que ficava ao lado da escrivaninha. Golpeando-o no piso, o desfêz em pedaços. Nada restou do banco além de pedaços de madeira desconjuntados. E a única coisa que pude fazer foi assistir à cena, completamente incapaz de me mover.

Eu sei que cedo ou tarde ele virá até mim. Nem que seja quando não houverem outras opções. Mas não acredito que irá demorar. Eu já reparei no modo como ele me olha. Quando eu vim para esta casa, esperava que seria bem cuidada. Talvez até amada. Ilusões juvenis. Agora compreendo porque ele me queria aqui. Não tenho dúvidas do destino que teve minha antecessora. É só uma questão de tempo.

Acabo de ouvir a porta bater lá embaixo. Estou com um mau pressentimento. Já conheço a forma como os pés dele batem na escada quando ele está daquele jeito. Sim, ele acabou de entrar no quarto. Transtornado. Dando voltas e voltas e voltas, vociferando contra qualquer coisa invisível. Olhou pra mim. Oh, não, ele olhou pra mim! Eu estou completamente indefesa. Ele está se aproximando, bufando.

É a minha hora. Adeus. Deixo esse relato como meu último testamento.

Adeus! Nunca pensei que seria tão curta a minha vida como mesa de cabeceira.

19 de outubro de 2012

História Insólita #6 - Comédia Romântica Vagabunda


Encontraram-se na cozinha de um apartamento, numa festa de faculdade. Otávio teve aquele aviso, aquele lampejo, aquela sensação tão indescritível quanto facilmente reconhecível por qualquer um que já tenha sentido o mesmo. O tipo de intuição que faz com que você ache que essa pessoa, que você nunca viu na vida, sobre a qual você não sabe absolutamente nada, possa ser a pessoa que tem a resposta para tudo que você sempre buscou e nunca soube definir. Mais do que isso, Otávio queria acreditar (e por isso acabou acreditando) ter visto nos olhos dela o mesmo tipo de faísca que se acendera dentro de si.

Bastaram cinco minutos de conversa para que se convencesse de que estava certo. A conversa com Tamara fluía como se ambos se conhecessem há anos. Gostavam dos mesmos filmes, tinham gosto semelhante para música, e criticavam os mesmos tipos de comportamentos nas outras pessoas. Uma identificação instantânea. Até discordavam em algumas coisas, o que era definitivamente um bom sinal. Engana-se quem pensa que para um casal dar certo, eles devem partilhar das mesmas opiniões. O importante é ter opiniões sobre os mesmos assuntos, sejam elas quais forem. Discordar, mais que bem vindo, é imprescindível.

Tudo corria perfeitamente bem, até que Otávio resolveu sondar em que terreno estava pisando. Tomando o cuidado de não parecer óbvio demais, perguntou:

- Você não é da Engenharia, é?
- Não...
- Imaginei. Nunca te vi pelos corredores do curso. Está aqui com alguém?
- Sim. Meu namorado. Aquele ali.

Ao ouvir a palavra "namorado", o estômago de Otávio deu um nó, e ele precisou se controlar para não deixar os braços caírem ao lado do corpo. Mas o desânimo maior estava por vir, e veio quando Tamara apontou para um primata bípede, no meio da sala do apartamento, cuja forma se assemelhava à de um neandertal, e que vociferava para todos que pudessem ouvir que o Ronaldo Fenômeno era muito mais que o Messi jamais seria, e isso se devia ao simples fato do primeiro já ter defendido "o manto sagrado do Coringão".

Otávio reconhceu-o, óbvio. Todos o conheciam. Atendia pela alcunha de Romão, e era um dos veteranos do curso de Engenharia. Ninguém sabia ao certo há quanto tempo ele estava lá. Nunca aparecia nas aulas, mas estava em todas as festas. Entre outras formas carinhosas, era também conhecido como "irmão mais novo do Shrek", ou, como era mais divertido, "Sherekinho". Otávio teve que abrir um meio-sorriso amargurado para sua sorte. Tal como no maior dos clichês de uma comédia romântica vagabunda da Sessão da Tarde, a garota de seus sonhos namorava um idiota.

Continuaram conversando. Romão pareceu não dar bola para o fato de que a namorada conversava com outro sujeito. Na verdade, aparentemente mal se lembrava que Tamara estava no recinto. A voz de Romão ribombava pelo apartamento, impedindo que qualquer um ouvisse qualquer outra coisa que era dita, e como Tamara e Otávio não estavam interessados em opinar sobre quem era a mais gostosa entre as atrizes da novela, retiraram-se para a varanda.

Quanto mais Otávio conhecia Tamara, menos podia conceber o que ela via em Romão e como os dois podiam estar juntos. E a dúvida tornou-se incompreensão, e a incompreensão tornou-se indignação, até o ponto em que ele explodiu em um surto romântico:

- Como você pode estar com esse cara? Com esse grosso? Vocês não tem nada a ver! Ele nem te dá atenção, não te dá a atenção que você merece! E você merece muito mais do que ele! Eu posso ser muito mais do que ele. Eu te daria muito mais do que ele! Eu te daria a lua e as estrelas se você me pedisse!

- Vocês querem parar com essa merda!?

Era a voz de Romão. A música tinha parado, a conversa tinha parado, e estavam todos assistindo a cena.

- Onde vocês pensam que estão? - continuou Romão. Nós estamos aqui do lado, a dois metros de distância, acham que a gente é surdo?

Tomado de coragem, ou talvez apenas embalado pela cerveja, Otávio decidiu enfrentá-lo:

- Não faço questão de esconder o que eu disse. Eu acho isso mesmo. Você não merece uma garota como a Tamara!

Todos ficaram tensos. Todos, exceto Romão, que relaxou, e abriu um sorriso sarcástico.

- Ah... conheço o teu tipinho. O velho arquétipo do Dom Quixote. Você acha que é melhor do que os outros, que é o cavaleiro em busca da verdade e da justiça, que salvará as donzelas em perigo. Pois deixa eu te dizer uma coisa: quando eu conheci a Tamara, ela estava sozinha. Solteira. Se algum de nós está errado aqui, é você. O senhor, cavaleiro da armadura brilhante, é só mais um babaca tentando roubar a namorada dos outros. A mesma coisa que se fosse eu que estivesse fazendo, você não iria pensar duas vezes antes de condenar. E mesmo que você ache que é por uma boa causa, o que acontece com a sua donzela virginal no momento em que ela escolhe ir com você? Se torna uma qualquer, que trai o namorado com o primeiro malandro que vem com uma conversa mole como a sua. O resultado da sua jornada, nobre andante, é que o cavaleiro altruísta e a mocinha inocente se tornam automaticamente um velhaco e uma rameira. Vambora daqui.

E enlaçando Tamara pela cintura com a delicadeza de uma retro-escavadeira, Romão se encaminhou para a porta, resmungando:

- Lua e estrelas, vê se pode... além de tudo faz promessa que não pode cumprir!

Saíram, mas não antes de Tamara lançar um olhar para trás e jogar uma piscadela bem safada para Otávio.

Romão tinha razão. A vida não é uma comédia romântica vagabunda da Sessão da Tarde. Otávio ficou ali, em pé, na varanda, amaldiçoando a lógica e a realidade.

29 de abril de 2012

Não-Conto Bêbado

- Não vou escrever um conto hoje - disse o contista, bêbado, emprestando um tom de desafio à voz arrastada - porque estou bêbado!

Bebera com o objetivo de escrever um conto embriagado, e tendo mudado de idéia, sentou-se ao computador, e para provar sua firmeza de despropósitos, escreveu um não-conto.

17 de março de 2012

História Insólita #5

Osvaldo olhou para o papel e viu o sangue. A água da privada estava tingida de vermelho. Não era a primeira vez. "Amanhã mesmo marco a consulta", pensou, pela décima noite seguida. "De amanhã não passa."

Vinte e três amanhãs depois, Osvaldo entrava no consultório. Relatou ao médico os sintomas. O sangramento, a constipação. O médico desconfiou, mas pediu um ultrassom para ter certeza.

No dia seguinte, enquanto a médica espalhava o gel frio e deslizava o aparelho de ultrassom sobre o seu ventre proeminente, Osvaldo se sentiu meio idiota. "É como se eu estivesse grávido!" Com um sorriso amarelo, tentou fazer uma piadinha sobre a situação para a médica, que reagiu com frieza e não comentou nada. Osvaldo voltou para o carro com um certo constrangimento, mas ainda assim achando aquilo tudo um tanto divertido.

Na semana seguinte, comentou a impressão com o médico na consulta de retorno. "Imagina, doutor, se você descobre que eu estou grávido?" "Só se o senhor engravidou de uma tênia," respondeu o médico. "Você tem uma das grandes. Uns dez metros, eu diria".

Osvaldo ficou horrorizado em pensar que dividia o corpo com um parasita mais comprido que o seu apartamento. "Há quanto tempo ela está aqui?" "Não dá pra saber. Uns dois anos, talvez." Com a receita do vermífugo em mãos, Osvaldo foi direto pra farmácia, comprou o remédio e rumou para o apartamento - que continuava menor que a tênia.

Era uma coisa nova. A princípio, se concentrou no tamanho. Buscava uma referência para criar uma imagem mental do parasita. 10 metros. Comparava-a com o tamanho da estante, o comprimento da sala, até saiu no corredor do prédio para imaginar a tênia lá, esticada como uma fita métrica.

De repente se deu conta que o que era importante não era o tamanho, mas o tempo. Não importava o quão grande a tênia fosse, o curioso era o fato de ela estar ali dentro há dois anos. Pensou nas coisas que havia feito nesse período. Em tudo incluía o verme, como um espectador invisível de cada noite de bebedeira, de cada gol no futebol. No sexo. A tênia tinha ido para a cama com todas as mulheres com quem ele transara nesses dois anos.

Olhou para a caixa de vermífugo na mesa. Pensou na tênia. 10 metros. Dois anos. Com ele em todos os momentos. Não teve coragem. Jogou o remédio na gaveta, e fechou-a com ruído.

Decidiu que gostava da tênia. Gostava da ideia de ter um animal de estimação tão único. E tão perto. Comendo o que ele comia. Compartilhando o seu sangue.

Passou a nutrir o verme como uma mãe dedicada. Procurava modos de interagir com a tênia. Quando ele comia açúcar, ela se agitava. Osvaldo se deliciava em sentir o parasita se revolvendo em seu interior após uma cocada. Gostava de pensar que a tênia estava feliz.

Os amigos acharam estranho. "Dez metros!", contava com orgulho sempre que conhecia alguém novo. E passou a chamá-la de Valtênia.

Um dia, Osvaldo adoeceu. Uma virose qualquer. Enfraqueceu. Nada surpreendentemente, Valtênia continuou a sugar-lhe o sangue de maneira impiedosa. Pálido, desmaiou uma manhã em frente a todos no escritório.

Osvaldo acordou no hospital. Vendo a medicação na bolsa de soro, compreendeu tudo. Não precisava explicação. Valtênia tinha-se ido.

Quando o médico entrou no quarto, encontrou Osvaldo chorando copiosamente. E balbuciava: "Meu bebê... meu bebê..."

28 de outubro de 2011

História Insólita #4 - Parte 2


Na manhã seguinte, o homem cumpriu a promessa. Entre uma grande quantidade de plantas conhecidas, organizadas com esmero no quintal, havia um pequeno arbusto com um palmo de diâmetro e menos que isso em altura num canto do jardim de ervas do romeno. Uma planta com folhas estreitas e aveludadas, num arbusto quase esférico bastante fechado. O senhor lentamente abaixou-se, coletou uma folha, estendeu-a ao chef com o permanente olhar de canto de olho, e com um sorriso na extremidade dos lábios pediu que a mascasse. O chef assim o fez. Em nenhum momento o olhar do romeno deixou o rosto do chef, como se estivesse esperando pela reação.

A folha tinha um gosto ligeiramente amargo, com um toque cítrico, mas extremamente leve, algo que só um paladar muito apurado conseguiria detectar. Para 80% das pessoas, ponderou, a folha teria gosto de nada, e com certeza o sabor se perderia por inteiro ao ser misturado com outros ingredientes. Como se lesse os seus pensamentos, o romeno disse: "No começo é bem leve mesmo, mas o sabor fica mais intenso com o passar do tempo". Sem muito interesse, e um pouco decepcionado, o chef perguntou o nome da planta. O romeno escreveu um nome em latim num pedaço de papel que entregou ao hóspede, e após o café da manhã a viagem prosseguiu direto para Bucareste. Ao atravessar a vila, não viu uma alma viva.

Alguma coisa o incomodava. Algo difícil de dizer o que era. Até que ele percebeu. À medida que o gosto do café bebido minutos antes de sair ia se desvanecendo, o gosto amargo-cítrico da erva continuava latejando no fundo da língua, ainda leve, mas inconfundivelmente mais perceptível. Não importava o que ele comesse ou bebesse, o sabor persistia enquanto ele chegava em Bucareste, entregava o carro alugado, durante toda a noite no hotel e na viagem de volta ao Brasil. Ao desembarcar em São Paulo, o gosto da erva já estava tão forte quanto o de hortelã recém macerada, persistindo aquele amargo-cítrico que por uma dessas associações inexplicáveis o lembrava de um tom verde oliva.

Voltou ao trabalho, no restaurante do qual era sócio, mas as coisas não eram como antes. A clientela notou a diferença. No começo, apenas os clientes mais exigentes reclamavam do tempero que ficara mais forte. O chef não conseguia mais desvincular o sabor dos pratos no restaurante do gosto da erva, que mesmo depois de dias continuava a ficar cada vez mais intenso. Na tentativa de sobrepujar o persistente amargo-cítrico, mandava os subchefs carregarem no tempero, o que faziam a muito contragosto. Conforme a recusa de pratos ficava cada vez mais frequente, o clima na cozinha começou a pesar.

Passadas duas semanas do encontro com o romeno, ele decidiu que precisava de ajuda. Algo estava definitivamente errado, aquilo não podia estar acontecendo. Não sentia o gosto de mais nada que não fosse o sabor da erva misteriosa. No princípio, o sabor da comida e bebida se misturavam ou superavam o amargo-cítrico da planta romena, mas agora era insuportável. Nada conseguia tirar o sabor da sua boca, qualquer coisa que comesse ou bebesse só fazia potencializar a sensação. Comer o que quer que fosse era como mastigar bocados da erva, até beber água era como sorver a seiva da planta. Foi ao médico, descreveu os sintomas, fez todos os exames possíveis. Não havia nada errado com ele fisicamente, nenhuma substância anormal foi encontrada em sua saliva, o problema devia ser psicológico.

No restaurante, tudo ia de mal a pior. O estresse atingira um nível crítico. A frequencia de clientes caíra drasticamente, nenhum dos regulares retornava, os críticos culinários escreviam artigos destruidores. Apenas o renome do chef continuava atraindo clientes, mas isso não seria o suficiente por muito tempo. Frustrado, sem conseguir distinguir o sabor do que era preparado, gritava com os auxiliares, mandava todos os cozinheiros refazerem os pratos diversas vezes. O sabor se tornara tão intenso que começara a afetar os outros sentidos. O olfato já estava completamente comprometido. Sentia em tudo o cheiro do amargo da erva. Via tudo atrás de um filtro verde-oliva. Os subchefs e auxiliares cochichavam entre si, lançavam a ele olhares enviesados. Nos olhares tortos, o rosto dos cozinheiros se tranfigurava, por uma fração de segundo, no rosto do romeno e seu sorriso de canto, agora mais zombeteiro que nunca, apenas para voltar ao normal num piscar de olhos no semblante assustado do auxiliar, atemorizado pela expressão de terror que a face do chef assumia.

O sócio decidiu por afastá-lo. Ele não ofereceu resistência, sabia que não estava em condições de continuar trabalhando. Foi ao psiquiatra. Contou tudo, do encontro, da erva, das alucinações. O psiquiatra não acreditou. Seu diagnóstico, já que não havia causa física, era de que uma experiência extremamente traumática havia ocorrido durante a viagem, e que a história do restaurante romeno era uma fantasia criada para sobreescrever a memória real do que acontecera. Prometera ao chef que ele ficaria bem, que trabalhariam em sessões semanais até derrubar o bloqueio, e receitou um antipsicótico poderoso para estabilizar e conter a progressão do delírio.

O chef acreditou no diagnóstico. Ele queria acreditar no diagnóstico. Era uma explicação suficientemente razoável. Comprou e tomou a medicação diligentemente. O efeito da droga só piorava a sensação. Sentia-se mais devagar, mais desconectado do mundo, menos responsivo aos estímulos externos. Quanto mais a medicação o isolava do mundo, mais rápido o sabor da folha aveludada crescia em suas papilas, mais esverdeada ficava a sua visão, os sons mais distantes. Estava difícil até mesmo pensar em qualquer coisa que não fosse a sensação intoxicante e enlouquecedora daquele amargo-cítrico infernal.

Na segunda sessão, contou ao médico o agravamento dos efeitos. Embaçado atrás do filtro verde-oliva, o semblante do psiquiatra pareceu desconcertado. Sugeriu um aumento da dosagem. O chef fingiu concordar. Percebeu que o psiquiatra não seria de grande ajuda. Decidiu que só havia uma coisa a ser feita: voltar à Romênia e encontrar a estalagem. O homem sabia como parar aquilo. Tinha de saber.

Saiu direto do consultório para o aeroporto. Comprou passagem no primeiro voo disponível para a região. Depois de inúmeras escalas e conexões, desembarcou de novo em Bucareste. Mal articulando as palavras, teve de implorar e pagar uma fortuna para um táxi levá-lo pelos mais de 300 quilômetros até a entrada da vila. O táxi se foi. O filtro verde estava quase opaco. O mundo era nada mais que vultos em tons mais claros ou mais escuros da mesma massa verde oliva. Com dificuldade, distinguia a estrada e o volume das casas de cada lado da via. Como antes, não encontrou ninguém pelo caminho. Não sabia dizer se o silêncio era real ou se a sensação crescera a ponto de ensurdecê-lo. Aqui e ali, obtinha um vislumbre de uma janela quebrada, uma porta lacrada com táboas, uma parede em ruínas. A vila parecida abandonada há décadas. Deixou o instinto guiá-lo. Reconheceu os contornos da estalagem. Nenhum sinal do romeno. Não foi preciso bater, não havia porta. Contornou as mesas com cadeiras quebradas empilhadas sobre elas, passou cambaleando pela cozinha repleta de teias de aranha, saiu para o quintal. Sentia o sabor em cada poro do seu corpo, seu sangue tinha gosto de seiva amarga e cítrica, e ele sentia o sabor na superfície de suas veias. O verde-oliva diante de seus olhos ficava cada vez mais escuro. Não estava mais sequer consciente do silêncio em torno de si. Pisava como se caminhasse imerso na água, sem sentir o chão sob os pés. Agia por puro instinto. Atravessou o quintal coberto pelo mato de anos sem manutenção, até divisar uma diminuta forma semi-esférica no chão. Tombou de joelhos a dois metros da planta. Tudo escurecia. Esticou a mão para o pequeno arbusto, num último esforço, deitando de ventre no chão. Tocou uma folha aveludada com a ponta dos dedos. A mão caiu. Não havia som, toque, nada diante de seus olhos. Não havia pensamento ou idéia que não fosse o sabor. 

Ele era o sabor.

27 de outubro de 2011

História Insólita #4 - Parte 1


"O sabor fica mais intenso com o passar do tempo", disse o senhor. Ele devia ter desconfiado do sorriso zombeteiro daquele estranho homem de meia idade que encontrara numa vila perdida no meio do nada no interior da Romênia.

Ele era um chef de cozinha renomado, em uma viagem de férias pela Europa. Cansado dos grandes centros, nos quais todos os restaurantes interessantes já eram familiares, e de cujos chefs era conhecido ou mesmo amigo íntimo, resolvera sair a esmo com um carro alugado descobrindo as paisagens e sabores de recantos pouco explorados pelos turistas. As paisagens sempre surpreendiam, mas ao se aproximar do fim da segunda semana, as pequenas vilas e lugarejos que se sucediam já começavam a parecer todas iguais, e nenhuma nova receita ou ingrediente secreto havia sido descoberto. Ele estava começando a aceitar a tediosa verdade de que não havia mesmo nada novo sob o sol.

No final do segundo dia do último trecho da viagem, uma jornada de três dias entre Zagreb e Bucareste, de onde pegaria o voo para retornar ao Brasil, resolveu parar para jantar num pequeno restaurante logo após a fronteira entre a Sérvia e a Romênia. O lugar era o perfeito estereótipo do restaurante de vila européia: uma casa antiga (300? 400 anos? Ele especulava), assoalho, pilares e vergalhões de madeira gasta pelo tempo, floreiras nas janelas pequenas que deixavam passar muito pouco da luz do sol que já morria no horizonte, mal auxiliadas pela iluminação tímida de arandelas de ferro fundido, mesas de madeira robusta cobertas pelo velho clichê (a toalha de mesa xadrez branca e vermelha). No extremo oposto à entrada, uma tabuleta com a tradução inglesa "Vacancy" sob o emaranhado indecifrável de caracteres escritos em romeno, pendurada sobre o balcão atrás do qual se viam prateleiras abarrotadas de garrafas empoeiradas, indicava que o estabelecimento era também uma estalagem. Um local sem luxo, mas ainda assim convidativo e pitoresco.

Aparentemente, era um desses lugares geridos pela família. Todos conhecem um lugar assim: um velho magro que fala pouco, uma senhora gorda mandona e uma filha adolescente que passa metade do tempo esperando que um dos hóspedes se apaixone por ela, case e a leve embora dali o mais rápido possível. Porém, não havia senhora gorda ou filha adolescente, apenas um senhor no final da casa dos cinquenta, de postura ligeiramente encurvada e olhar de esguelha.

O chef entrou, cumprimentou a figura de rosto encovado atrás do balcão, e perguntou se falava-se inglês ali, já se preparando para sair perante uma expressão de incompreensão do interlocutor, algo que já acontecera diversas vezes na viagem. Para sua surpresa, ouviu um "of course", com o característico sotaque do leste europeu. O homem falava um inglês truncado, mas relativamente fluente, e a comunicação acontecia sem problemas. 

O chef sentou em uma das mesas disponíveis - o que correspondia a qualquer mesa no restaurante, uma vez que o salão estava completamente vazio - e pediu o especial da noite, acompanhado de um vinho desconhecido de produção local. Ambientes assim, pensava ele, são contrários à sofisticação. Após o pedido, o velho atravessou a porta que presumivelmente levava à cozinha e não voltou. Nenhum cliente entrou. O sol acabou de se pôr, deixando o ambiente à mercê da iluminação pobre das arandelas. Não havia qualquer música ambiente, e o ar frio do início da noite já começava a soprar pelas frestas entre as táboas do assoalho. Foram vinte minutos de crescente desconforto.

Quando ele já considerava as hipóteses de ir embora, verificar se o velho não tinha morrido nos fundos do restaurante ou se preparar para correr caso algum psicopata irrompesse da cozinha com uma faca, o mesmo homem voltou empurrando um carrinho vagarosamente, como que apreciando o som das rodinhas que rangiam, ecoando no salão silencioso.

A refeição estava perfeita. O conforto da comida quente dissipou de imediato a sensação de ansiedade causada pela espera, embora a consciência daquele olhar enviesado do romeno fixo sobre ele não fosse exatamente algo agradável. O vinho, entretanto, logo deu um jeito nisso. Após a retirada dos pratos (sempre o mesmo homem executando todas as tarefas), o senhor veio perguntar se ele tinha gostado da comida. O chef fez mil elogios à comida, dizendo com sinceridade que fora a melhor refeição que tivera na viagem, e insistiu em conhecer o chef da estalagem. O homem assumiu um semblante austero e disse: "Impossível. Ele já saiu." A secura das palavras do velho o impediu de argumentar que ainda eram apenas oito da noite. Engajaram-se então em uma animada discussão sobre ervas, assunto a respeito do qual o romeno parecia ter profundo conhecimento, e durante a conversa o chef manifestou a sua decepção pela falta de novidade na viagem. O homem então disse já estava tarde e escuro no seu quintal, mas que se o chef ficasse na estalagem, pela manhã o apresentaria a uma erva aromática que não se encontrava facilmente e que já caíra em desuso há muito tempo. Ele agradeceu a oferta, e como já houvesse bebido sozinho toda a garrafa de vinho, decidiu subir para o quarto de imediato. Recém deitara o corpo sobre a cama quando caiu num sono profundo.

CONTINUA
 
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